25.6.09

até setembro



Em conformidade com o post em baixo, resta-nos escrever: Até setembro.

18.6.09

em breve

Atrevo-me e digo-o: No princípio não era a carne, mas sim o verbo, mas o verbo desde sempre conflagrado; portanto, não o princípio de uma revolução da palavra começada, mas o incêndio da palavra no ardume alastrada para o fogo. O princípio é, pois, a conflagração da palavra viva que na labareda dela mesma resiste dolorosa ao fim da carne. Quem se atreverá a dizer o contrário, que não está morto desde a sua própria carne que, frágil, não sobreviveu no berço ao fogo manifesto do verbo? Quem se atreverá a afirmar tão medonha e impressionante heresia? Não sei o que digo leitor, aliás, não me leste jamais, porque nunca te escrevi. Leitor. Em breve, abalarei por dois meses ao sanatório da lírica helvética. Voltarei em setembro novamente de mãos vazias entornadas no chão desperdiçado do mundo. Não sentireis a minha falta, nem eu, tão-pouco, a vossa. A woody seguirá à minha frente, umas horas antes para que não caiamos na tentação do mesmo cockpit em pose vertical; seguirá à minha frente como lamparina da minha miopia, logo não estarei completamente só. Irá em trabalho, diz ela; eu irei em nome da loucura, dizem eles. Dizeis vós. Resta-nos a carne, consolai-vos pouco porque vos resta o que somente nos deram: a carne; que a palavra, essa, nunca existiu senão para arder em si mesma. E nós, esses nós, nunca existiram senão para deixarmos de existir em nós mesmos; carnes refractárias, achais, por certo, alguns de vós, mas sem palavras que as salvem. Eis o sério regabofe das nossas vidas.

31.5.09

ou se é Homem ou se é Homem



A prova de que não há mitos (humanos), está no momento em que todo o Homem cai. Ou se é Homem ou se é Homem (não há outra hipótese). Hoje o gelo sueco provou a fragilidade do menino selvático, no entanto não matou o Homem, somente feriu o atleta em campo de batalha, apenas para que o atleta não esqueça jamais a condição humana que, inevitavelmente, tanto dá como tira.

30.5.09

as esquerdas mais bonitas do ténis masculino





Philipp Kohlschreiber, de quem já tinha dito que dele voltaríamos a ouvir falar. Esta tarde mandou o cuequinha nova para casa (perdoai-me senhor, por eu saber tão excelentemente bem o que digo) . Tenho a dizer, sobre Roger Federer, o seguinte.
E uma pergunta: quando voltaremos a viver ténis feminino?

genes

Os meus genes e eu. Por Ana Gerschenfeld.

26.5.09

a 29 de maio

natureza viva


[Realização: Carla de Elsinore]

25.5.09

come cipralex, pequena

Até que nem te sentias assim tão mal, agora vem o teu psicoterapeuta (quereis que diga psiquiatra? eu digo) até que vem o teu psiquiatra e diz que te vai tirar essa depressão. Essa depressão. Tu estavas bem, aqueles gritos contra o rosto dos que amas queriam dizer-lhes que essa depressão que o Aucíndio Valente te quer tirar se calhar nem é tua, mas toda e completamente toda dos que amas. Há uma força tão poderosa na fragilidade de uma mãe, na inclinação lenta das pétalas da tua japoneira, tu tentas explicar essa força aos que amas e eles respondem dizendo que precisas de visitar um psiquiatra. Então fizeste-lhes o favor de marcar o número do consultório da Marquês de Pombal, e por uma última vez consentiste que tudo à tua volta, à excepção da mobilidade da morte das pessoas e das coisas que nunca serão tuas, à excepção da tua melancolia (quereis que diga infelicidade? eu digo) à excepção da tua infelicidade cuja natureza é imensamente gratuita, parasse naquele dia dos teus 3 anos de idade, o dia em que então ainda não compreendias o porquê de teres nascido para o mundo, mas sim para a esmagadora mobilidade da incompreensão do mundo. Agora? Agora és grande como quem diz adulta. Agora toma, pequena, toma o cipralex como manda o clínico, entre refeições e não chocolates, há lá maior metafísica no mundo do que cipralex e assemelhados, pequena, há lá maior metafísica no mundo do que a implacável incompreensão dessa besta que é o mundo e contra a qual já só apenas a tua gratuita melancolia, a que clinicamente chamam depressão, nascida da fragilidade poderosa dos que amas, te salvava. E paga, paga caro a felicidade que eles te prometem, que eles querem que rias, que brinques, que sejas normal, que uma mãe seja apenas uma mãe, uma mãe, só uma mãe, e a tua japoneira tão-somente a árvore que dá camélias que lentamente nascem para a morte rápida e normal de todas as coisas. É muito fácil, entras pelo número 66 adentro, sobes ao terceiro andar e compras a felicidade da marca cipralex como se fossem cerejas à venda na berma de uma estrada de putas. Não vás por regabofes gratuitos, pequena de 3 anos, come cipralex como se fosse cipralex, que as cerejas não passam de cerejas e murcham como tem de murchar a besta deste mundo.

23.5.09

big my secret


Há um silêncio onde nenhum som pode penetrar.
The Piano. [Dir.Jane Campion]

20.5.09

pessoas

Há pessoas complicadas que não sabem o que querem, eu sei o que quero (vá lá, pelo menos mais ou menos), quero pessoas complicadas que não sabem o que querem.

19.5.09

no mês de maio

12.5.09

mensagem


Tu querias ver o mundo para lá dos telhados. Eu sempre achei que há mais mundo por baixo dos telhados. Não será necessário leres Fernando Pessoa para compreenderes o que tentei explicar. Ninguém, jamais, saberá explicar o mundo que existe por baixo dos telhados.
[Fotografia: Allen/alguns telhados de Berna]

3.5.09

as primeiras favas do ano


Suspendi o que estava a fazer para vos vir dizer que estava a debangar umas favas (que me deu a mais generosa das minhas vizinhas, a dona Vitória, à troca de três pés de hortaliças do meu quintal), enquanto deitava os olhos à final do WTA de Estugarda. A Dinara Safina, sempre tão imprevisível, lá me vai dando alguns desgostos, desta vez à troca das favas da dona Vitória de que gosto muito, muito não, bastante. Das favas, que este post é sobre favas e mais nada.

29.4.09

vende-se


É para informar que o Pedro Vieira (Irmão Lúcia) pôs a sua casa à venda. Todas as informações, com apêndice fotográfico, aqui. E vale bem a pena pensar nisso, leitor(a). De contrário, ao menos, é passar a informação de blogue em blogue. O Pedro agradece-nos.

