a fronteira da passagem

sou uma fraude
excepto quando te digo que
sou uma fraude
aí não sou uma fraude
mas também não sou uma verdade
sou talvez
entre tudo e nada
da ficção à realidade
ou da realidade à ficção
a fronteira da passagem
e isto
excepto quando te digo que
sou uma fraude
aí não sou uma fraude
mas também não sou uma verdade
sou talvez
entre tudo e nada
da ficção à realidade
ou da realidade à ficção
a fronteira da passagem
e isto
- que não é um
poema
nem uma
palavra
nem a
pontuação -
poema
nem uma
palavra
nem a
pontuação -
de tão fácil sentido
poderia, até, ter sido escrito
por mim
isto é
por uma criança sem ponteiros
que não é uma fraude
mas também
não é nenhuma verdade
que não é uma fraude
mas também
não é nenhuma verdade
[Para a T.]
Imagem: Gilbert Garcin. Le sémiologue ou Les symptômes du savoir.
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