4.7.08

a fotografia
















Secreto, o referente que sustenta a força de uma fotografia é a imagem que a fotografia não mostra, mas que admite estar prestes a revelar, dir-se-ia uma contra-imagem, dir-se-ia uma contrafortagem; quem sabe a fragilidade do objecto fotografado potenciada pelo fotógrafo, ou a própria fragilidade do fotógrafo potenciada pelo objecto fotografado. Em ambos os casos, a fragilidade é sempre invisível e, no entanto, revela-se por indução de força onde deveria abundar debilidade; vemos isto, por exemplo, na força de um rosto doloroso que esconde sempre a imagem da fragilidade que lhe dá a consistência poderosa. Barthes tem razão: uma fotografia é sempre invisível, não é ela que nós vemos. O que vemos é somente o resultado tremendamente bem sucedido do que não vemos, fenómeno que legitima, por conseguinte, uma alucinose de valor artístico à fotografia, e quem diz à fotografia, diz a tudo o mais.
[Imagem: A teorização da prática e a prática da teoria. Montagem Pedro Duarte Bento. Vontade Indómita.]

3.7.08

no cartaz: sansão e dalila

Bem vistas as coisas, quem é que há trinta anos imaginaria ouvir da boca do Dr. Manuela Ferreira Leite, cujo penteado expirou há mais de 50 anos, as palavras «ligação homossexual»? Haja fé no corte radical.

2.7.08

números infinitos

A luz do infinito
é uma rosa de ouro: uma forma diferida das rosas
que há no céu
ainda um dia hei-de ver
Jesus Cristo e Natália Correia
no
infinito com óculos de sol
um lendo em ascese a bíblia
e o outro
semeando as páginas dos lusíadas
pelos anjos
o infinito é um manicómio
o infinito é uma forma diferida de Deus

Maria Azenha, professora de matemática, vede só.

30.6.08

entre duas águas

É de tarde e sinto calor. Enquanto preencho um recibo verde e traduzo, além disso, outros sinais limitantes, ouço Paco de Lucía entre águas. Quem tenta viver Entre dos aguas, que se dê por feliz, pois com gozo lá vai contornando os muros da barragem.

botânica aplicada*


Desconheço a solução para os males do ensino e da morte, mas posso dizer com propriedade: A flor da clitória é uma força centrípeta. A flor que a gâmia deve levar para oferecer ao parceiro criptogâmico.
[* Ao post da allen, por exemplo.]

cálculo humano

Todo o post que começa por uma citação de Vitrúvio, por maior que seja, merece ser lido até ao fim. [miss allen. Aforismos e outras facécias. Sem tradução.]
No Tratado de Arquitectura traduzido por M. Justino Maciel, diz Vitrúvio: Tendo sido lançado à costa de Rodes num naufrágio, o filósofo socrático Aristipo, ao descobrir esquemas geométricos na praia, teria exclamado para os companheiros, segundo se conta: «Tenhamos esperança! Vejo sinais de homens.»


À escala das minhas competências mínimas, não poupo encómios ao ensino da matemática; deverei ser, aliás, das poucas pessoas, comummente apelidadas de letras, que alcandoram a matemática a estatuto das disciplinas que mais têm servido o número de anos que até agora vivi, mesmo que sobre a minha idade, para o bem e para o mal, não opere convénio ou prova dos nove que acerte a soma do complicado metabolismo mental com os restantes metabolismos (mas estas são galantarias da matemática que prefiro: quente e orgânica). No entanto, confesso que, embora tenha mais jeito para somar as estrelas de um céu campesino ou para contar, em vez de quilómetros, o número de músicas que ouço enquanto pratico atletismo, perdi a conta às vezes em que, mais do que útil, a simplicíssima regra de três simples me tem sido da mais fidelíssima matemática que alguma vez terei aprendido; mau seria se os números, tal como as palavras, não servissem também o jaez de uma linguagem objectiva.
Vem este post atrelado à análise de Vasco Barreto, em o Metro de hoje. Análise que cumpre, outrossim, justos panegíricos à matemática ensinada nas escolas de todo o mundo. O que esta crónica me suscita de embate não terá tanto a ver com a apologia dos postulados democráticos afectos à forma organizada e bem intencionada de um mercado de ensino igualitarista - sempre tão querido à primavera provinciana -, mas sim, por assim dizer, com a engrenagem de sementes distintas lançadas à terra do seu último parágrafo. Ao fazer merecida loa à matemática, Vasco Barreto fá-lo em visível aptidão para as letras e para uma capacidade vocacionada ao pensamento sobre o pensamento. Não há ironias onde existe a certeza de um mérito, e Vasco Barreto tem-no, apesar de, no último parágrafo da crónica desta semana, pecar por alguns erros (de cálculo) e omissões.

Cito: Fazemos bons alunos, não sabemos é lidar com os que vão ficando “retidos”. Que sintamos vergonha disso agora é positivo. Ainda me lembro de um ilustre colunista se gabar de não perceber patavina de matemática. E este país nunca foi para Leonardos, mas para intelectuais das humanidades, um sinal de atraso a que se junta o “não tenho jeito para matemática”, essa definição de talento pela negativa a implicar jeito para não se sabe bem o quê. Nenhum talento se distribui equitativamente pela população, mas as competências mínimas para a matemática estão ao alcance de todos. Se tal exige, a quem ensina e a quem aprende, um esforço superior ao das disciplinas do empinanço, é um investimento recompensado pelo treino de raciocínio e pelo entendimento acrescido do mundo. Agora e sempre: Quadrivium dos antigos era matemática vezes quatro (aritmética, geometria, astronomia e música). Talvez a solução seja reforçar ainda mais um núcleo básico de saber em detrimento de disciplinas ridículas como “formação cívica”, investir na qualificação dos professores premiando os melhores e, em vez da lengalenga do rigor, convencer os alunos de que se chega ao prazer pelo esforço.

