para ler de olhos fechados como estando inconsciente
Certa vez cruzei-me com Freud, o Sigmund, e vai daí ele vira-se para mim, como quem quer desesperadamente conhecer miss Allen, e grita num brado repentino e gordo:
- Ei, a menina, a menina queira olhar, espere, abrande, aqui, vire-se, ande cá, quero conhecê-la sem tabus, a menina aí, com andar nervoso, com aspecto de filha de pai ausente, quero conhecê-la, muito...
Fiz-me despercebida e não estive nem aí. Não sentia, continuo a não sentir, necessidade de conhecer Freud, pois a mim basta-me a possibilidade de conhecer Freud, ou a possibilidade de gozar a presença distinta e firme de um Freud liberto das minhas (tal como as vossas), e tão infelizes, contingências físicas; um Freud metafísico, um Freud metaquímico, um Freud transparente como um sonho, um sonho de Freud. É, pois, sempre possível que eu conheça Freud quase muito bem, como a palma da minha mão, sem que tenha a necessidade de conhecer Freud ou outra qualquer titulada celebridade e disso, posteriormente, me gabar que nem uma pobre, uma quer-e-não-pode. Primeiro, poupo às celebridades o desgosto da prova in factum. Efectivamente sou, no vis-à-vis, uma energúmena com duas pernas e um par de orelhas, outro de olhos, que muitas vezes corto e arranco (como Gogh, que devia estar farto de aturar as baboseiras de Gauguin) para não ter de ouvir e ver o que por aí vai. Seguidamente, e no mesmo sentido promotor da queda abrupta da habitual predisposição tão catarrenta e portuguesinha para o estado quieto e imbecil da expectação, também não me parece que em concretizando a necessidade de conhecer celebridades viesse a participar no frente-a-frente com o génio, alguém que, tal como nos vem do livro, da tela ou da telefonia, não cheire mal dos pés, não se peide ou tampouco atire no ar mau hálito e bocejos de tédio. Eu posso estar a ler Freud, ou seja, com Freud toda a noite e os meus pés descalços a grudar aromas pestilentos na carpete, eu a projectar traques no ar e a arrotar a feijão galego, tudo isto a ler páginas de Freud com Freud que Freud eventualmente escreveu ao som dos seus próprios pus e a arrotar a peixe e batatinhas cozidos; no entanto, estou certa de que nem eu nem Freud, natos protectores de todos os postulados do corpo, mesmo os mais excrementosos, nos aturaríamos os arrotos um do outro ou sequer a ideia de imaginar o outro alapado na sanita a alijar o fardo do grosso. Notoriedades como Sigmund Freud e outras inscrevem-se num discurso que estimo indirecto, recebo-as ao cair da noite no salão grande da minha imaginação, só assim é possível que eu conheça – um nadinha seja - os mortos afamados e esconda certos vivos, no caso destes últimos, sobretudo aqueles que pavoneiam ter efectivamente conhecido celebridades e as arrole como quem colecciona o melhor vinho ao invés dele se emborrachar até alucinar.
Certa vez ele bem queria conhecer-me, o Freud, infiltrar-se nas minhas soirées de quinta, atirar-me para o divã, vasculhar-me as gavetas da cabeça e cachimbar para cima de mim às lufadas rapidinhas. Fiz de conta. Não estive nem aí. Quis-me viva na sua cabeça, morta para o mundo, continuar a imaginar - no tempo presente indirecto - que ele se peida, sim, sem ter de cheirar que ele se peida, isso não.
«Um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama», disse o tonto do Warhol. Eu prescindo da fama, porque continuo a preferir os 15 minutos só para mim. Talvez por isso Freud e outros que tais continuem célebres para mim, porque não lhes permito sequer a necessidade de perderem 15 minutos da sua vida com camadas e camadas de pequeno-burgueses (como eu) que diante de suas celebridades são como esparregado a acompanhar uma rica posta.
Um destes dias conto-vos como certa vez me recusei a dar um autógrafo a Anna Karenina. Uma mulher que diz, com pose de diva: «eu não danço, quando posso não dançar», jamais poderia ter cometido o deslize de me pedir um autógrafo quando pôde fazê-lo; estando eu certa de que só o fez porque me é possível vê-la nua e crua sempre que me apetece, isto é, só porque me é possível conhecê-la como se in factum eu a conhecesse, porém, sem que eu nunca sinta necessidade de a conhecer para que seja possível conhecê-la como se in factum eu a conhecesse.
