6.11.07

(bater) a quinta linha

Primeiro de tudo, não evitar a dor, escrevê-la se possível. Escrever sobre a dor amorosa não obsta a sua eficácia, ainda assim, em o fazendo, também não estaremos a edificar, em seu favor, um altar para entronização cultual. Quando a dor está, é possível escrever sobre ela de forma a beneficiarmos graciosamente do seu corpo presciente e viril. Do mesmo modo, há efeitos, altanto belos, que a dor promove. Proust, por exemplo, é realização longa e prazente de dor amorosa (mas não só amorosa). Doravante, digo eu (e diria a Woody), entenda-se longa, mas não canónica (pisco o olho ao Vasco).
Estive fora por uns dias. Junto a mim, Marcel Proust [Os Prazeres e os Dias. Trad. Manuel João Gomes; pela Estampa.] e uma troca de estados de ausência que esses sim certificam a perdurabilidade do amor, sobretudo quando não correspondido. A pouco e pouco, o amor imaginado tece figuração ao silêncio, ganha-se de evidência, esbate a confusão precisa dos dias; sem altercações, passa a ser realizável o diálogo amoroso no calendário do abandono e da solidão. É pois no amor sonhado - de onde verdadeiramente sobressai a/o amante real - que está inscrita a quinta linha da página 161 do Proust acima: Ela quis dar-me uma flor, tirou de entre os seios uma rosa ainda fechada, amarela e rósea, que me pôs na lapela.

Com atraso, vai para o Rui, o Tomás, para Ela, o Sérgio e o Vasco, que é feitio habitual, por assim dizer, de por aqui se estancarem correntes.

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