No
Tratado de Arquitectura traduzido por M. Justino Maciel, diz Vitrúvio:
Tendo sido lançado à costa de Rodes num naufrágio, o filósofo socrático Aristipo, ao descobrir esquemas geométricos na praia, teria exclamado para os companheiros, segundo se conta: «Tenhamos esperança! Vejo sinais de homens.»À escala das minhas competências mínimas, não poupo encómios ao ensino da matemática; deverei ser, aliás, das poucas pessoas, comummente apelidadas
de letras, que alcandoram a matemática a estatuto das disciplinas que mais têm servido o número de anos que até agora vivi, mesmo que sobre a minha idade, para o bem e para o mal, não opere convénio ou prova dos nove que acerte a soma do complicado metabolismo mental com os restantes metabolismos (mas estas são galantarias da matemática que prefiro: quente e orgânica). No entanto, confesso que, embora tenha mais jeito para somar as estrelas de um céu campesino ou para contar, em vez de quilómetros, o número de músicas que ouço enquanto pratico atletismo, perdi a conta às vezes em que, mais do que útil, a simplicíssima regra de três simples me tem sido da mais fidelíssima matemática que alguma vez terei aprendido; mau seria se os números, tal como as palavras, não servissem também o jaez de uma
linguagem objectiva.
Vem este
post atrelado à análise de Vasco Barreto, em
o Metro de hoje. Análise que cumpre, outrossim, justos panegíricos à matemática ensinada nas escolas de todo o mundo. O que esta crónica me suscita de embate não terá tanto a ver com a apologia dos postulados democráticos afectos à forma organizada e bem intencionada de um mercado de ensino igualitarista - sempre tão querido à primavera provinciana -, mas sim, por assim dizer, com a engrenagem de sementes distintas lançadas à terra do seu último parágrafo. Ao fazer merecida loa à matemática, Vasco Barreto fá-lo em visível aptidão para as letras e para uma capacidade vocacionada ao pensamento sobre o pensamento. Não há ironias onde existe a certeza de um mérito, e Vasco Barreto tem-no, apesar de, no último parágrafo da crónica desta semana, pecar por alguns erros (de cálculo) e omissões.
Cito:
Fazemos bons alunos, não sabemos é lidar com os que vão ficando “retidos”. Que sintamos vergonha disso agora é positivo. Ainda me lembro de um ilustre colunista se gabar de não perceber patavina de matemática. E este país nunca foi para Leonardos, mas para intelectuais das humanidades, um sinal de atraso a que se junta o “não tenho jeito para matemática”, essa definição de talento pela negativa a implicar jeito para não se sabe bem o quê. Nenhum talento se distribui equitativamente pela população, mas as competências mínimas para a matemática estão ao alcance de todos. Se tal exige, a quem ensina e a quem aprende, um esforço superior ao das disciplinas do empinanço, é um investimento recompensado pelo treino de raciocínio e pelo entendimento acrescido do mundo. Agora e sempre: Quadrivium dos antigos era matemática vezes quatro (aritmética, geometria, astronomia e música). Talvez a solução seja reforçar ainda mais um núcleo básico de saber em detrimento de disciplinas ridículas como “formação cívica”, investir na qualificação dos professores premiando os melhores e, em vez da lengalenga do rigor, convencer os alunos de que se chega ao prazer pelo esforço.
Se, à partida, eu não poderia estar mais de acordo com o que preconiza Vasco Barreto quando ataca a cultura pedagógica dominante (atávica e facilitista) e defende uma versão de ensino sustentada por um ideal escolar em compromisso de esforço e interacção dos sujeitos nele implicados – professores, alunos, figura política -, todavia, na hora de definir prioridades lectivas em nome de um ensino de eficácia e credibilidade, não posso aceitar o discurso do
deita fora o bebé com a água do banho figurado tanto por
Homens de ciência (receosos das letras, reivindicam a superioridade dos números) como por
Homens de letras (receosos dos números, reivindicam a superioridade das letras). A seguir esta ordem de ideias, não será errado de todo dizer que não só as letras têm vindo a representar o inimigo nº1 a abater, como também a aprovação dos programas de revitalização do ensino nunca é feita com base na salvaguarda do ideal humanista das letras, mas sim no
empinanço da máquina calculadora que nos torna a todos simples números de contribuinte, meros linguistas de mercado. Assim tem sucedido, ganham os números mais perniciosos, perdem as letras mais profícuas. Posto isto e em nome de um ensino de base pautado pelos melhores ingredientes de estudo, não basta a implementação nas escolas das sete artes liberais. No âmbito do projecto de criação de um ensino de escol em portugal, reconsidere-se a solução (im)possível apresentada pelo nosso monarca D. João III: ao Quadrivium lembrado, e muito bem lembrado, por VB, não se subtraia a adição do Trivium e acrescente-se a articulação de outros saberes que jogam por inteiro a cartada erasmiana ou, acatando que
da Vinci, o humanista, também foi escritor e homem de letras, a cartada leonardina: aplicação de línguas grega e hebraica, da física e da saúde, do desporto e da botânica, etc., etc. Que o grande inimigo a abater não seja, por conseguinte, nem
a letra nem
o número, mas sim a ossatura da ignorância vigente, protagonizada - desde sempre o prova a história - pelo «fidalgo sem letras, o clérigo quase analfabeto, o magistrado ignorante (…) agentes ou dirigentes da Igreja e do Estado»; protagonizada pelos novos contingentes de mediocridade em potência, futuros bolseiros de um Estado cediço; por uma igualdade escolar que negoceia com diferenças de estrutura, digamos, fantomáticas: mérito e demérito com base em possíveis sintomas de má hereditariedade (se me permitis o desuso, darwinistas e lamarckianos). Dos números às letras, também desconfio, por conseguinte, de toda a sorte de intelectuais, esses seres humanos atreitos ao retiro monástico, pessoas formadas na clausura de uma existência que não forma uma sociedade civil e muito menos Homens inteligentes no
entendimento acrescido do mundo, mas sim frades e freiras portadores de um conhecimento sem utilidade prática. Em resumo, acredito num intelecto inteligente e não em uma intelectualidade que dá ares de ser inteligente; acredito na emergência de um ideal escolar sustentado por Homens de intimidade sincera, aquela que não separa a inteligência criativa da comoção experimentada, aquela intimidade que se conquista aprendendo (também, mas não só) com os matemáticos e os literatos o verdadeiro intuito de se navegar no conhecimento: sobreviver ao naufrágio da descrença, da descrença em nós mesmos, da descrença nos Homens.