22.11.06

e deus criou o pé

[Vou contar-vos a história da criação do pé, de como Deus determinou a sua cobertura e de seguida atirou com as Evas e os Adões céu fora; de dois sapateiros de confissão bem diferente, e de como tudo isto foi dar a uma espécie de voando sobre um ninho de cucos.] Então foi assim.

Ao sétimo dia Deus não descansou não. Atacado por uma crise aguda de neurose obsessivo-compulsiva, passou a noite a singularizar o pé. Pensados todos os detalhes externos, sobretudo os íntimos, levou-o a Mr. Gray para nele engendrar os interiores. Cessadas as habilidades e as tricas,
- Meu Senhor, Ecce le Pied! (exclamou o anatomista).
Deus, satisfeito até demais, torceu o nariz – hmm – cruzou os braços e mandou chamar il signore Ferragamo, o sapateiro da corte celestial.
- Como está, Salvador?
- Salvatore, Signore, Salvatore. Bene, grazie. E tu?
- Olha as confianças, Salvatore...
- Ciao Gray... Ah... ma cosa c'è lì, sul tavolo?*
- Ali, Salvatore, está a suprema das minhas criações. Não é gloriosa, oh, não é virginal?
- Sì, anche divina, Signore!
- Eis o pé!
(apresentou-o Deus)
- Ma, allora che devo fare, Signore?
- Meu caro, diante da conclusão de tão gloriosa experiência deparo-me, no entanto, com a mais evidente perfeição das minhas obras. Salvatore, estou paranóico. Deverás, com urgência, encobrir as nudezas do calcante. Nomeio-te, de hoje para diante, pelos séculos dos séculos, o grande padrinho do pé. Preparemos a cerimónia baptismal e de seguida, depois de abençoado, tapemo-lo.


Fatalmente incumbido de tamanha tarefa, o padrinho Salvatore gatafunhou durante três dias e três noites. Enquanto, quis a Santa Providência que o pé permanecesse fechado à chave de Pedro e a chave à guarda de Gray, o frio anatomista.
Depois de muitos estudos, preparada a forma, Salvatore ordenou que fosse montada uma linha de produção em série. E foram tantos os sapatos quantos querubins há no céu. Deus, agora em tudo satisfeito, mandou soar as trombetas,


(e Deus disse) - Salvatore, eu te concedo os direitos de marca registada. De hoje em diante e sob minha sacra tutela, calçarás para a liturgia dos Domingos todas as damas e cavalheiros e não mais o pé verá a luz do dia, suscitará o pecado da gula ou levará o Homem, sobretudo o homem, às portas do fogo de belzebu.

Não lhes encontrando igual agravo, soprou Deus umas folhitas de árvore sobre as restantes nudezas de Adão e Eva, contratou serviços chineses para que deles reproduzissem milhões de outros Adões e Evas, virou-se de costas para o cosmos e arremessou-os, como coios, ao calhas.
Na Terra, onde todos acabaram por trambolhar, habitava um ser estranho, presumivelmente malévolo, híbrido, assim meio macho, meio fêmea. Vendo cair tão inusitados extraterrestres, foi meter conversa com um par deles.
- Ora viva! Posso perguntar ao belo par de onde provém semelhante surpresa?
- Nós? É connosco que ele está a falar, Adão?
- Com quem mais haveria de ser, encantadora menina? Por acaso, vê aqui mais alguém?
- Os outros?
- Já se rasparam para o 31 da Armada.

- Já? Desculpe, estamos com uma certa pressa.
- Caaaalma. Posso levar-vos lá num instantinho. Mas, primeiro, troquemos algumas impressões... De onde provém o casal?
- Nós fomos arremessados do céu.
- E onde fica o céu?
- Ali em cima.
(Adão e Eva apontam para cima com o dedo)
- E como foi isso?
- Com uma fisga.
- Hmm...

(Adão e Eva soltam risinhos místicos) – Brincadeirinha. Fomos lançados por um sopro divino.
- Hmm... percebo...
(murmurou o ente estranho, acrescentando logo de seguida e sem mais delongas) – Bela senhora, reparo que traz uma magnífica cobertura para os pés.
- Oh, sim, são uns Salvatore Ferragamo. Repare, os de Adão também. Vai daí, é com eles que atravessaremos as portas axiais...
(Adão corta-lhe a palavra)
- Mas a que se deve a curiosidade, cavalheiro?
- Oh, nada, nada. Permitam que me apresente: Manolo Blahnik, ao vosso serviço.