- Ei, a menina, a menina queira olhar, espere, abrande, aqui, vire-se, ande cá, quero conhecê-la sem tabus, a menina aí, com andar nervoso, com aspecto de filha de pai ausente, quero conhecê-la, muito...
Fiz-me despercebida e não estive nem aí. Não sentia, continuo a não sentir, necessidade de conhecer Freud, pois a mim basta-me a possibilidade de conhecer Freud, ou a possibilidade de gozar a presença distinta e firme de um Freud liberto das minhas (tal como as vossas), e tão infelizes, contingências físicas; um Freud metafísico, um Freud metaquímico, um Freud transparente como um sonho, um sonho de Freud. É, pois, sempre possível que eu conheça Freud quase muito bem, como a palma da minha mão, sem que tenha a necessidade de conhecer Freud ou outra qualquer titulada celebridade e disso, posteriormente, me gabar que nem uma pobre, uma quer-e-não-pode. Primeiro, poupo às celebridades o desgosto da prova in factum. Efectivamente sou, no vis-à-vis, uma energúmena com duas pernas e um par de orelhas, outro de olhos, que muitas vezes corto e arranco (como Gogh, que devia estar farto de aturar as baboseiras de Gauguin) para não ter de ouvir e ver o que por aí vai. Seguidamente, e no mesmo sentido promotor da queda abrupta da habitual predisposição tão catarrenta e portuguesinha para o estado quieto e imbecil da expectação, também não me parece que em concretizando a necessidade de conhecer celebridades viesse a participar no frente-a-frente com o génio, alguém que, tal como nos vem do livro, da tela ou da telefonia, não cheire mal dos pés, não se peide ou tampouco atire no ar mau hálito e bocejos de tédio. Eu posso estar a ler Freud, ou seja, com Freud toda a noite e os meus pés descalços a grudar aromas pestilentos na carpete, eu a projectar traques no ar e a arrotar a feijão galego, tudo isto a ler páginas de Freud com Freud que Freud eventualmente escreveu ao som dos seus próprios pus e a arrotar a peixe e batatinhas cozidos; no entanto, estou certa de que nem eu nem Freud, natos protectores de todos os postulados do corpo, mesmo os mais excrementosos, nos aturaríamos os arrotos um do outro ou sequer a ideia de imaginar o outro alapado na sanita a alijar o fardo do grosso. Notoriedades como Sigmund Freud e outras inscrevem-se num discurso que estimo indirecto, recebo-as ao cair da noite no salão grande da minha imaginação, só assim é possível que eu conheça – um nadinha seja - os mortos afamados e esconda certos vivos, no caso destes últimos, sobretudo aqueles que pavoneiam ter efectivamente conhecido celebridades e as arrole como quem colecciona o melhor vinho ao invés dele se emborrachar até alucinar.
Certa vez ele bem queria conhecer-me, o Freud, infiltrar-se nas minhas soirées de quinta, atirar-me para o divã, vasculhar-me as gavetas da cabeça e cachimbar para cima de mim às lufadas rapidinhas. Fiz de conta. Não estive nem aí. Quis-me viva na sua cabeça, morta para o mundo, continuar a imaginar - no tempo presente indirecto - que ele se peida, sim, sem ter de cheirar que ele se peida, isso não.
«Um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama», disse o tonto do Warhol. Eu prescindo da fama, porque continuo a preferir os 15 minutos só para mim. Talvez por isso Freud e outros que tais continuem célebres para mim, porque não lhes permito sequer a necessidade de perderem 15 minutos da sua vida com camadas e camadas de pequeno-burgueses (como eu) que diante de suas celebridades são como esparregado a acompanhar uma rica posta.
Um destes dias conto-vos como certa vez me recusei a dar um autógrafo a Anna Karenina. Uma mulher que diz, com pose de diva: «eu não danço, quando posso não dançar», jamais poderia ter cometido o deslize de me pedir um autógrafo quando pôde fazê-lo; estando eu certa de que só o fez porque me é possível vê-la nua e crua sempre que me apetece, isto é, só porque me é possível conhecê-la como se in factum eu a conhecesse, porém, sem que eu nunca sinta necessidade de a conhecer para que seja possível conhecê-la como se in factum eu a conhecesse.
Senhoras e Senhores, com licença das palavras feias, como traque, pu, arroto, in factum e, principalmente, a palavra celebridade.
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