ainda a tensão entre criação e arrumação
Caro Sérgio Lavos, só se fosse a chamada pré-história, no mais não vejo jeitos; ademais e a bem da verdade, nem este pré de pré-história faz algum sentido.
Tal como há muito a apontar sobre a necessidade extrema dos pós-modernistas incorporarem no seu discurso elementos de nova ruptura, sugerindo uma descontinuidade que não deixa, contrariamente ao desejado, de restabelecer o continuum, também não estão livres desse pecado os modernistas, porta-estandartes de uma igual ideia de irreversibilidade do tempo, estes últimos também profundamente épocais, também lançados no caminho do que mais adiante haveria de apregoar o movimento de vanguarda mais tardia e extremista: «a arte do fim da arte».
Voltamos, como sempre, à velha questão tensional: criação (novo) versus arrumação (velho). Defendo que esta tensão deverá desencadear uma discussão que não pretenda fazer a apologia de uma narrativa exageradamente classificatória (visto continuarmos a presenciar a uma insistente classificação estilística do objecto artístico - neste caso tão cara ao historiador da arte, promotor, desculpar a redundância, da épocalidade historicista - , continuamos, aliás, a presenciar em geral - seja em matéria de Arte, seja em Economia, Política ou mesmo em assunto de relações humanas - ao pregão de uma certa visão continuista do mundo) através da qual as obras, caso da Arte (literária, plástica, musical, cinematográfica, etc.), são sistematicamente seriadas nas prateleiras dos ismos. No entanto, não obstante a urgente necessidade de regressarmos sobretudo a uma discussão predominantemente ontológico-conceptual em torno do objecto artístico, relegando, portanto, as muitas conveniências afectas à arrumação épocal, não deixo de discordar com o Sérgio quando pontualmente refere, e passo a citá-lo, que «O enquadramento de um tempo deixou de ser necessário, porque o tempo relativizou-se de uma forma absoluta.». Todavia, quando no mesmo texto parece avançar com a ideia, permita-me a metáfora, de perda do pé, compreendo a sua aflição, aliás também ela se apodera inteiramente de mim, de muitos de nós (afinal, em não sabendo nadar a ideia de falta de pé assusta-nos a todos, cravando em nós um pressentimento de terrível fragilidade).
Voltamos, como sempre, à velha questão tensional: criação (novo) versus arrumação (velho). Defendo que esta tensão deverá desencadear uma discussão que não pretenda fazer a apologia de uma narrativa exageradamente classificatória (visto continuarmos a presenciar a uma insistente classificação estilística do objecto artístico - neste caso tão cara ao historiador da arte, promotor, desculpar a redundância, da épocalidade historicista - , continuamos, aliás, a presenciar em geral - seja em matéria de Arte, seja em Economia, Política ou mesmo em assunto de relações humanas - ao pregão de uma certa visão continuista do mundo) através da qual as obras, caso da Arte (literária, plástica, musical, cinematográfica, etc.), são sistematicamente seriadas nas prateleiras dos ismos. No entanto, não obstante a urgente necessidade de regressarmos sobretudo a uma discussão predominantemente ontológico-conceptual em torno do objecto artístico, relegando, portanto, as muitas conveniências afectas à arrumação épocal, não deixo de discordar com o Sérgio quando pontualmente refere, e passo a citá-lo, que «O enquadramento de um tempo deixou de ser necessário, porque o tempo relativizou-se de uma forma absoluta.». Todavia, quando no mesmo texto parece avançar com a ideia, permita-me a metáfora, de perda do pé, compreendo a sua aflição, aliás também ela se apodera inteiramente de mim, de muitos de nós (afinal, em não sabendo nadar a ideia de falta de pé assusta-nos a todos, cravando em nós um pressentimento de terrível fragilidade).
Acontece que no alto mar do pensamento ninguém se sente confortável com a ideia de perder o equilíbrio (ou, para ser um pouco mais extrema, perder a certeza, a lógica, o sentido do mundo); porém, para do equilíbrio nos aproximarmos necessitaremos sempre de recorrer ao campo da memória, à operacionalização da memória, i.e., sempre recorreremos ao tempo, à tabela cronológica. Precisamos dela, precisamos do tempo; e o que o tempo não merece é ser classificado hoje e imediatamente no dia seguinte desclassificado. Se o historiador obcecado peca por retalhar o tempo, venerando-o como um corpo de Deus mutilado, o crítico vem muitas vezes com suas heresias vagas na tentativa de o desacreditar por completo. Duplo erro. Importará, por conseguinte, não absolutizar o tempo, contudo tampouco absolutizar a relatividade do tempo (ao ponto de o menosprezarmos) sob pena de estarmos, enfim, a deitar fora o bebé com a água do banho. No seguimento disto, o historiador tal como o crítico de arte têm muito por onde bulir. Abusando das metáforas, um pouco como fazer mudanças em casa: se renovarmos unicamente os móveis colocando, no entanto, os móveis novos nos mesmíssimos sítios, estamos a mudar os ícones, mas a conservar a matriz. Como tentar tapar o sol com a peneira.
Num outro texto seu, o Sérgio escreve o seguinte: «A vanguarda não é um exercício provocatório; é o reconhecimento de que o passado já não interessa e que apenas através da novidade, da experimentação, se pode criar um novo presente. E este movimento tectónico, de produção de novas margens para a arte, apenas se torna possível se, por um momento, abandonarmos todo o sentido; para que tudo faça novamente sentido - e para que a teoria tenha de novo o seu dia.»