Se, à partida, eu não poderia estar mais de acordo com o que preconiza Vasco Barreto quando ataca a cultura pedagógica dominante (atávica e facilitista) e defende uma versão de ensino sustentada por um ideal escolar em compromisso de esforço e interacção dos sujeitos nele implicados – professores, alunos, figura política -, todavia, na hora de definir prioridades lectivas em nome de um ensino de eficácia e credibilidade, não posso aceitar o discurso do deita fora o bebé com a água do banho figurado tanto por Homens de ciência (receosos das letras, reivindicam a superioridade dos números) como por Homens de letras (receosos dos números, reivindicam a superioridade das letras). A seguir esta ordem de ideias, não será errado de todo dizer que não só as letras têm vindo a representar o inimigo nº1 a abater, como também a aprovação dos programas de revitalização do ensino nunca é feita com base na salvaguarda do ideal humanista das letras, mas sim no empinanço da máquina calculadora que nos torna a todos simples números de contribuinte, meros linguistas de mercado. Assim tem sucedido, ganham os números mais perniciosos, perdem as letras mais profícuas. Posto isto e em nome de um ensino de base pautado pelos melhores ingredientes de estudo, não basta a implementação nas escolas das sete artes liberais. No âmbito do projecto de criação de um ensino de escol em portugal, reconsidere-se a solução (im)possível apresentada pelo nosso monarca D. João III: ao Quadrivium lembrado, e muito bem lembrado, por VB, não se subtraia a adição do Trivium e acrescente-se a articulação de outros saberes que jogam por inteiro a cartada erasmiana ou, acatando que da Vinci, o humanista, também foi escritor e homem de letras, a cartada leonardina: aplicação de línguas grega e hebraica, da física e da saúde, do desporto e da botânica, etc., etc. Que o grande inimigo a abater não seja, por conseguinte, nem a letra nem o número, mas sim a ossatura da ignorância vigente, protagonizada - desde sempre o prova a história - pelo «fidalgo sem letras, o clérigo quase analfabeto, o magistrado ignorante (…) agentes ou dirigentes da Igreja e do Estado»; protagonizada pelos novos contingentes de mediocridade em potência, futuros bolseiros de um Estado cediço; por uma igualdade escolar que negoceia com diferenças de estrutura, digamos, fantomáticas: mérito e demérito com base em possíveis sintomas de má hereditariedade (se me permitis o desuso, darwinistas e lamarckianos). Dos números às letras, também desconfio, por conseguinte, de toda a sorte de intelectuais, esses seres humanos atreitos ao retiro monástico, pessoas formadas na clausura de uma existência que não forma uma sociedade civil e muito menos Homens inteligentes no entendimento acrescido do mundo, mas sim frades e freiras portadores de um conhecimento sem utilidade prática. Em resumo, acredito num intelecto inteligente e não em uma intelectualidade que dá ares de ser inteligente; acredito na emergência de um ideal escolar sustentado por Homens de intimidade sincera, aquela que não separa a inteligência criativa da comoção experimentada, aquela intimidade que se conquista aprendendo (também, mas não só) com os matemáticos e os literatos o verdadeiro intuito de se navegar no conhecimento: sobreviver ao naufrágio da descrença, da descrença em nós mesmos, da descrença nos Homens.

28.6.08

amor sublime amor




Sergio Leone&Ennio Morricone

27.6.08

a morte é o ortónimo, um eu despovoado

A minha mãe teve um primo que tentou o suicídio por enforcamento. Estava quase a levar a sua avante quando a mãe dele, ouvindo barulho e dando fé do que estava a suceder, foi a correr, deu com ele ainda vivo a espernear e cortou a corda. O primo da minha mãe caiu e morreu de fractura craniana. Contei esta história à T., disse-lhe que não encontro destino nisto, apenas uma grande metáfora. A T., que acha que a inteligência não lhe serve para nada, afirmou inteligentemente: Decidiu morrer e a morte não o desiludiu. Penso amiúde nesta afirmação, no modo como vai sendo possível aplicar à morte uma outra ideia de morte, a da legítima noção identitária: com a morte dá-se o momento em que o eu - iniciado à nascença nas lides heteronímicas, não de longe esquizofrénicas, ao ter-lhe sido atribuido um nome que, uma vez escolhido fora da sua vontade, nunca poderá ser um ortónimo - dá-se o momento em que o eu se resgata a si mesmo e volta ao sítio que à nascença deixou de lembrar. Que sítio é este? Até prova em contrário, o sítio de mais ninguém, isto é, e seja o que for, o seu lugar. De todas as ilusões, a morte, afinal, parece ser aquela que é francamente a verdadeira e a que, per se, significa e apenas significa o ser da pessoa finalmente acontecido por si e em si mesmo. Ironicamente, e talvez tarde demais, de todos o ser mais evidente, de todos o ser mais vivo.

25.6.08

amor, doce morte

(...) Não há entrega ao outro, porque assim como não podemos experimentar a morte do outro também o amor não se experimenta senão no subjectivo e individualista lugar da comoção, lugar que os poetas tentaram dizer e nunca conseguiram por ser esse um lugar indizível, o lugar da suspensão da linguagem, da palavra esvaziada de sentido. (...) H.Fialho

Vicente Amigo. Amor, dulce muerte. Álbum: Poeta. Ou do sentido esvaziado de palavra. - Para o Henrique, que também lá foi respondendo à allen.

24.6.08

Paris e o resto

Dos sete ou onze pecados capitais, o melhor de todos é Paris (luxúria), o pior será sempre a inveja (em toda a parte).

amor e egoísmo

Egoísmo: amar os outros por aquilo que somos. Amor: Talvez seja, pelo menos e em parte, o contrário de egoísmo, desde que conte, entre os tipos de amor de que fala Tolstoi, o amor abnegado, amor que, bem vistas as coisas, não passa de uma oferta de egoísmo à pessoa amada(?). Ora porra.

explica tu, António

... O óbvio tem sucesso enquanto o hoje é hoje. Mal o hoje é ontem ganha ranço. As livrarias vendem livros rançosos, as galerias expõem quadros rançosos. Claro que tranquiliza comprar coisas com prazo de validade. Claro que não são boas, e isso, por estranho que pareça, é tranquilizador também. Se tivermos à frente Tolstoi aqui à esquerda e o jornal à direita, começamos sempre pelo jornal. O problema é que o jornal da semana passada é o jornal da semana passada e Tolstoi o jornal de todas as semanas, de modo que o jornal da semana passada se deita fora e Tolstoi fica. Agora, (...) como é que a gente explica isto aos paisanos?...
António Lobo Antunes. Explicação aos paisanos. [crónica]