(sussurando) – Adão, não foi deste que nos acautelou o Salvat... (e Adão serra-lhe a palavra)
- Senhor Manolo, não estamos interessados em comprar nada. Passasse muito bem e com sua licença.
(e de soslaio) - Que caloooor. (protesta Manolo)
- Como disse? (inquiriu Adão)
- Não acham que está afogueado, o tempo?
- Oh, com estas folhitas nem damos por ela. O pior, vá lá, são os pés, percebe?
(vincou a Evinha) Fez-nos estes sapatos de puro verniz o sapateiro do Senhor, o signore Salvatore. Mas são tão fechados, credo... (queixando-se)
- Tenho a solução para o seu problema, bela dama! (acudiu o sapateiro)
(Desconfiado, o homem) - Eeeeva, olha que nãaao.
- Adão, deixa o senhor Manolo Blahnik terminar. Não pagamos nada por isso. Ou pagamos?
[Ai pagam, pagam]
- Certo que não. Estejam descansados. Trago aqui um exemplar do mais fresquinho para os pés da senhora. Em dois tons, um mais discreto do que o outro. Se lhe servir no pé, Mrs. Adão, ofereço os do cavalheiro. Take it or leave it.
Aqui estão!


- Adão! Gloria in excelsis Deo! (Eva desmaia. Adão sai a correr em busca de uma baldada d’água, enquanto isso... bem... enquanto isso...)
Onze minutos depois, Adão regressa com o alguidar cheio e não reconhece Eva:


- Eva? Onde estás? Senhor Manolo?...? Quem é você?
- Eu? Eu sou Marilyn. E você, tarzan?
- O meu nome é Adão.
- Adão, aproxime-se. Antes, porém, já olhou para baixo, na direcção dos meus pés?
- Para baix... na dire... Mas... Em nome de De... O meu coração falha...
- Vem cá, querido... Serei atenciosa contigo...
- A Eva...
- Escute, Ed, vocês preferem as loiras.
- Os pés... os pés...
- Sim, e sobretudo os pés, Ed, seu traste, mais do que os sapatos, vocês preferem os pés subindo pelos saltos, soltando-se dos sapatos, seduzindo a calçada...

(eis que se desprende o homem e o romanesco) - Chega para cá o glamour e prepara-te para seres beijada, Monroe.
- Oh, sim, Ed. Beija-me.

Caído a seus pés, Ed (o bom do Adão) rendeu-se à alucinação. Tomou a mulher no colo e desposou-a na Terra. A lei dos saltos altos extinguiu todas as Evas e a dos pés todos os Adões. As Marilyns aumentaram e aumentaram,


acabaram por dar lugar a uma nova espécie de mulher, mais maldita. Scotts e Bogarts, Rips e Corals por todo o lado.


E porque o Homem foi criado à imagem d'Ele, desata tudo a voltar ao princípio. Diariamente, a mulher e os sapatos, o homem e os pés, atacados por crises agudas de neurose obsessivo-compulsiva, paranóia, alucinação, tormenta, vão parar ao inferno El. Ali, Deus é Buñuel. Um Deus do avesso, infligindo no Homem a obsessão e o medo, o sórdido e o obscuro, o frio e o quente. Os pés da mulher inflamam-se aos olhos do homem; os sapatos, levemente mais domingueiros, não deixam por isso de imperar pelo salto. Aproximam-se sorrateiros, emergem de uma sombra suave, mas arguta, trazem dois criminosos lá dentro. Os pés.


[Dedico este pequeno conto – fraquinho – a Mrs. Charlotte (saudável «sapatomaníaca») e a Sir Mário (saudável «podomaníaco»). Miss Woody aprova inteiramente.]

* aprenda a falar italiano em apenas um clic.

Primeira e última imagens: da fita El, de L. Buñuel.
Penúltima: da fita Dead Reckoning [trad. portuguesa: Maldita Mulher], de John Cromwell.
Muitas Marilyns: Por Andy Warhol, pois claro.

4 comentário(s):

Blogger Ela disse...

O Conto não me foi dedicado, mas confesso a fraqueza feminina por sapatos. Desde a criação da mulher. Julgo até, tratar-se de um sofisma divino para explicar determinadas fixações. Parabéns pelo post.

23/11/06 16:15  
Anonymous miss allen disse...

ela:

Obrigada eu. Obrigada também pela hiperligação que fez desse lado para este.

Nós já lá vamos espreitar...

24/11/06 02:09  
Anonymous Teresa disse...

soberbo este post! amei! não resisti a colocar um link para que seja degustado por todos aqueles que me visitam habitualmente. ;)

24/11/06 14:55  
Anonymous miss allen disse...

Caríssima Teresa:

As portas estão abertas. Entre e sirva-se que isto não é para menos.

Muito Obrigada, em nome das duas.

24/11/06 19:20  

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