[Fotografia: O pormenor da casa de que mais gosto. Sou aquela que está sempre sentada no cadeirão vazio.]

27.4.09

guerra e paz

Hoje acordei com um dos meus maiores dilemas de sempre: ligar ao meu mais recente picheleiro ou ao meu mais antigo psiquiatra. Talvez um ou o outro um dia me expliquem por que razão tenho uma dor tão grande na palma das mãos, qual a fissura por onde vaza um fio de sangue de cada vez que na palma das minhas mãos seguro o mundo da minha cabeça.

26.4.09

Teresa Salgueiro


Estamos de volta.

9.4.09

intervalo


Vamos de férias e voltaremos daqui a 15 dias. Ficai com Deus vosso Senhor, que o nosso vai andar bastante ocupado.

5.4.09

inspector Nicolau

Há tantos argumentos, mas não precisaria de dizer mais do que isto: tenho mais feitiços do que argumentos, um deles é gostar de narizes grandes e afilados.

Gógol n'A Barraca [até 31 de maio]*


É só para lembrar que há coisas a acontecer neste país, sim, olhai para os blogues, são a prova de que há muitas coisas a acontecer neste país, centenas, milhares, um trilhão de coisas a acontecer neste país, todavia Maria do Céu Guerra não é uma coisa e por isso não basta lembrar que existe, é preciso exceder os limites da mnemotecnia batendo largamente com chicote em quem, injusta e mediocremente, se esquece tantas vezes dela.

* Pede-se dedicação ardente principal e preferencialmente aos queridos ledores d'O Regabofe residentes em Lisboa. Vereis que, se comparardes esforços, não fica muito longe de vossa casa, senão vede o meu caso: para ir a Lisboa, começo por ter de andar uns 20 minutos a pé (se for de noite e em tempo de chuvas, acumula-se o facto de ter de tomar diligências sérias para não pisar salamandras de cores muito exóticas que se atravessam no carreiro); de seguida, tenho de apanhar uma caleche puxada por uma mula velha e só muito para diante, cerca de hora e pico depois, é que já posso apanhar a carreira que passadas muitas horas, talvez dias (consoante os ventos), me deixe indispensavelmente bem perto do jardim zoológico, que eu, na Corte, gosto de ser recebida por gente comme il faut. Por isso, agora ide, ide «qu'a vossa mãe disse qu'ísseis».

4.4.09

Dustin Hoffman


Não sei se traduzo bem o que hoje li, algures na web, mas arrisco. Aos 68 anos, este grande actor de pouco mais de metro e meio disse: «Choro sempre que posso». Não sei, mas apostaria que Dustin Hoffman leva a melancolia de casa para o trabalho; em todo o caso, os seus trabalhos melancólicos fazem-me chorar sempre que se viram para mim e me identificam. Mesmo nas alturas em que não os posso rever, porque estou ocupada a vivê-los.

e depois alfim, cossaca montada a cavalo, a paz

...Ou sejamos! Grandes hussardos de bigode e astracã do mundo fictício, atirando desprezo e ignorância e total inexperiência contra os costumes, as ruas, os bares e as pessoas do mundo real.
Cavalheiro de Beri-Beri, «Guerra contra o mundo real».

cat walk

"Sê tu próprio" pode ser o pior conselho que se pode dar.
Catarina. No Cat Walk. É lincar.

3.4.09

colecção privada

Obrigada, Finn.

1.4.09

a mulher em Chekhov: da mãezinha à puta, com uma desandança de permeio

Do mesmo registo epistolográfico, deixo-vos algumas frases que gostaria que retivésseis no escaninho da vossa mais extremosa virtude literária:

a) A mãezinha de Chekhov era uma santa e chamava-se Evgenia Chekhova. Nas cartas que lhe escrevia, começava por se dirigir a ela deste modo: Saudações, querida Mamã! [Atenção: M em capital].

b) Sobre as mulheres Gilyaks, que observou in situ, deixa o seguinte testemunho: São tratadas como animais domésticos, como objectos, (...) podem ser expulsas, vendidas ou pontapeadas como um cão. Os Gilyaks mimam os seus cães, mas as mulheres nunca.
Que Deus me livre da metempsychosis platónica, que eu, talvez por não suportar feministas, de certeza reencarnaria numa Gilyak, no entanto, assim de repente que me lembre, devo dizer que também não gostaria de exercer facilmente uma profissão sob os efeitos perversos da quota feminina. A Fernanda Câncio, p.e., ontem lá estava no A Torto e a Direito (TVI 24) diante do paz d'alma do Francisco José Viegas e de um outro cujo nome não lembro, mas de certeza atacado pelo terceiro dia da TpM, a tentar defender a tese da quota deitando mão aos (e cito-a) «350 mil estudos» que existem sobre o caso, mas que, parece-me pelo modo como titubeia em televisão (em blogue tartamudeia menos), não leu nenhum deles. Ainda assim, pior do que uma feminista que não agarra o mote pelos cornos e o defende com pertinência, é a feminista cuja voz rouco-esganiçada lembra os insectos estridulatórios diante da língua de um camaleão. A propósito de camaleão e ainda no tema das quotas, o Francisco José Viegas, a dado momento, vira-se para ela e para a Constança Cunha e Sá e diz qualquer coisa do género: Ouçam meniiinas ou então deixem-me falar meniiinas. E as meninas nem tugiram nem mugiram, foi ver, por breves segundos, a Fernanda Câncio calar a sua triste falta de conhecimentos em geral e de postura em particular, e o Francisco, em vez de falar, desatou a debicar qualquer coisa no ar como um galo manso, contrariando os cacarejos da galinha ao lado. O Pedro Mexia sempre soube reconhecer não ter sido talhado para televisão. É triste, meus ledores tolerantes aos meus piores dias, achar que um programa destes ainda é melhor do que esperar eternidades pelo canalizador da allen.

c) Anton Chekhov ia às putas (é verdade, não é da vossa, tampouco da minha, imaginação; lestes mesmo bem). Anton Chekhov ia certamente às putas, senão lede esta passagem do mesmo livro: Está-se sempre a rir e profere de forma constante sons com "ts". Tem uma incrível mestria na sua arte, de tal forma que ao invés de só usarmos o seu corpo sentimo-nos como fazendo parte de uma exibição de perícia equestre de alto-nível. Quando atingimos o clímax, a rapariga japonesa retira, com os dentes, um pedaço de tecido de algodão da sua manga, pega no nosso "velho" homem (ahahahah, isto é sublime!, nem o Henry Miller diria melhor) (lembras-te da Maria Krestoskaya?) e de forma algo inesperada limpa-nos, enquanto o pano faz comichão na barriga. E tudo isto é feito com uma sensualidade artística, acompanhada por risos e do som musical dos "ts".
E fui eu condenar tantas vezes o comportamento do meu querido pai. Homens e mulheres, se fordes casados ou quase, quando chegardes a casa do lupanar, batendo as 5h00 no campanário da vossa consciência, lede esta passagem aos vossos cônjuges, se forem cultos exclamarão com prazer: «Ah, Chekhov, sim, sempre e a qualquer hora; mais, mais»; se não forem cultos, acharão simplesmente que estais bêbados e um bêbado dificilmente consegue coiso e tal.