Fátima Rolo Duarte

Estando certa de que há muito seja do amplo conhecimento de todos, verifico insistentemente a extrema sedução exercida por Ana de Amsterdam na pessoa de miss allen, pelo menos desde os princípios da evolução hominídea deste blogue. Tal como allen, quando penso na mulher que eu mesma elevaria aos trâmites mais altos da ressalva blogosférica, justamente aqueles caminhos que dão forma a um mundo bem anterior à blogosfera, mundo esse o da esfera de um corpo completamente interior que não dissocia a função invisível das várias poéticas à pessoa carnosa que lhes dá autoria, ela mesma peça física em operação - parafuso, desandador, outras similares na determinação devaneante do movimento artístico -, penso em Fátima Rolo Duarte. Ela seduz-me. Não como me seduz andar de mão dada com Bruno Ganz nas cercanias fantasiosas da eternidade e um dia, somando as partes eróticas de dois corpos difusos no entrelace metabólico. Seduz-me, porque é quente para ela mesma. Seduz-me, porque pratica ritos amorosos sobre ela mesma. Seduz-me, porque realiza muitas das combinações que dão forma e ousadia à transparência do auto-retrato; combinações que, por honestas, belas e exigentes, sempre legitimarão quaisquer suportes comunicativos, incluindo a bloga, que FRD felizmente jamais poupará ao duro exame invasivo.

23.6.08

anal-fabetismo

O Público informa. Os próprios alunos têm vindo a considerar mais fáceis os exames nacionais deste ano. Confirma-se a minha suspeita de anos: é mais fácil entrar na universidade pela porta do intestino grosso do que debangar feijões ou tirar a tona aos pimentos assados.

um blogue disponente

5 anos.

chove

Impeticando com as videiras, o cebolo, as batatas, os repolhos e os feijões, a chuva, em dias de Verão, desfia o afrodisíaco mais vistoso.

o passado do futuro



... insisto numa mensagem universal. As crianças estão sobrevalorizadas. Elas podem ser o futuro, mas não é o nosso, é o do tempo. O futuro que nos calhou foi a velhice e eu gosto de ir saciando essa saudade.

Vasco M. Barreto. [23 de Junho de 2008]. Vozes. «Das avós». METRO. Ano 5, n.º789. p.16.

20.6.08
















19.6.08

L-Bray electro cardiogram

Kraftwerk a puxar os anos oitenta em musical de pleno século XXI? Espectacular, é o que vos digo.

o vasco pulido valente que há em mim


Não me causou prurido a derrota de portugal contra a Suíça. Os critérios de exigência nacionalistas são traçados à tona das conveniências, se não há o que perder não há o que esforçar (bem pensado, é um lema, afinal, nada orgulhosamente nacionalista). A derrota da equipa portuguesa contra a selecção suíça engendrou alguns comentários de extremo e postiço orgulho nacional, denunciando, por exemplo, o possível rebaixamento dos emigrantes portugueses ante o iminente e ainda mais aviltante suíço do dia seguinte; o mesmo suíço que, enfim, paga quatro vezes mais o salário mínimo português de um operário fabril que, na Suíça, em vez de dar cola aos sapatos à jorna de 400 euros/mês, se ocupa das camas de um hotel, das embalagens de café ou dos legumes, das estufas de flores, das registadoras e prateleiras dos supermercados, das limpezas de casas e escritórios, dos muitos trabalhos universalmente dignos, mas que, em portugal, jamais desaguarão em contas bancárias recheadas; em casas que, ainda que pobres na Helvética, são bem mais confortáveis do que as pobres portuguesas (ali, frescas de Verão, quentes de Inverno, os frigoríficos e as despensas em cópia); jamais desaguarão em escolas e cursos de línguas alemã e francesa (quantas vezes pagos pelas entidades empregadoras suíças); em escolas e instituições de integração social onde a regra da competência não pactua com a desordem da hipocrisia (quantas pessoas com graves problemas físicos e psicológicos que, em portugal, não passam da chancela ao deficiente); jamais propiciarão tempos livres em espaço ordenado para desporto e gozo salubre das proporções paisagísticas; jamais resultarão em tantos outros ingredientes responsáveis pelo bem-estar de milhares de portugueses adultos, jovens e crianças que, bem longe, sentem a nostalgia e a saudade não do país que os empacotou, mas dos familiares e amigos ausentes. Posto o exemplo, misturar futebol com orgulho nacional é de quem não entende os fundamentos da nossa desgraça social, é de quem não vai além do orgulho nacional de superfície, é de quem se fica pelo inchaço henriquino-navegador que ao mínimo toque da agulha da instrução rebenta que nem balão de São João. Os portugueses que assim pensam, pensam mal e pensam-no aqui, na Suíça, na Alemanha, em França, em toda a banda. São os mesmos portugueses que, podendo ter acesso ao terraço cultural, não trocam a bola e a cerveja por uma aula de alemão ou francês, por um livro, por uma partida de futebol com os amigos, por uma conversa com os filhos. São os mesmos portugueses que na Suíça trabalham 7 a 10 horas por dia semanal, enfrascam portuguesmente aos sábados e domingos, compram um carro topo de gama, pagam a construção de uma casa portuguesa com telhado inclinado de duas águas (ridiculamente preparado para os temporais de neve), botam Dino Meira a caminho do querido mês de Agosto enquanto desfraldam vivas a portugal com o mesmo entono com que batem nas casadas e nas divorciadas. São os portugueses deseducados, são os portugueses analfabetos, são os portugueses obedientes a eles mesmos, isto é, obedientes à entronização de um poder que submete os Homens através da deseducação dos Homens; são um povo que deseducado mais facilmente se manipula - é o povo eleito dos governantes -, é o povo que os governantes elegem a fim de por ele serem investidos. Não é o povo que melhor ordena, mas é, seguramente e na dupla acepção do termo, o melhor ordenado* (português).