Julgo, estimado Sérgio, que para produzir teoria (venha do historiador, que exagera por épocalidade; venha do crítico, que nega os ditames do anterior, mas atira nos próprios pés com erros idênticos: lembro, p.e., que foram muitos destes críticos - muitos deles homens da literatura, de Baudelaire a Tristan Tzara, etc. - que almejaram a necessidade de categorização do objecto artístico e sua posterior inscrição/enjaulamento num movimento ou escola vanguardista), dizia eu que para ser produzida teoria não pode haver desinteresse pelo tempo, sobretudo desinteresse pelo tempo passado. Deslocar o tempo é o desafio, e não abandoná-lo. Aliás, o Sérgio vem corroborar isto mesmo quando recentemente escreve o seguinte: «E, à nossa frente, um passado que desconhecemos.» Procurar o caminho onde nos engajemos em vários tempos talvez seja este o mapa, ainda que não encontremos solução que esvaeça por definitivo a sensação turva de perda de pé. Mas talvez que a solução seja mesmo a de não querermos soluções para nada, que a única conclusão, diz o poeta, é exactamente morrer. Ainda num outro texto e ali reportando-se ao modernismo (não já à Vanguarda, como em cima) o Sérgio aproxima-se mais da ideia que aqui tento passar, cito: «A desconstrução da arte, que no fundo é o fundamento principal do modernismo ( e do que se lhe seguiu, seja o que for que se lhe queira chamar [e chamaram, por acaso, pós-modernismo, vanguarda, neo-vanguarda, e que patarata virá a seguir?]) necessita sempre do reconhecimento de um passado.»
Julgo, estimado Sérgio, que para produzir teoria (venha do historiador, que exagera por épocalidade; venha do crítico, que nega os ditames do anterior, mas atira nos próprios pés com erros idênticos: lembro, p.e., que foram muitos destes críticos - muitos deles homens da literatura, de Baudelaire a Tristan Tzara, etc. - que almejaram a necessidade de categorização do objecto artístico e sua posterior inscrição/enjaulamento num movimento ou escola vanguardista), dizia eu que para ser produzida teoria não pode haver desinteresse pelo tempo, sobretudo desinteresse pelo tempo passado. Deslocar o tempo é o desafio, e não abandoná-lo. Aliás, o Sérgio vem corroborar isto mesmo quando recentemente escreve o seguinte: «E, à nossa frente, um passado que desconhecemos.» Procurar o caminho onde nos engajemos em vários tempos talvez seja este o mapa, ainda que não encontremos solução que esvaeça por definitivo a sensação turva de perda de pé. Mas talvez que a solução seja mesmo a de não querermos soluções para nada, que a única conclusão, diz o poeta, é exactamente morrer. Ainda num outro texto e ali reportando-se ao modernismo (não já à Vanguarda, como em cima) o Sérgio aproxima-se mais da ideia que aqui tento passar, cito: «A desconstrução da arte, que no fundo é o fundamento principal do modernismo ( e do que se lhe seguiu, seja o que for que se lhe queira chamar [e chamaram, por acaso, pós-modernismo, vanguarda, neo-vanguarda, e que patarata virá a seguir?]) necessita sempre do reconhecimento de um passado.»
Concluo e convenço-me que por mais que os críticos de arte, ou os próprios criadores do objecto, neguem esta ideia, jamais poderão galgar sobre o tempo (sobretudo o do passado) como se este fosse uma entidade apagável.
E mais, se andam a história da arte e a crítica da arte à procura de novos paradigmas, mais ou menos progressistas, mais ou menos promissores da felicidade eterna, eu (i)limito-me a assumir para mim que felizmente morrerei sem respostas para nada. No que à Arte diz respeito, apenas uma certeza: não me promete felicidade nenhuma e só por isso me inquieta e momentaneamente faz de mim, com exigência e bastante ironicamente, uma mulher feliz. Como esta senhora aqui, escolho este desafio; escolho «acordar náufraga.» E se um dia vier a entrar em pânico, refugiar-me-ei no movimento contra-movimento Roland Topor - o movimento Panico - uma espécie de movimento que nem é homem, nem é bode. Seja, tão-só, movimento.
E mais, se andam a história da arte e a crítica da arte à procura de novos paradigmas, mais ou menos progressistas, mais ou menos promissores da felicidade eterna, eu (i)limito-me a assumir para mim que felizmente morrerei sem respostas para nada. No que à Arte diz respeito, apenas uma certeza: não me promete felicidade nenhuma e só por isso me inquieta e momentaneamente faz de mim, com exigência e bastante ironicamente, uma mulher feliz. Como esta senhora aqui, escolho este desafio; escolho «acordar náufraga.» E se um dia vier a entrar em pânico, refugiar-me-ei no movimento contra-movimento Roland Topor - o movimento Panico - uma espécie de movimento que nem é homem, nem é bode. Seja, tão-só, movimento.
Leitoras e Leitores, segue um linque para Sérgio Lavos e Susana Viegas. Tão bom de ler.
2 comentário(s):
Só sobre epocalidade. Entre "mass leisure" e "mass culture". A natureza diacrónica da história, que privilegia a comparação para melhor aquilatar a diferença, demonstrativa de estagnações, evoluções ou retrocessos, é, quanto a mim, preferível ao serialismo numérico, no deslindar das acimas expostas convenções(estagnação, evolução, retrocesso)social, mental ou cultural. No entanto a recusa da temporalidade, do ponto de vista do "retalhar o tempo", deixa o historiador entregue a que outros sofismas? Fico a pensar.
Para que servem os "lugares da memória"...então?
Após pensar!
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