Vou-me lá, são horas de comer o caldo.

com verdade te minto, com ficção nem por isso [2]

Só há 5 mentiras no (meu) mundo: o Sr. Virgílio, canalizador; a morte da minha avó (uma mulher como a minha avó jamais nasceria para morrer e quem disser o contrário leva um tiro de caçadeira de dois canos no meio da testa; atenção, não estou a brincar); o meu mundo em si mesmo; o mundo para lá do meu mundo em si mesmo. E eu. De resto, acreditai em todas as mentiras ditas neste blogue, porque são verdadeiras. O mesmo se diga, e em contrário, das verdades aqui ditas.

paixão

Eu, que ainda ontem me sentia vivíssima por não ter certezas de nada, só nas últimas três horas cheguei a duas conclusões: 1) Não há nada mais sedutor nesta vida do que a contemplação de uma mulher com um violoncelo entre as pernas; 2) Não há nada mais ridículo nesta vida do que o paroxismo derivado das relações que nunca chegaram a existir.
Quer isto dizer que Álvaro de Campos sabia o que dizia quando falava das cartas de amor ridículas, mas nem por isso soube o que disse quando escreveu à mão cheia que a única conclusão é morrer. Acreditai em mim, eu sei o que estou a dizer. Enfim... A semana que vem é Semana Santa, costumo estar presente em todas as cerimónias pascais: quinta de última ceia e lava pés, sexta de paixão, sábado de vigília e aleluia. Aprecio as cerimónias até meio da vigília pascal, porque invocam a tristeza de morte e a tristeza da morte, e eu sou aquela pessoa muito triste que aos outros leva as alegrias da tristeza. Quando a meio da vigília pascal o padre inicia os cantos alegres da ressurreição, deixo-me ficar calada no meu canto, por baixo do nicho da senhora das dores como se estivesse por baixo das oliveiras do calvário, a achar que o mundo inteiro deveria botar a mão à consciência em vez de invocar para si os milagres da salvação. (uns minutos em silêncio) Não estava para escrever este post, antes pensei em partilhar convosco um trecho de uma sonata de fazer inveja ao sol esplendoroso dos últimos dias, é muito bela, é sim, composta por Johann Paul von Westhoff a quem eu gostaria de dizer o seguinte: - Johann Paul von Westhoff, nem só de Johann Bach vive o Homem, prezado Johann Paul von Westhoff.

31.3.09

hemorróidas

Em registo epistolográfico, Anton Chekhov deixa escrita a prova de que, a partir de hoje, não mais precisarei de me sentir envergonhada quando afirmar: - Tal-qualmente Chekhov sofria, também eu sofro da existência das minhas próprias hemorróidas, meu prezado cidadão. Não sinta vergonha, afirme-o também.

O meu olho esteve a doer ontem e hoje, por isso estou a escrever esta carta acompanhado de uma forte dor de cabeça e de uma sensação de corpo pesado. As minhas hemorróidas também me lembraram da sua existência.

Anton Chekhov. Viagem pelo império russo. p.52. [Trad. (muito reles é favor) de Carla Garrido Barata]

29.3.09

Aviso

A Noite de sempre, autorada por Rui Bebiano, agora em novas e ainda melhores vistas. Caso para afirmar que quem muda a noite ajuda.

23.3.09

da mensagem dentro da garrafa ao... twitter?

A verdade, tão irónica, é que precisamos urgentemente de mecanismos ou suportes de comunicação mais e mais velozes para mostrarmos ao mundo a crescente impossibilidade de comunicação, o quão sozinhos nos sentimos.
Não sem algum pejo, por mim falo.

22.3.09

East, sol que nasce a oeste [II]

Eastwood aconteceu no oeste


Eastwood, coroa luminosa do sol, nasce a Oeste, no coração de Leone, e só recentemente e com a mesma resplandecência parece começar a morrer a Este de East ou em si mesmo. Independentemente de lutarmos ou não por aquilo que ele significa, cada um de nós transporta em si o seu próprio Eastwood. Sobre a cena final de Aconteceu no Oeste -- lugar onde a aura de Eastwood já havia acontecido (vídeo em baixo) e, por conseguinte, inaugurado um olhar humano que contraria, em o desacelerando, o disparo abrupto da existência -- escrevi, no dia 24 de Setembro de 2007, neste mesmo blogue, o seguinte trecho que em nada alterei, porque nada (para o bem e para o mal) poderia ter mudado desde então. É um texto sobre Justiça, sobre um sol que nasce a oeste e que morrerá em East(wood):

Ensinou-me o meu pai que, a partir desta cena (vídeo ao alto), passa a ser possível fazer todos os travellings à figura sempre remota da Justiça - deslocando o nosso olhar para a frente, para trás, de cima para baixo e de baixo para cima, acompanhando-a lado a lado e circularmente, ou montando sobre ela uma larga panorâmica. Não obstante, ficaremos sempre com a impressão dolorosa da sua impossibilidade, ainda que ela esteja em todo o lado e mais ainda, a cada passo, no gatilho do justo, mas infeliz justiceiro. Se é disparada, mata; se não é disparada, deixa morrer. Onde há morte, parece não haver justiça e, no entanto, a morte parece ser o último aviso da Justiça, mas sem possibilidade de retorno.


Independentemente de lutarmos ou não por aquilo que ele significa, cada um de nós transporta em si o seu próprio Eastwood, senão leiamos antes estes belíssimos textos: Ricardo Gross, Sérgio Lavos, Ricardo Gross, mais Ricardo Gross. É espalhar em grande vento.