Hoje a equipa de futebol portuguesa joga com a selecção da Alemanha. Pedem-me que faça força em nome de portugal. Respondo que faço força em nome de portugal todos os dias da minha vida, sobretudo quando estou sentada na sanita a pensar nos milhares de portugueses, literatos e não literatos, a quem o seu próprio país condena à grande merda. Para falar de contexto futebolístico, não gosto do Scolari, longe de o considerar um bom treinador, acho-o rancoroso e tecnicamente faccioso; o jogo contra a Suíça representou a ordem do seu luso-brasileirismo bacoco e estupidamente acomodado. Posto isto, dou a César o que é de César e farei força em nome dos atletas, farei força em nome do desporto (que prefiro sempre praticar a ver), farei força em nome daqueles que exigem sempre mais e que, honestamente, são reconhecidos por isso. Contra a selecção esforçada de um país forte, que ganhem, esta noite, os atletas do país mais derrotado, com afeição extremosa aos atletas que o meu irmão, em casa de pai sportinguista e mãe benfiquista, me ensinou a admirar: os da escola Mourinho e do melhor Clube de futebol português, o da cidade do Porto.
[* Para quem não percebeu, quero dizer: salário e comandado.]

18.6.08

cocoteria

Estou capaz de me atrever a inferir, sob interpretação maliciosa, que és bem mulher para bater «o fado ao amor e ao freguês». Sua velhaca bastante maravilhosa.

deitou-se na minha cama e chamou-me mulher

É preciso que eu diga que é mister muita paciência vossa, nossos valentes ledores, até que percebais, não obstante similitudes nos tiques do verbejar (assentes num jeito comum de pensar que não põe de banda a sadia alienação das coisas e dos Homens), que eu e allen lá levamos nossos ademanes (similares ou não) consoante as posses de cada uma, assim que entre nós ambas diferenças as há, muitas e tantas até mais não, que só pelo fio de algumas leituras d'O Regabofe podeis dar força ao novelo que vos teço. Digo-vos isto à conta da generalização atrevida, mas donairosa, de um dos meus mais estimados tradautores de cabeceira: Filipe Guerra. Na enfiada de muitos dos meus disparates, provavelmente dei ares de quem, vez por outra, bate o fado ao amor e ao freguês, mas estou certa, ao contrário do que pensa Filipe Guerra, que de amores lá vou indo sem queixume ou Jeremias, e muito menos montada em escatologia; confesso-me, no entanto, suficientemente escarmentada de há anos que outro provérbio não amanho na vida senão este: não há bem que sempre dure, nem mal que sempre ature. Todavia, e apesar do sentencioso, também aqui me desencontro dos trautelos da allen, sempre de amores tão desasada e pesarosa, que tenho para mim levo tempo de orgasmos tanto ou mais quanto ela de tempo leva puxando suas ricas alimárias pelo cabresto. E que ricas alimárias, já lho tenho dito. Siga o cortejo!

feitiços



Porquê escolher (fotografar) um determinado objecto, um determinado instante, em vez de outro? A Fotografia é inclassificável porque não há qualquer razão para 'marcar' esta ou aquela das suas ocorrências (...), uma foto é sempre invisível: não é ela que nós vemos.
[Roland Barthes. A Câmara Clara. Trad. Manuela Torres. p.19.]
[Fotografia: miss allen/08]

17.6.08

relativo à noite


Ouves Morricone para Yo-Yo Ma enquanto a noite propicia a narração da multidão nocturna de gatos e sombras. Dizes o nome das coisas que não vês. Dizes o nome dos gestos que não vês. Dá-se o momento em que encetas agitação na tua memória, mas só o violoncelo, com a agilidade de um bom cansaço, se levanta do lugar das horas engradadas e beija a sombra dos gatos. Não és livre senão para chorar, de vez em quando, um bom bocado.

sou fadista

Em 2001 disse pela primeira e última vez as palavras amo-te e prometo amar-te para sempre. Lembro bem que havia um áudio no acto da cena amorosa a verter o Fadinho Simples da boca da Marta Dias e das cordas do Chainho. Ao cabo de 7 anos, topo este fado que não ouvia há quase uma década e recordo as palavras fatalistas do cavaleiro dom Quixote, o da triste figura, que afinal nada propõem e tudo concluem: não há memória que o tempo não acabe nem dor que a morte não consuma.

16.6.08

caminhos da memória

Photobucket
Antes e depois do tempo: no tempo. Caminhos da Memória; o salto de tigre num blogue de Diana Andringa, Irene Pimentel, Joana Lopes, Maria Manuela Cruzeiro, Miguel Cardina, Raimundo Narciso, Rui Bebiano e demais colaboradores.
[Imagem: Gilbert Garcin. Courir après le temps.]

13.6.08

Fernando Pessoas


[ © rabisco vieira, concebido para a montra da livraria almedina atrium saldanha]
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
[Álvaro de Campos. Tabacaria.]

12.6.08

ensaio

Anda, escreve sobre isso, ensaia depois. Ensaia depois, que aí - só aí - poderás declivar o que ficou por dizer. Nada do que disseres te servirá de apálage; nada do que disseres te servirá de consolo; nada do que disseres te fará chorar; ainda assim, tenta, tenta escrever sem a angústia indispensável ao prazer, concede meramente prazer à necessidade do texto. Toda a criação – lembra-te – acontece na latência da obra, acontece quando a possibilitam ao desmaquilhante, acontece quando acontece nas imediações do ensaio. Anda, não fujas, começa no palco, ganha os aplausos, ouve os aplausos, recua devagar, aprende a recuar devagar. Quando tiveres aprendido a recuar, estarás pronta. Lembra-te, não fugir é como saber recuar.

10.6.08

primeiras rosnadelas

Bruno corrobora a sem-vergonhice; Shyznogud promete dar dentadinhas na bandeira nacional; vede só, até o simples empregado da margem do rio douro cãomemora o dia da raça. Outros virão; as PFtv agradecem. Entretanto, neste bumba-meu-boi, a minha lesão muscular do pé esquerdo passou para o direito. Até quarta-feira, ledores meiguinhos.

10 de junho: tudo se passa em portugal, é engraçado, não é?

