10.4.08

«esta máquina mata fascistas»


Fora de grupo ou dentro de grupo, uma causa não impõe, invariavelmente, o «sentido único» de que fala Pedro Mexia. A certa altura, em entrevista, Todd Haynes revela a única coisa que Jeff Rosen (manager) lhe pediu, da parte de Dylan: que não insistisse muito no tema das drogas. Quando li esta entrevista, lembrei-me de Woody Guthrie; um filme sobre Bob Dylan sem alguma insistência na bolota seria um filme sobre lucidez excessiva de um homem que arriba aos sítios e nos sítios, sem proveito nem glória, se faz à dor. Poderia ser, então, um filme sobre Woody Gutherie; errático, vagamundo, alguém que, não tendo montado escola, ofereceu a liberdade da pergunta e o gozo particular de haver possibilidades em qualquer uma das respostas. Nisto há uma causa, há sempre uma causa. Ser génio de conhecimento é uma condição, ainda que perversa, instituidora da causa ou de causas. Se é que há uma consciência de génio (como defende Mexia acerca de Bob), se é que a consciência não cede aos efeitos de quaisquer mecanismos alucinatórios (drogas químicas e sociais), então haverá sempre a causa combatível, um recorte de sobrolho que denuncia um espírito inquieto e reivindicativo, um espírito que transporta, na pluralidade do caminho, uma responsabilidade pessoal, essa sim, única na acepção auto-figurativa, transmissível na atitude (exemplo) conferida à sua representação (imagem).

Conheço bem mal Bob Dylan ou, para dizer honestamente, não o conheço. Pedro Mexia também não conhece Bob Dylan. Scorsese mostra bem o misunderstanding, ou seja, também conhece bem mal o Bob Dylan. Bob Dylan conhecerá Bob Dylan? - (pergunta mais escusada) - Digo, sobre Bob Dylan, que me faz lembrar um ex-namorado meu que, não sendo transsexual, às vezes, no lugar do pénis, dava à cena amorosa uma vagina ou, dito do mesmo modo, um pénis feminino. Eu compreendia a beleza da cena e não questionava a última privacidade do corpo, daquele corpo. Bob Dylan também me faz lembrar um outro ex-namorado meu, um que fumava bolotas, despejava na goela garrafas de tinto maduro a torto e a direito, tocava umas guitarradas e ouvia a Joplin em modo repeat, com tudo isso se achando uma espécie de salvador do mundo, um ícone da não-ideia lançada à terra do não-lugar. Se eu não questionava o poder intimista do primeiro namorado, não duvidava, no entanto, da fragilidade pública do segundo. Bob Dylan foi, se o não é ainda, um drogado fácil que é um homem frágil e, por isso, um homem espantosamente difícil; uma life story composta por atributos de intimidade que não me interessam, porque não me dizem respeito; um cantautor de uma ou várias causas que eu gostaria, isto sim, de ver assumidas no fio das evidências alucinatórias (aquilo que realmente acontece), assumidas quer por ele, Dylan, quer por aqueles que dizem conhecê-lo bem (mal). De outro modo, sem causas a história fica entregue apenas à droga, e um drogado, como todos devem imaginar, não está para se matar com ideias; quando muito -- por saber que as tem e a medo do excesso de lucidez (consciência) -- conforme se mata, a si se convence de que apenas a obra que cria o poderá salvar (para não falar de conversões ao cristianismo). Essencialmente, ponho sem dúvida: Bob - figurando o artista e o homem - duvida tanto de si mesmo como duvida do mundo (inconsciência), mal de natureza a que ninguém escapa. E bem vistas as coisas, tanto é possível gostar de uma identidade que se não arruma (BD), como de uma outra que, na causa visível da especificidade de vários tempos (nitidamente duros), não encerra a identificação permanente(WG).

Dito isto, fora de grupo ou dentro de grupo, uma causa não impõe, invariavelmente, um «sentido único», muito menos se tomarmos em consideração a(s) causa(s) movida(s) contra o «sentido único» (ora impregnado de comprometimento histórico - caso de WG - ora impregnado de vazio de sentido (niilismo) - caso de BD? Isto é uma pergunta. Enquanto o Bob canta o seu próprio tempo (pós-guerra)

People are crazy and times are strange, I'm locked in tight, I'm out of range, I used to care, but things have changed,

alguém que me esclareça, que eu não sei nada.

[No vídeo, Woody Guthrie. So long it's been good to know you.]