Lévin

Lévin, um migrante de leste, sentindo-se tão perdido neste mundo e arredores, resolve publicar um anúncio nos classificados do jornal local. Peço, a quem me possa ajudar, a seguinte informação: Onde posso encontrar sementes de clitórias e de cravinas? Oh, estou a brincar, o que vos peço mesmo é o seguinte:

e um só filho chamado Nicolau

José Rodrigues Miguéis é um Tolstoi português. Se me casasse, iria vestida de Karenina, com um ramo de camélias brancas que ofereceria ao altar de Santa Salomé dos milagres, haveria de ser a amante portuguesa de Oblonski, embora jamais viajasse com ele para Itália, porque em Itália, unidos por uma instituição amorosa, estaria a viver com o meu legítimo homem, o príncipe Fabrizio, pelo menos até ao dia em que celebrássemos bodas de ouro e no qual rebentasse uma guerra tão medonha que nos matasse durante um beijo.
Gostei muito do texto do Luís.

duas filhas de um regabofe


Estava para aqui a pensar na minha vida, no que O'Regabofe tem feito por mim que a minha querida mãe não poderia fazer ou ter já feito, e chá servido com madalenas ou uma operação de mudança de sexo de certeza o blogue não mos faz nem mos poderia fazer. O certo é que faço mais por este blogue do que ele tem feito por mim, inúmeras vezes promotor de terríveis acusações. Duas delas subsistem mais do que tantas outras. Por exemplo, não só na cabeça do João Carvalho, mas em muitas outras cabeças me acusam, embora gentilmente, de ser homem (a prová-lo, declara o João, está o buço que foi da allen, allen que, ao contrário de mim, se não se deixa afectar, isto porque, e dá de remate com provérbios antigos tais como «mulher de bigode ninguém a fode»). Todavia, do que me acusam mais é de, frequentemente, escrever um português exemplar (tão imperdoável em senhoras como em quengas, que me não ouça o Eastwood), com algumas falhas, é certo, e o que é certo é que pouco mais levarei desta vida. No entanto, e vede bem a ironia das coisas, se o acordo ortográfico vier a vingar, passarão a acusar-me frequentemente de analfabetismo. Porém, acredito que este blogue, num futuro longínquo, me fará a justiça de através dele vir a cumprir o meu objectivo mais significativo que não passa, naturalmente, pela transsexualidade, mas sim pelo fácil, suave e conformista sabor a derrota ortográfica. Eu mesma me pregarei numa cruz e exclamarei de olhos virados ao céu: Está tudo consumado. E dito isto, expirará o meu corpo de mulher iletrada semelhante a certas mulheres tolstianas que, no restolhar dos vestidos de baile, falam unicamente dos chapéus umas das outras e do palerma do Nikolai, que resolveu alistar-se na estúpida da guerra contra Napoleão em vez de ter ficado em Moscovo a dar beijinhos nas faces submissas da petite petite et chère Julie. Nessa altura todos olharão para mim, pregada aos madeiros d'O Regabofe, e exclamarão: Ah, afinal, ela era mesmo uma mulher! E a outra também, também é uma mulher, sim, afinal são duas mulheres. Vede como são fúteis sem pêlos no buço e por trás dos cosméticos, e que mal tratam a sua própria língua.

Em meu nome e no da allen: obrigada pelo linque, João. Agora já só tem para gastar mais duas tentativas. Tente acertar nos chapéus.

21.3.09

a luz da ignorância

O que sou, como leitora, resume bem a minha vida. Não procuro línguas originais nem mesmo quando se trata de literatura portuguesa (vá-se lá explicar isto), porque não domino nenhuma das línguas da Terra. Procuro, sim, a tradução que me pareça a melhor; quando a encontro, há um mistério que revela que assim é, a melhor. Como diria alguém que não conheço, a melhor, isto é, a mais iluminada de entre as ignorâncias.

primavera omissa

A janela do quarto está aberta e o estore corrido até meio, para que um vento inexistente entre e mova os cortinados. Pela casa soa o "A girl in port", dos Okkervil River. Lá fora uma noite quente de finais de Julho, só que em Março.
Finn

20.3.09

Lucas, cap. 7, versículo 37


E lá cabelos para Lhe enxugar os pés não faltam.

a quem pertence ao turno da noite


Uns vão embora, outros vão ficando até repetirem o gesto de quem já foi, outros, ainda, regressam do sítio para onde partiram e repetem, ou tentam repetir, o sentido da primeira vez. No dia 8 de Agosto de 2007 escrevi este texto. Muita coisa aconteceu desde então, continuo, por exemplo, a sentir dores do mesmo género e o João voltou a regressar. É uma excelente notícia, sobretudo porque hoje, como há já alguns dias, me sinto muito infeliz. Um blogue também serve para dizer verdades. E de noite todas as verdades são verdades, e todos nós solitários. Todos, sobretudo aqueles que afirmam não o ser.
Em plena noite, apenas um cão ao longe. As cigarras. Um clarão bem ao longe, Redondo. Quando chego aqui, fugido dos outros dias, há qualquer coisa que se acende. Há qualquer coisa que ilumina a noite neste monte sem luz. Pareço decidido a recomeçar, do nada. Refazer tudo uma e outra vez, recomeçar do zero.
Em plena noite, apenas um cão ao longe. São noites sem luz e dias claros. É o verão em pleno Alentejo, apenas um cão ao longe, as cigarras.
João Oliveira Santos.
Uma luz acesa há 5 anos (pode dizer-se ininterruptos anos) no Turno da Noite.

19.3.09

antologia da memória


A 7 de janeiro, o Estado Civil morre solteiro e parece não ter deixado filhos; depois o Luís que põe termo a uma Vida Breve. Não há muito tempo, a despedida da Carla de Elsinore. Intuímos inúmeras vacilâncias (inluindo a nossa), eventualmente um ano que dá princípio à morte da melhor blogosfera nacional (dela excluindo o nosso). Sem dramas, meus amigos, que isto é e será sempre assim. Para o bem e para o mal, há blogues que são partículas integrantes de um universo virtual maduro, completamente feito. O Insónia, ou Antologia do Esquecimento, é um deles. Despede-se hoje, confirmando, uma vez mais, o lugar de proveniência e destino de qualquer um de nós, forasteiros de nome Ninguém, ou do que quer que façamos. Lugar a que, honestamente, todos devemos chamar Passagem. Que vença, portanto, a memória da Passagem de Ninguém.

Obrigada, Henrique.