«Tudo se passa em Portugal, é engraçado, não é? Eu trago Portugal, eu trago… de Portugal... de, trouxe meu estúdio de Londres... tudo; até fatos que eram da minha mãe, roupas da minha avó, coisas antigas... chaveninhas que eu tinha em criança, de brincar, trago tudo pr’ali, ali é que faço... a’stórias(ao minuto 1:57)

Na transição entre Paula Rego e os ingredientes pictóricos de Paula Rego, esta mulher que amamos - psicanálise que restitui consciência à nossa inconsciência - fala com o viço de quem celebra a dantesca casa de bonequinhas e bonequinhos portugueses. Reparai, por exemplo, na boneca da velha vestida de preto, lenço rubro-florido na cabeça e manguito ao alto. É raça da pura, senhor presidente da república.

9.6.08

10 de junho: sublinhar a raça

Interpelado sobre o protesto dos camionistas, o camionista Cavaco Silva respondeu nos seguintes preparos: Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Federer: cortês, mas não leu Casanova



Há momentos em que a amabilidade está completamente fora do seu meio natural e em que a prudência ordena que se seja pouco amável.
[p.215]

le pas du chat noir



A mãe da G. – amiga de anos – tem uma gata que pariu dois gatos há sensivelmente um mês, ou talvez nem tanto. Falei-vos do preto que me foi prometido por eu andar há tanto tempo na ambição de um gato de cor preta. Uma semana depois de apalavrado, a G. diz-me, com desculpas andrajosas, que o felino negro desapareceu estranhamente. Eu achava que um gato, quando muito, desaparecia misteriosamente, mas nunca esquisitamente. Não conheço a mãe da G.; sei, apenas, que sugeriu à G. que eu escolhesse o outro gato, por achar o preto feio por ser preto (reparai, ledores do século XXI: o que está aqui em causa é o cerne da atávica caracterologia lombrosiana); sei que está filiada na opus dei; que será, presumivelmente, supersticiosa (teologia, superstição e Lombroso é igual a uma soma mais perigosa que bíblica, que, ainda assim, Deus nosso Senhor incumbiu Noé de salvar do santo dilúvio um de cada espécie); sei, a julgar pelas descrições da filha, que a mãe da G. é o pigmento bravo da vida da própria filha. Posto isto, Luís, o que quer que tenha acontecido a Mahler ou a Alma interrompeu o andamento da luz bela, negra e paciente do imaginário dos meus dias futuros; durante noites fiz o recorte mental de uma relação que deu na proliferação de imagens amorosas que alguém, para minha frustração, aprisionou em paradeiro incerto. A história do meu gato de cor preta verte agora para a seriação estapafúrdia da máquina humana. Neste sentido, um blogue, comparado a outras lorpices, ao menos vai permitindo, de um modo quase generoso, a possibilidade de recriarmos os contornos de um mundo que vem, diariamente, sucumbindo ao império limitante dos Homens. Que fique de aviso: ver a mãe da G. pode dar azar.

7.6.08

o futuro do passado


Ao tempo da sua reprodutibilidade essencialmente técnica, o ténis feminino tem vindo a colocar-se mormente no panorama da velocidade numérica que escapa à narração lenta de um instante pictórico. Há mais momentos de pancada potente (quando surge, já escapou à dimensão do tempo) do que de pancada em potência (quando surge, surge para a iminência de um outro espaço de tempo, dedicado à memória de um grande amor). Na transição de Navratilova para Graf, houve o sonho de uma esquerda que se não perdeu para uma outra esquerda (a uma mão); houve a exposição de um corpo em movimento que suspendia o gesto em nome da beleza sustentada do gesto; houve uma duração própria no olhar que admitia a longa maturidade do pensamento; houve uma entrega humana que servia de extensão relacional ao singular tenístico. Face a Martina Navratilova e Steffi Graf, Henin, minha única esperança depois do afastamento de Graf em 1999, não envergonha pelo número consideravelmente menor de títulos alcançados pelas duas primeiras (inauditos 167 e 107 para os 41 da minha belga), porque Henin, com humildade e decoro, é a última tenista da minha memória que soube mostrar aos amantes do ténis a diversidade de uma escala tão humana quanto a nota de perfeição figurada pela consciência dos limites de um sonho. Sem implicações de ordem técnica, ainda que o triângulo Navratilova-Graf-Henin represente um quadro de combinações e soluções práticas de referência universal (manuais de estudo obrigatório para qualquer profissional ou amador), em ténis, como em outra qualquer realização humana, é a recriação abstracta das ideias que mais opera em nome de uma presença física em compromisso de profundidade, de outro modo tudo tenderá a recuar na direcção de um futuro de aparências infundadas, deixando para trás, felizmente, o lastro da história destinado ao conforto e à projecção dos sonhadores.

6.6.08

saudades de Henin



Sem Henin na guelra, escrevo este post animada por um certo torpor. Ana Ivanović: n. 1987; c.1,85 m; 69 kg. Dinara Safina: n. 1986; 1.83 m; 70 kg. Justine Henin (desculpai, não resisto): n. 1982; 1,66; 57 kg.
Amanhã, a muito bonita e meiga Ivanović (menos histérica do que Sharapova) tentará em Roland Garros, diante da terna e discreta Safina, o que ano passado não alcançou à face de Justine Henin. Para meu grande sofrimento, a ausência de Henin obriga a que este ano Paris estreie nova triunfante do Grand Slam, dir-se-ia, mais espectacular da história do ténis. Vizinhas em endurance e no ataque de fundo de court, as diferenças que separam estas duas atletas não representam de contínuo o ténis decisivamente imposto por um calibre ao mesmo tempo quente e rigoroso, o de Henin.
Em todo o caso, as oponentes deste ano interpretam batidas poderosas oportunamente controladas no fundo de court (uma vez pesada a mobilidade de ambas): Ivanović, protagonista de direita; Safina, protagonista de esquerda. Com serviços bem cruzados e movimentos mais soltos no court, quer Ivanović - colocando bem a esquerda depois de um ataque persistente de direita -, quer Safina - colocando bem a direita depois de um ataque persistente de esquerda - poderão, à mercê do contrapé, dar uma expressão de eficácia milimétrica, sem grande perda de ritmos, a uma partida de ténis que intuo, honestamente, obrigará a ambas o jogo de pés que lhes falta. Safina amadureceu; violenta, mas táctica (desde que dominada a precipitação), não poupará o mimo nervoso e a insegurança (embora em maior contenção) de Ivanović, aquela que, de ambas, mais facilmente acusa a pressão. Ana Ivanović também amadureceu, creio que explorará mais o court com vista a forçar corrida à adversária; não tombando em contradições não forçadas, dêmos-lhe, finalmente, uma palavra de confiança. Em qualquer caso, serão desbravados caminhos novos, ainda que sem vislumbre de herdeiras da senhora matemática do ténis. Henin impunha-se a si e por si mesma, abria as fronteiras da experiência desportiva, fabricava soluções impressionantes e fluía em si mesma à semelhança da tal ave de rapina. Discursivamente, o ténis feminino volta a aguardar a poética liminar mostrada em toda a sua entrega.

