30.10.07

a Velha e o tradautor



Comecei a ler A Velha e Outras Histórias, traduzida do russo por Nina Guerra e Filipe Guerra.
Na introdução é o tradutor que nos fala ou, dito em nome da evidência de uma equação mais justa, fala por ambos (por ele e Nina Guerra) Filipe Guerra, o tradautor. Numa primeira abordagem, sobre Tradução e Tradutor, proponho uma atenção de palmo a João Barrento em recentíssimo prefácio a Graça Moura (ali, nitidamente, ode ao criador avant Rilke). À luz da explicação de João Barrento, mais do que da minha (bruxuleio de vela), Nina Guerra e Filipe Guerra são verdadeiros tradautores. Imediatamente de arranque, João Barrento desbasta o preconceito «que inculca a ideia de que o original é sagrado e a tradução é subalterna, e portanto “inferior”», denotando, com efeitos soberbos de justo prol à arte da tradução, aquilo que para um leitor pejado de sensibilidade e exigência constitui há muito uma verdade inquestionável: «o tradutor é isso mesmo: um autor.» Pois assim sendo, a tradução como criação de autoria é (re)interpretação do que lateja no palimpsesto («como se apaga, aliás, todo o original que dá lugar a uma tradução – para deixar brilhar esta sua nova encarnação.»)
Ora daqui decorre o acto recriador enquanto capacidade de tactear na obra primeira, depois de esta ter sido (quase) completamente rasurada, a presença fantomática do seu autor, consentindo sempre, do mesmo modo, o lugar misterioso onde mora a primeira autoria, mas agora (reaproveitando as figurações escolhidas por João Barrento, sobretudo aquelas que consubstanciam a ideia de uma Tradução como acto de Reconstrução «sobre alicerces já existentes») contorcendo-a, amputando-a ou excedendo-a, experimentando sobre o traçado original a edificação de novas soluções arquitectónicas. Posto isto, o trabalho do tradutor transporta (desculpem tão extensa aliteração) a presença de uma parautoria sem que, no entanto, possa ser omitida a originalidade fundamental de quem traduz, precisamente porque a arte de reedificar representa, numa primeira análise, o cumprimento de uma função prática/programática (usando mesmo de linguagem arquitectónica - com vista à exploração da gramática formalista que no imediato se contempla -, sirvo-me da expressão sentido explícito da tradução); todavia, já em última análise, a mesma tarefa automaticamente se incumbe de responder às necessidades da causa ontológica do próprio tradautor, causa essa impregnada de sentido implícito, i.e., aquele sentido que obedece a um programa espiritual, ético e estético afecto a uma experiência vital da qual o tradutor não escapa, por se tratar, como é óbvio, da imisção da sua própria existência. Por outro lado, seja em que obra for, face a um espantoso trabalho de tradução, pressentimos a todo o momento a convergência do tradutor na forma da personagem volante que vem imprimir uma reorientação da obra ou a oportunidade de nela intuirmos outros caminhos de leitura que possam promover, por exemplo, o impulso de um interesse maior pela centralidade das margens, no caso vertente, a centralidade de tudo quanto o tradutor vem marginar e, desde logo, a centralidade da personagem-tradutor no lugar da criação literária.
Ao abrir d' A Velha e Outras Histórias, aflora tudo; não totalmente resgatados do peso dos dias e da solidão das noites sem dinheiro para tabaco, com Daniil Harms entramos, no entanto, na realidade que queremos. O amplo espaço do edificado em abordagem comporta a oportunidade de, na qualidade de leitor, nele também intervirmos, agora à escala de uma interpretação subjectiva atreita à nossa própria representação mental (mas não só) do mundo. Logo na página 23, vem à tona a história de um homem que estuda a ciência há 56 anos e a quem não foi propriamente arrancada uma orelha, mas antes deslocada, a qual mais adiante, por vontade própria, o estudioso deixa que lha cosam na bochecha. Fantasioso cientista. Segundo a directriz de uma interpretação subjectiva (entre tantas outras possibilidades interpretativas), não poderei destituir este lance de literatura da sua responsabilidade simbólica face à conflituosa arena epistémica, dentro da qual as diferentes disciplinas de conhecimento clamam para si um determinado estatuto científico (ou talvez bastasse dizer o estatuto científico), estatuto esse desprovido do percurso fantástico das incertezas, do desafio movente de outras pertinências chamadas ao debate do mundo contemporâneo (veja-se, p.e., como a expensas do próprio homem que estuda ciência se experimenta o aspecto da sua própria orelha quando transferida para a bochecha), em suma, estatuto esse carecido de um modo de ver e representar o mundo desperfilando-o dos efeitos contraproducentes do antropocentrismo tal-qualmente vigente, o mesmo tão perigoso quanto o teocentrismo, aliás, como perversos vêm a ser todos demais ismos.
Uma vez que o distinto leitor já comprou A Velha (preço Fnac:17,10), permita-me a sugestão segundo Harms: quando estiver a ler, verifique se tem mesmo os olhos abertos. De seguida, como a evocar Topor, deixe-se devorar.

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