[Vídeo: Memória de uma das fitas de Leone, irónica e infelizmente das mais esquecidas.]

fraternidade


Rocco, o bom frágil; Simone, o bom fraco; Vincenzo, o bom conformista; Ciro, o bom prudente; Luca, a boa esperança; Rosaria, a boa mãe; e Nadia, a boa puta. Um Luchino Visconti em poucas e terríveis palavras.

18.3.09

pêlos no buço

Uma pessoa leva anos até que reencontra um velho amigo que deixou de (nos) reconhecer. Está a acontecer comigo. A última vez que achei que ele era um velho amigo, ainda não tinha descolorado os pêlos do buço, quanto mais tirá-los, sem que, no entanto, isso constituísse impedimento à consolidação de uma verdadeira amizade, ademais, uma verdadeira amizade sai sempre reforçada quanto mais naturalmente se contempla uma pequena excentricidade no amigo que a maioria das pessoas associaria ao padrão dos defeitos e fealdades. Entendemos que o velho amigo reencontrado nos deixa de reconhecer quando, volvidos tantos anos, a primeira pergunta que nos faz perdeu a pertinência de uma estética e ganhou o peso de um tempo em nós diferentemente instalado; O que fizeste ao buço? serve de pergunta metáfora para explicar que a amizade até suporta um décalage temporal, no entanto, jamais resistirá a um tão grande décalage estético-ideativo. O que o velho amigo deixou de reconhecer em mim foi que os pêlos do buço continuam lá, mesmo tendo sido tirados; já as ideias que não existiam quando ainda tinha um enorme bigode e, ainda assim, aos seus olhos lhe era perfeita, agora existem e constituem, muitas delas, enormes defeitos que ele não é capaz de reconhecer, achando-me, por isso, sem pêlos no buço e continuamente digna, como quando os tinha, de uma mesma e antiga devoção. Talvez o velho amigo seja aquele que é tão ou mais capaz de, ininterruptamente ao longo da vida, acompanhar e fundamentar os nossos defeitos em detrimento de uma veneração iconófila das nossas qualidades, tais como pêlos no buço e assemelhados. Escrevo isto com muita tristeza.

17.3.09

Maria Velho da Costa


«Da dor até à dor», MVdC por João Paulo Sousa.

isto é mais forte do que eu

É costume, no entanto, nenhum outro tema do Prós e Contras poderia ter sido mais impertinente do que o desta semana: O que é que Angola tem? Foda-se, a sério, já pareço o Maradona, mas seria de esperar outra reacção? O que é que Angola tem? Já toda a gente sensata e calculista sabe o que é que Angola tem, todavia, durante mais de duas horas foi ignorada a única pergunta pertinente da noite: O que é que Angola não tem? O que Angola não tem é aquilo que todos sabem, mas que os calculistas sem vergonha na cara ignoram: no mínimo dos mínimos, a inclusão da pobreza nos trâmites obscuros da produção de riqueza. O sr. dr. paineleiro Aguinaldo Jaime, um dos tais pretos de alma branca, resume bem a sua posição de economicista escondido por trás da lei da gravata: Se houver uma postura de respeito das leis e instituições, se houver uma postura de respeito para com o mercado, etc., etc., vós perdoai-me a redundância, mas deveria ter ficado numa senzala a levar fustigadas no seu cu gordo para ver como elas doem, e já agora vagar o lugar para a palavra angolana de gente como aquele senhor da audiência, em todo o debate o único branco angolano de alma preta, que teve a integridade (porque já não é uma questão de coragem) de abrir o peito às balas da corrupção e da pobreza. Alguém venha à caixa de comentários lembrar-me do nome dele, por favor, que é uma vergonha eu ter-me esquecido.

depois de maria não me mates que sou tua mãe*

Uma das melhores homenagens, em blogosfera, a portugal real.

* Título de novela camiliana.

16.3.09

é o diz-que-diz-que, Camilo


O Irmão Lúcia lembra muito bem o nascimento do homem que um dia ousou escrever qualquer coisa como Trago nos intestinos Teófilo Braga e uma ténia, e se não é Teófilo Braga, que a minha memória já não é o que nunca foi, pode sempre substituir-se o Teófilo por Manuel Pinheiro Alves. Também tenho umas coisas para contar em homenagem ao portentoso lingrinhas de Ceide. Uma vez fui visitar a propriedade de Ana Plácido, quer dizer, a propriedade que havia sido do seu primeiro legítimo marido e que passou, por ironias da morte, a último abrigo dos amores contrafeitos desta com o seu amante, Camilo Castelo Branco. Uma casa de primeiro andar sita em São Miguel de Ceide (ou Seide), cuja fachada principal exibe os ramos adejantes de um velho quercus que dizem ter sido plantado por Jorge, o filho enlouquecido de Camilo. Conforme se entra, damos de caras com estes retratos, e, para quem nunca viu o rosto de Camilo, cuidará que se trata do segundo à direita. Dizem que Ana Plácido se sentava amiúde no preguiceiro por baixo da grande chaminé minhota, devorando charutos à conversa com os camponeses. Acredito impetuosamente e sem provas. Numa das prateleiras da sala grande e do que resta da biblioteca do escritor, está um prato com folhas de jornal rasgadas em pedacinhos minúsculos e que o guia da casa disse terem sido rasgadas pelo grande amigo de Camilo, Feliciano de Castilho, que, por ser cego, gostava de manter as mãos sempre ocupadas. Lembro-me de ter enfiado uma mão cheia de pedacinhos de jornal dentro do bolso, isto aconteceu há uns anos, mas certamente já terão reposto mais pedacinhos de jornais do século XXI; para que conste, também guardo sempre alguns para limpar os vidros de minha casa. Durante a visita, desapareceu um turista português (eufémica para parvonês com interesses culturais) e fomos dar com ele de calças descidas e muito derreado, tentando levantar a chapa que tapa(va) a antiga latrina da casa. Ao nosso olhar de espanto, exclamou feroz e intrépido
- Queria sentir o que sentia Camilo quando expelia naturalmente os seus excrementos. - Meu deus do céu - pensei eu - há gente neste mundo que não entende que jamais poderia trazer Camilo na cabeça, quanto mais nos intestinos.

freud diz que os orgasmos clitoridianos são infantis

Por razões que desconheço, esta noite sonhei que ainda eu não tinha lido o guião do seu último filme e já Clint Eastwood me havia dispensado do elenco do mesmo, cujo título e data prevista para estreia só eu conheço. Entretanto, despedi-me de Eastwood enfunada e cheia de amargura, e fui para casa. Uma vez em casa, o sol começou a desfazer-se e enormes esferas de lume desataram a cair no quintal, corri para a mangueira e apaguei o lume com uma leve chuveirada. Liguei para os sapadores e estes informaram-me que ainda faltavam cair cerca de 85 mil esferas de lume e que, para meu grande medo, o fenómeno poderia repetir-se sobre as traseiras de minha casa. Já todos sabemos o que Freud pensa sobre os orgasmos clitoridianos, mas, por deus, o que diria Freud sobre isto?