Para amanhã, esteja o melhor do lado das duas, e que vença o ténis.

4.6.08

feitiços




[miss allen/08]

3.6.08

de cor preta

A G. será a madrinha do meu gato de cor preta (ou gata) que, em breve, virá. Sugeri, para nome do gato, Mahler. Ela sugeriu, caso gata, Alma. Se for gato, será Mahler. Se for gata, chamar-se-á Puta d'Alma e amá-la-ei tanto quanto Mahler amou a Alma. Sinto que esta confidência, que dispostamente verto, faz bastante sentido; a blogosfera não é muito mais do que isto.

diz que dão melhoras de tempo

Não estive, em Coimbra, na sessão de Os Livros Ardem Mal deste mês (ontem). Nos últimos dias, tenho andado um bocado cansada de certas condições de existência, seja a condição humana na razão óbvia (tudo serve para qualquer coisa, qualquer coisa nunca servirá para tudo), seja a condição humana da razão louca (tudo não serve para qualquer coisa, mas qualquer coisa serve para tudo), seja, enfim, a minha condição humana: Sei muito pouco sobre tudo, mas, infelizmente, sei demasiado sobre o pouco. Li o homenageador de Osvaldo Silvestre e acontece que, não fosse, ultimamente, andar a dar-me um certo avatar entre a meia-noite e as sete da manhã (assim por alto), vamos que arriscaria pedir-lhe em casamento pois, qual cáspite, ledores tranquilos, o texto está brilhante; parece que a Pedro Mexia, depois de o ter ouvido, custou dar a volta com singularidade estilística apartada de qualquer totalidade literária sem estilo nenhum, mas agradeceu com a mesma admiração que sempre nutriu por um dos seus casmurros preferidos, segundo me disse a woody, agradeceu pelo menos três ou quatro vezes por segundo. Para além do que interessa, certa vez falei ao Pedro Mexia na Avenida de Roma, tem uns olhos muito bonitos e deu para perceber que gosta de beber água em sossego sentado, portanto (e digo isto também à woody, que ela não é mais do que vós, ledores tranquilos), dai, uma vez por outra, uma oportunidade ao regabofe das vossas vidas, mas depois, fazei como ele, prossegui com elas num certo sossego de catedral. E senhores, este blogue já teve 107 linques e está nos 79. P.f., não deslinqueis o'Regabofe, que eu não tenho culpa de nada.

pedro mexia arde bem

Aproveitando uma breve demora em Coimbra (em trabalho), e sem imaginar que ia para um funeral, ainda assim imperou na minha intuição franciscana que vestisse uma serapilheira e não fosse envergada de pantalona administrativa (desde ontem, com mais esta do Eduardo, ainda trago nos intestinos a melhor das gargalhadas). Sozinha, cheguei depois das 18h àquela que, seriamente, veio a dar-se paródia exequial; sentei-me entre dois cavalheiros e ali me deixei estar, como vim ao mundo, quase nua e sem sinete. O vulgo ensina, embora o não cumpra, que não é de bons modos reparar no trapo alheio, muito menos em contexto de cerimonial fúnebre, lugar onde mais se deve assestar o binóculo sobre a aparência do morto enquanto lhe rezamos pela alma do que na compleição aparentemente viva de um e outro quinhão de audiência; de modo que, no espaço de um par de minutos, me limitei a observar os presentes pela tona da linha do horizonte, e ainda assim não me passou despercebido, entre os que se faziam encontradiços (eu no rol), o semblante de cacto manso e esquadrinhado do Eduardo, à parte que nos toca: bom pistoleiro do tiro pela culatra. Acho que é feio aventurar su(b)posições tão atreitas à estima do povo, sobretudo quando, para mais, sou aquela que sói abancar-se nos lugares derradeiros da praça, lugares de onde, para tédio e infelicidade dos bem-aventurados olhos humildes, melhor se vêem os inúmeros perfis ancilosados e a desditosa infelicidade das carecas do que a promessa dos dias felizes destinados àqueles que, escolhendo esses mesmos lugares derradeiros, estão reservados, aos olhos do Senhor Deus, às disposições mais elevadas do prazeroso kamasutra celestial. Benigno Eduardo, seu brincalhão, sugiro-lhe que, a haver próxima, comece por treinar a pontaria ou, melhor conselho o de Brecht, trate antes de eleger um novo povo se é que este lhe degenera a estima.
No entanto, não nos desviemos do miolo do regabofe. O meu apontamento sobre este episódio de Os Livros Ardem Mal vai de sinopse e escusa mais desenvolvimento lapidário: Apolinário Lourenço compendiou as suas escolhas literárias; Luís Quintais fez o mesmo; Osvaldo Silvestre, novamente na qualidade de Convidado Especial, presidiu literariamente às cerimónias de cremação do fantasma. Osvaldo Silvestre homenageou Pedro Mexia com diplomacia e luvas brancas, e o senhor fantasma, sob a acha do cinismo e da ironia mordazes, deixou-se arder tão bem que não tenho memória de um espectro, diante de si mesmo – face com anteface congénita - ter ruborescido tanto.

Obituário de Pedro Mexia em 2048

Segunda-feira, 02-06-2008
“Faleceu ontem Pedro Mexia. Foi poeta, crítico, pioneiro daquilo que há umas décadas se chamou blogosfera, romancista (com um único romance) e desempenhou uma série de cargos institucionais, de subdirector, e depois director, da Cinemateca Portuguesa, a Ministro da Cultura. Após uma publicação inicial algo intensa de volumes de poesia, passou a ser um poeta bissexto, editando cada vez menos. As suas duas últimas colectâneas, espaçadas por 12 anos, bem como a reunião, muito desbastada, da sua obra poética, suscitaram um consenso crítico que a certa altura parecia ter desaparecido. O seu único romance, já tardio, uma vasta suma intitulada Só e mal acompanhado, foi amplamente premiado mas debatido com rara virulência: houve quem referisse Blanchot e Beckett, houve quem dissesse ser o mesmo de sempre, numa espécie de vasto blogue feito de pequenos e grandes nadas. Publicou dois volumes de crítica literária, o último dos quais em 2010, com o título Fogo Lento. Depois dessa data, que coincide com a extinção do último suplemento literário na imprensa portuguesa, deixou a actividade. É consensual que revolucionou a Cinemateca no período em que a dirigiu, mas ao preço, acusam muitos, de a ter aberto em excesso ao mainstream e de ter manifestado um profundo descaso por cineastas radicais da linha de Pedro Costa, o que lhe valeu um famoso abaixo-assinado de protesto contra «A segunda morte de Bénard da Costa». Como Ministro da Cultura distinguiu-se por não ter mudado o nome a nenhum dos institutos sob sua alçada e por ter continuado as boas práticas do seu antecessor directo, Rui Tavares. Como ele, queixou-se de falta de verbas para a Cultura. No cômputo geral, a sua obra escrita, muita dela produzida para os média, deixa uma impressão de dispersão por demasiados mundos, manifestando, segundo alguns, a incapacidade de Mexia para escrever uma obra ensaística de grande fôlego. Em vida, quando confrontado com semelhante acusação, Mexia concordou sempre com a crítica, lembrando porém a máxima de Borges segundo a qual «Esforço inútil é conceber vastas obras. Mais vale partir do princípio de que elas existem e escrever-lhes breves comentários». Católico não muito praticante, foi a partir de certa altura membro do Conselho Consultivo da Universidade Católica. «Morreu dentro da fé», garantiu o Cardeal Patriarca Tolentino de Mendonça, que o acompanhou nos últimos momentos, momentos em que, segundo fontes bem informadas, não nos deixou sem citar um dos seus autores de cabeceira, Machado de Assis: «Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria».”
Correio da Manhã, 2/06/48
Osvaldo Manuel Silvestre

30.5.08

entre duas liberdades

Cruel, o dilema dos amantes solitários que consagra a separação entre o Homem e o Homem; o que fazer quando a escolha ocorre nos termos mais difíceis: liberdade amorosa e/ou amor à liberdade?

(Para ti)

acetona faz coisos na cabeça

Ontem, enquanto usava a acetona nos restos de verniz das unhas dos pés, juro, só por coiso liguei um bocado a televisão. Estava a dar o Deco, o quarto do Deco, o sítio onde o Deco tem dois computadores - um mais para fotografias e outro mais para coiso -, a esplanada onde o Deco come os churrascos e apanha o sol de portugal (menos tradicional do que o sol do brasil), o sítio onde o Deco joga a playstation - aproveita e joga a playstation com o coiso que lhe está a fazer a entrevista(?) -, o sítio onde o Deco dorme e lê a bíblia internacional, o sítio onde os cozinheiros do Deco cozinham (pareceu-me uma cozinha) e onde, às vezes, o Deco fica para comer e bater papo com os cozinheiros do Deco enquanto os cozinheiros do Deco cozinham a comida do Deco que ele vai comer, de vez em quando, no sítio onde os cozinheiros do Deco cozinham. E quando coiso, snifei a acetona, estatelei-me, nisto acordei – com as bofetadas da minha consciência –, estava a dar a novela da tvi. Não sei quem terá sido o espírito benigno que mudou de canal, sei, apenas, que hoje não vou pintar as unhas no quarto do Ronaldo, no sítio onde o Ronaldo tem dois computadores - um mais para fotografias e outro mais para coiso -, na esplanada onde o Ronaldo come os churrascos e apanha o sol de portugal (mais tradicional do que o sol de inglaterra), no sítio onde o Ronaldo joga a playstation - aproveitará, certamente, para jogar a playstation com o coiso que lhe vai fazer a entrevista(?) -, no sítio onde o Ronaldo dorme e lê a playboy internacional, no sítio onde os cozinheiros do Ronaldo cozinham (de certeza uma cozinha) e onde, às vezes, o Ronaldo fica para comer e conversar com os cozinheiros do Ronaldo enquanto os cozinheiros do Ronaldo cozinham a comida do Ronaldo que ele vai comer, de vez em quando, no sítio onde os cozinheiros do Ronaldo cozinham.

28.5.08

ângulos

Para os olhos do Finn, que ensinam os meus.

andar de esperanças

No entanto, Henrique, estou na incerteza de se devo ou não devo plagiar Proust, se devo ou não devo ganhar a esperança de que, em o plagiando, ele me entre pela casa dentro exigindo-me satisfações. Deus nosso Senhor o permitisse, e seria certinho como estar aqui e agora, neste ermo de vida.
Pensando bem...
- Eu adoro os artistas - respondeu a dama de cor-de-rosa -, só eles é que compreendem as mulheres... Só eles e os seres de escol como você.
(Agora sento-me e espero. Ai meu Deus, é melhor abrir as portas e as janelas, mas está a chover tanto. O que é que eu faço? Ai, que barulho foi este? Será ele? Proust? Está aí alguém? M'sieur Proust? Ou será o tradutor? S'nhor Tamen? Quem está aí? Ui, q'isto mete medo.)

27.5.08

Out of Africa



Lugar onde nasceram dois amores.