Fila K - uma Cinemateca em Coimbra


Para quem não sabe, fique sabendo que, no meu tempo de estudante, o melhor usufruto de um cidadão decentemente residente em coimbra não ia para lá dos Hospitais da Universidade, além de que, naquele tempo, não havia nada disto, mas agora já há. Gastava os tostões que podia e não podia para me deslocar de carreira à cinemateca da Corte e depois comia nas cantinas do que os amigos me pagavam. Oquéi, estou a mentir, mas poder-me-ia ter acontecido realmente se este post não fosse sobre cinema e sim sobre a ficção da minha própria vida. Adiante. Para qualquer informação, consultar o site dos marginais assim aqui; adianto, desde já, que as sessões de terça comportam entrada livre e este mês é consagrado não a Maria, mas às marias de Cassavetes. No caminho para Fátima ou para os jogos do FCP, um excelente motivo para fazer o desvio e tomar poisada na cidade dos estudantes (de meia-tigela). Com a certeza de que a qualidade dos hospitais, à excepção da psiquiatria que nada tem feito pela cidade, continua garantida.

15.3.09

primeira grande enciclopédia de poche


«Banquetes reais, orgias anónimas, crises de bastidores, turismo pansexual, socialismo socialite, adultério, fetichismo, recriminação, propaganda, clisteres de vodka russo, poemas* em latim e name-dropping numa escala industrial: aqui está uma leitura de férias para toda a família».

* Não sei (eu, woody) se é falha involuntária na gráfica da Quetzal, no entanto -- meu deus, jamais pensei vir a precisar de os citar -- , ensinaram-me os meus mais 'queridos' lentes da academia de Coimbra que há que consultar sempre as «fontes originais».

linque-que-deslinque

Por vezes escrevemos coisas neste blogue que levam blogueres a deslincar este blogue. Normalmente isso acontece quando escrevemos coisas que não passam de coisas; nos dias que correm, a honestidade, por exemplo, não passa de uma coisa; enfim, coisas que não passam das coisas, talvez por isso nos custe mais os deslinques vindos de pessoas que achá(va)mos inteligentes. O amor, já dizia a Amália, é aquilo que nunca me desiludiu. O que nunca nos desiludiu até hoje? Flores do monte, por exemplo.

vestido de quarto

Muito provocante, esta relação não propriamente oposta de eu preferir a belga quando a allen prefere a de Amsterdão. Ai tchiki-tchiki, ai mulheres das nossas vidas.

dos gases atmosféricos ao homo eroticus

No Grande Dicionário de Cândido de Figueiredo ficamos a saber que um pião é uma peça de metal ou madeira, em forma proximamente cónica, com um ferrão na ponta, e que os rapazes jogam, enrolando-lhe e desenrolando-lhe uma guita. Quando li isto pensei que não seria necessário recuperar Boaventura de Sousa Santos dos meus tristes tempos de Universidade para perceber que foi escrito a um tempo cujo pólo científico dominante, ditado por premissas de teor sexista, era o masculino em prejuízo do feminino. Ontem vi um programa no Odisseia sobre o Clítoris, fiquei a saber que a cabeça ou glande do clitóris apresenta normalmente 8000 feixes de fibras nervosas, e que bem precisamos deles para nos resgatarmos do ferrão na ponta do pião. Mas voltemos ao pião. Acusavam-me de ser maria-rapaz por, entre outras brincadeiras associadas à superioridade da glande masculina, jogar ao pião e, desde muito cedo, saber imitar de cor e salteado os vaqueiros do Leone. É fodido, se tivesse apreciado mais a imitação das mulheres da pradaria (preferências da woody), muito provavelmente acusar-me-iam de putinha de saloon e quejandos. Basicamente, e se não degenerou no híbrido maria-rapaz, a mulher ainda se encontra sobre a linha de fronteira entre a mãezinha estado-novista e a grandessíssima putéfia; estamos, infelizmente, longe de um conhecimento que evolua para a equação de forças materno-paternais e o seu consequente prolongamento rumo à supremacia do prazer homo eroticus. Uma epistemologia natural que fundisse, de uma vez por todas, a mãe à puta, e que de uma costela desta fusão se criasse um novo homem. Enfim, tudo isto para vos perguntar, meus ledores cripto-libidinosos, onde poderei arranjar sementes de clitória?

vidas privadas

Esta noite dormi em casa da allen. Uma vez acordada bem cedo, decidi fazer-lhe o pequeno-almoço e levar-lho à cama, e assim o fiz. Fui dar com ela a ler a tradução de Guerra e Paz dos Guerra e resmungando ao mesmo tempo contra a tradução de Anna Karenina feita por Saramago, a sentir pena de quem gosta de ler Saramago, essa fraude comunista, a lamentar-se de quem nunca se comoveu numa linha de Lobo Antunes a ponto de se deixar chorar lentamente e em silêncio. Fui concordando e acenando com a cabeça, conforme segurava o tabuleiro e soprava sobre a caneca de leite com café, Sim, só gosta de ler Saramago -- bufffff! -- quem nunca se comoveu --bufffff!-- numa única linha de Lobo--buffff!-- Antunes -- já está como gostas, bebe! Quando subi para buscar o tabuleiro, dei com ela no terraço alto em robe de chambre, autêntico vestido de quarto, de chapéu de abas largas na cabeça e a lançar o pião das muitas maneiras como só ela o sabe fazer. Não serei a mesma se um dia a allen morrer à minha frente, provavelmente de insuficiência cardíaca depois de me terem detectado um cancro no útero.

andas a precisar de apanhar ar

Apesar de, habitualmente, me deitar muito tarde, desde há umas semanas para cá que me levanto muito cedo, este ano calhou começar a levantar-me cedo durante aquelas duas últimas de fevereiro que, inadvertidamente, vieram bastante quentes. É como diz a allen, chega o março e começo a gostar de apanhar o ar fresco da manhã. Umas vezes corro atrás dele, tem dias que uso uma rede que herdei do próprio Nabokov.