Sydney Pollack

Cada um lembra como sente.

fazer caminho [2]

Photobucket
[fotografia: miss allen. Porto/CdM]

fazer caminho

Fazer por tornar parafrástica não a corajosa intenção crítica, mas a lista de livros e de escritores lidos e por ler, pode atear em quem nos lê a ideia de que já estamos a falar de livros, embora não estejamos realmente a falar de livros (eu pecadora me confesso: chega a ser tedioso ser reizinho em terra de cegos). Ler, interpretar e fazer mapas é uma arte, mas uma arte que ganha força por derivação. Falar de livros é escrever sobre os livros (nisto, claramente, Pedro Mexia e quejandos têm algum valor) e, na melhor das hipóteses, escrever livros por derivação. Ou, então, estarmos calados, isto é, estarmos a ler os livros, uma forma tranquila e nada fiteira de pôr os livros a falar uns com os outros. Em quaisquer casos, na disposição amorosa e com muitas dificuldades, aprende-se muito; aprende-se, principalmente, a não chegar a lado nenhum, com uma diferença: no último caso, aprende-se - acima de tudo - a sonhar; a sonhar que um dia talvez venhamos a escrever como Proust escreveu, quero eu dizer, aprende-se a fazer caminho rumo a lado nenhum, todavia, ao contrário de Proust, a fazê-lo em paz. Isto não será melhor, mas também não será pior. Para trabalhar o sonho ou para sonhar o trabalho, convém, antes de mais, sair do limbo.

obrigada meu deus, porque sois infinitamente bom [10]

Com o homem sucede o mesmo e até um pouco mais, porque saturado de humanidade, ao contemplar a imperfeição ascende à transcendência. (...) Se perante a perfeição só se pode prestar vassalagem, ganhamos nobreza no elogio das coisas imperfeitas.

26.5.08

ignorância

Há quem, por falta de humildade ou por óbvio conhecimento dissimulado, coteje dois tipos de ignorância: a ignorância luminosa e a ignorância sombria. Em verdade, em verdade vos dizemos: a ignorância só é luz em território de reizinhos assombrados e cegos ensombrados. A estarmos todos metidos nisto, pergunta-se muito honestamente: afinal, quem sabe o que é isto e onde é que isto nos leva?

a fotografia reproduz até ao infinito*


«Num mesmo e indesviável jorrar de todas as forças da minha vida»**.
No leito da morte, comparado à indigência do cadáver adiado (muitos de nós), Proust persiste no vivíssimo e infatigável esgotamento, e não necessariamente, mas também, por o ter fotografado Man Ray.
* Roland Barthes. A Câmara Clara.
** Marcel Proust. Em busca... Vol. I

élevage de poussière


Leio este post escrito por PM [Piaget Mexia*] e recordo, que nem uma tolinha do bombo, estoutro. Não sei, sinceramente, onde está o meu problema; se na cabeça, se no piolho, ou se, contrariamente ao que defenderia Piaget?, na consciência que possuo da minha libido pelo menos, que me lembre, desde os meus três anos de idade. Não sei nada sobre tudo e acho que tudo é uma questão de tendências e laxantes, quanto a isto não há nada a fazer. Por exemplo, enquanto Freud me alivia os estágios da psique, P. Mexia dá-me na cabeça com varetas científicas deste gabarito. Havia necessidade? Um homem que escreve sobre livros e cinema - pelo menos dizem os jornais que sim, embora os morrinhosos que ainda se dão ao trabalho de ler e citar Proust saibam que os jornais nos obrigam todos os dias a dar atenção a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais -, esse mesmo homem, a menos que a sua aparência física já tenha sido perversa e irrevogavelmente preenchida pelo acto intelectual social (e volto a citar: 'ver uma pessoa conhecida' é em parte um acto intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos sobre ele e, na figura total que imaginamos, essas noções possuem certamente um importante papel), esse mesmo homem, repito, deveria evitar o maneirismo conclusivo de pendor academista e acossar sempre a construção daquela que entendo vocação primordial do crítico de arte:
anuir ao discurso temporalista que desarquiva a densa e insuportável poeira epocológica, ainda que a verdadeira honestidade dos limites da carne que precedem a crítica o leve, num derradeiro, inevitável e puro gesto de humildade, a aceitar publicamente que do pó vem e ao pó há-de voltar. Posto isto, e até à chegada desse dia, não anule jamais o que de invocação transtemporalista pode significar a sua existência acima das lajes. É esta insistência que diferencia o folhetista socialmente decretado daquele que, em vida, sozinho - como um tolo perdido no meio do deserto - ousou adiar a lei da morte.
[Imagem: Gilbert Garcin. Vivre dans un désert.]
* Estás enganado, Pedro, eu até gosto de ti, menos do que a allen, é certo, mas eu, ao contrário dela, sou fraca da cabeça e preciso de tomar Cerebrum Forte. Também me acusam de ser de esquerda, é mentira. Masturbo-me sempre com a direita.

quem tem medo compra um cão

O meu cão tem medo de trovoada; com que raio poderá um cão comprar um cão?

dona beija

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A décima segunda palavra, e última, vai para a inolvidável e libidinosa cocotte, aqui devidamente ilustrada para a eficácia do termo. Cocotte segurando na mão esquerda o que parece ser um folhoso oitocentista - a história da espertalhona Capitu ou talvez de uma ou outra frescal camiliana, Deus lá saberá. Quenga diz mais com trejeitos de Tieta; cocotte é, pois, a palavra ajustável a todas as mulheres - no caso vertente, Dona Beija - cujo insulto perde toda a causa para a manifestação de um talento: inteligência sensual sob condição de sensibilidade, ademais em belo.

25.5.08

partido social declivante


Por força de ausência de conceito, não ouvi, mas também vi a quadratura deus-dará. Ao estado a que chegou o mundo da nação, já não há muito por onde replicar. Nos primeiros minutos, cuidei o mesmo que cuidei na primeira noite de eliminatórias do festival da eurovisão da canção: com todas estas tentativas de pousar sondas em Marte, liguei três vezes para o serviço de apoio aos clientes da tvcabo à conta de achar que tinha um problema de intercessão de forças alienígenas no meu televisor plasma. Garantiram-me tratar-se de Manuela Ferreira Leite, sim, era ela em todo o seu academismo salvífico, mais uma vez, era a cavaca em todo o seu academismo salvífico; engajada para a crise social, ar de quem desperta às seis horas da manhã e se lava em leitinho morno, de quem descolora frequentemente o bucceu com Lycia Depilazione e passa horas fechada num gabinete a ler decretos-leis à luz de velas; enfim, concordo, não passa