13.3.09

bosta

Anda no ar um cheiro a bosta que eu sei lá, provavelmente das cavalariças de uma escola agrícola aqui das cercanias. Por falar em bosta, e por falar em indivíduos da parvónia, o cheiro da bosta lembra-me sempre uma história contada por familiares meus. O Sr. Armando, o peludo de alcunha, irmão de um tio meu e emigrante muitos anos em França, quando regressava de férias em agosto, entrava no país por trás-os-montes, abria o vidro do peugeot 505 e exclamava alto como um quim barreiros: Ai, mulher, que bom cheirinho a bosta, já chegámos a portugal. O povinho nem se dá conta do quanto é metáfora para si mesmo.

IRS/08 (II)

Engordando a olhos vistos, o peso do sr. primeiro ministro que, pode dizer-se, em quatro anos passou de gazela a bisonte, não tem espaço na agenda para reavaliação dos Direitos Fundamentais dos (donos dos) Animais. É uma vergonha que não seja possível deduzir despesas de veterinário no IRS. Aquela cambada de ursos de assembleia teria muito por onde deduzir se assumissem o que verdadeiramente são. Muito sinceramente, Sr. Engº, deite a mão à consciência e em vez de ir para a Suíça esquiar como um lorde e lesionar-se como um parvonês, aprenda como é que as vacas lá, e isento-me de mais comparações, são verdadeiras senhoras. Nunca falei tão a sério na puta da minha vida.

IRS/08

Só de recibos hospitalares por desembaraço de espinhas encravadas na goela, tenho muito por onde deduzir. Podia ser podia, aguçado leitor, mas não se trata de uma metáfora. Da primeira vez, carapaus à espanhola. Da segunda, sardinha assada com pimentos da tia Isaura. Da terceira, dourada assada na brasa com batata a murro e um fio de azeite de Macedo de Cavaleiros (produção particular). Da quarta, foi tão mau que me esqueci de que peixe tenha sido, lembro-me apenas de ter metido o cartão do médico na mochila, copiado para o mp3 umas músicas de Gustav Mahler e vestido uma roupa asseada antes mesmo de me sentar à mesa. E das outras tantas nem vale a pena amanhar discurso. Tento, ao menos, que aconteça aos domingos e terças, por causa do decote perfumado da Drª Glória e das mãos atrevidas do Dr.Miguel. Também tenho fantasias com mancas e mudos, enfim, o IRS mexe comigo.

suspense

A operadora Celeste Mateus tinha acabado de registar um prato de rojões de porco, um creme de cenoura, uma água sem gás e um copo de sumol de laranja quando nisto...

o cebolo e os melros

Ao contrário de muita gente que percebe de agricultura, gosto de meter o cebolo em março, ao som das primícias dos melros. Abro apenas um par de leiras, o suficiente para, nos meses veranis e em vingando antes da transplantação, não molhar mais do que meia dúzia de cebolinhas em molho salgado de vinagre e azeite. Já quando vivia na casa dos meus pais adiantava-me no cebolo, a Dilinha soía troçar da minha antecipação, ignorava que eu havia inaugurado dentro da minha cabeça uma tradição íntima que consistia em plantar o cebolo depois de os vizinhos terem metido as batatas e antes de começarem a cavar a terra para meterem o seu próprio cebolo. Possuo o dom de um Borda d'Água sem calendário, explicava-lhe eu, meto as cebolinhas antes do tempo não tanto para contrariar o método da gente que entende de agricultura, mas porque assim o comanda a pronúncia dos melros. A Dilinha, conforme ajeitava com uma das mãos as guedelhas à frente da testa, botava a outra à barriga para amparar duas gargalhadas e virava as costas proferindo, alternadamente, senão mesmo em simultâneo, um solilóquio de cumcaralhos e benzádeus. Sinto saudades do tempo passado em que, voluntariamente, faltava às aulas para meter o cebolo, do tempo em que a energia sonora dos melros prenunciava, como corolário, colheitas abundantes, um futuro repleto de agricultores tolstianos, de olhos benévolos e mãos calejadas, portadores de uma voz semelhante à dos melros, uma voz que sobe e abrange pensamento. Quem diria este país de antigo regime cheio de licenciados analfabetos empregues em cafés e pizarias?

11.3.09

os três mosqueteiros


Um dia hei-de começar a juntar moedas de dois euros em mealheiros de arrombamento único para comprar futuras compilações de textos escritos por ele em toda a parte; palavra de honra, estamos perante a emergência do Rogério Casanova, não há por onde negar a prova de uma evidência. Associei às minhas orações profissionais e amorosas um novo pedido a deus: Que Deus queira que RC se leve a sério; a sério, que se deixe de seitas num futuro brevíssimo (e não estou a falar propriamente de jantares) e passe a comandar a sua própria arca de noé. Compreendo que, por ora, não sendo ele um academista, aceite a boleia de um carro de bois, é certo que meritoso, mas não mais do que um carrinho de bois. O FJViegas não me levará a mal, aliás, se não fosse um homem inteligente não o teria reconhecido por trás de uma qualquer sarja cor de senhor dos passos (e que, a preceito, e afirmo-o sem ironia, acho lhe continuaria a assentar bem se RC fosse o senhor da gravata azul e sarja cor do senhor dos passos), apesar de eu sempre no imaginário o ter figurado à feição de uma mescla de três mosqueteiros: barba talhada à condição de um talassa, mosquinha D'Artagnan; um Porthos humorista; um Aramis ninfeu de testa alta, em todo ele dotado de delicadeza; quem sabe um segredo de Athos escondido por trás de uma arma ofensiva. (Andarei longe?). Faltaria acrescentar a estreita elegância de um Neil Hannon, mas que importa se a tem ou não tem quando escreve como só ele mesmo? Que importa se Casanova seria ou não capaz de usar uma combinação infinita de gravatas em camisas aos florões e cintos delgados de pele em cores sortidas, se todos legitimamente lhe consentem epicentralidade, se nitidamente todos à sua volta o adoram; p.e., este retrato não conta a verdade toda, de contrário esta malta far-me-ia lembrar uma excursão de fãs ao redor do seu ídolo e o FJViegas aquele Sr., meu antigo colega academista, muito mais velho, que decidiu tirar um curso na universidade para não apodrecer na reforma, como é que ele se chamava?, o Sr. Fernando, é isso mesmo, o Sr. Fernando, tal e qual o FJV, uma boa alma, uma paz de homem. Enfim, o que eu pretendo afirmar, em essência, ledoras e ledores obsequiáveis, é o seguinte: no panorama da ágora dos literatos da minha absoluta e honesta admiração, ponho em foco Rogério Casanova e Osvaldo M. Silvestre, ambos não necessariamente em relação contrária. Nem um nem outro passam por academistas; o primeiro, fora da academia, certamente lhe dará a volta, até digo mais, por ele meto a minha mão no fogo para não dizer outra coisa. Já o segundo, está dentro dela há um bom quinhão de anos, mas não inevitavelmente ela dentro dele (como diria o Vasco Barreto). O mais certo, para terminar que são que horas, é daqui a 20 anos eu me encontrar velha e bafienta na cama de um hospital, com problemas gastro-intestinais depois de me terem sido detectados melanemas nas análises clínicas, e ainda assim a ler, nas intermitências da arrastadeira, um romance do Vasco Barreto prefaciado por RC e posfaciado por Osvaldo Silvestre, ou não necessariamente por esta ordem de eternífluos.

daguerreótipo


Criado pelo francês Louis Daguerre, em 1837. A páginas tantas, vem no Proust.

excrementícia libidinosa

Embora os méritos poéticos de uma prostituta em regime de intimidade e o seu desprezível mercenarismo público estejam em relação inversa e jamais directa, mentiria se vos dissesse que não sinto um enormíssimo, gratuito e libidinoso estímulo sempre que, na consolação dos lençóis, me encontro a apagar determinados contactos profissionais.

a 5ª avenida da p.161

O Rui Bebiano não dá ponto sem nó. No dia 26/10 do ano 2007 aprontou-nos a partida do agrilhoamento, eu fiz-me desacautelada, ao contrário da woody, e a coisa era o passavas. Ano e meio depois, como se espreitasse pela fechadura de um santuário, dá comigo a ler a quinta linha da página 161 d'O Milagre Segundo Salomé: «Não é má ideia, essa de lhes arranjar empregos. Tudo uma pelintrice.» É como se, num repente, fosse dar comigo santa do pau oco, celebrando, nua, novenas ante o altar da virgem maria. Aproveito o vagão para manipular a crítica de Alexandre Andrade por ele mesmo atribuída ao Mau Tempo no Canal, tomando a liberdade de subtilmente lhe alterar a trajectória autoral. Em anos de existência a minha, eis a melhor crítica viva ao folhoso supra de José Rodrigues Miguéis:
...consegue conter, sem entrar em colapso, uma absoluta limpidez e uma consciência profunda do que de movediço e insondável encerram os seres humanos. Edificado em moldes essencialmente clássicos, esvazia de sentido qualquer discussão em torno da sua posição na literatura portuguesa, em torno de eventuais dissonâncias com tendências ou correntes, contemporâneas ou por vir. Este romance limita-se a existir, soberbo, mas sem reivindicar. A literatura portuguesa continuaria a ser o que é, com ou sem ele. O facto de não se encontrar em nenhuma encruzilhada dos rumos da ficção nacional é uma virtude inestimável. Ninguém o encontra pela frente como resultado de ter seguido um itinerário, ou por afinidade. Inteiro e agreste, só o encontra quem o deseja encontrar.
É preciso que se diga que os melhores atiradores, quando falham o alvo, falham-no com máxima precisão. Acho que foi o que aconteceu ao AA, embora eu, que sou uma vergonha a estender roupa quanto mais a lidar na literatura, perceba tanto da poda como de um lagar de azeite.
Até amanhã, se deus quiser.

8.3.09

sonhos por entre tudo

Nem diários, nem cartas. Os únicos cadernos que a minha avó guardava eram de receitas, algumas apontadas por ela, outras pelo meu avô, que tinha uma caligrafia muito bonita, embora difícil de decifrar. De certa forma, é possível encontrar nestes cadernos um registo fiel do quotidiano dos meus avós. Não só aquilo que comiam todos os dias, mas também parte do que se passava entre as refeições, sobretudo na vida da minha avó: os períodos de escolha, as compras, a preparação dos pratos, o tempo de espera enquanto a comida estava no forno ou ao lume, os sonhos por entre tudo isto. Da última vez que visitei a casa dos meus avós, fiquei incomodada com o vazio daquele sítio que costumava estar sempre cheio de gente. A toda a hora me parecia sentir chegar alguém com coisas para contar ou perguntas a fazer. Um cão ou um gato dos muitos que por lá foram morando.Se ao menos me tivesse lembrado dos livros de receitas.
É tão raro encontrar na blogosfera a narrativa do resgate, uma narrativa de natureza etérea e, por isso, dificilmente decifrável; por consequência, bela. Predominantemente feminina, logo, nada feminista.

também meti maracujás




Uma pessoa vai dando para velha e passa, aos poucos, a consentir o preito universal. Hoje abri uma cova no quintal e meti uma japoneira de camélias brancas. Depois, liguei à woody por sentir necessidade da reacção que vale a pena, a reacção de uma voz íntima que transporte a palavra justa. Para a woody não só homenageio as putas, como lhes atribuo a proporção de um todo maternalício emanante da terra. Uma mulher, para ser completa, irradia-se no mundo para uma intimidade gratuita sem compromisso. Uma mulher, para ser completa, compromete-se apenas a partilhar de uma mesma liberdade com o homem. Depois é vê-los crescer, entregues ao resto do que a natureza dá.


[Fotografias: allen/8março-09. Vídeo: Preisner: Conte d'amour.]

7.3.09

contra-parábola

Manhã cedo. Muitíssimo bem vestido, um velho homem, encostado ao muro de uma casa, gesticula com ambas as mãos como se com dois talheres levasse comida à boca. Aproxima-se um transeunte que, por acaso, - a menos que sofra de rinite alérgica ou esteja constipado - solta um espirro e não diz nada, nem sequer bom dia. Passados alguns segundos, aproxima-se um outro transeunte que repara no velho e indaga: - O Sr. desculpe-me a pergunta, posso saber o que está a fazer, aliás, devo dizer-lhe, com que elegância o faz?! - O velho responde prontamente - Cavalheiro, estou a jantar, é servido? - O homem, primeiro muito pasmado, de seguida soltando umas gargalhadas, reage - A esta hora? - E continua a rir como um tolo. O velho olha-o com pena e declara - O cavalheiro graceja e ri como um tolo, porque acha que não estou mesmo a jantar. Na realidade, e em verdade em verdade lhe digo, não só estou mesmo a jantar a estas horas como, não tardando, arroto-lhe para cima. - Temendo a chegada da sobremesa, o transeunte deu às de vila-diogo e o velho pôs-se a palitar os dentes, fazendo barulhinhos com a boca como se esbichasse um osso de javali.