17.4.08

a língua é uma aura



Ontem, enquanto aguardava na sala de espera da urgência de otorrinolaringologia que me viessem arrancar uma espinha de sardinha cravada na goela, procurei, no amontoamento de jornais e revistas, o Metro de segunda e fui directamente às Vozes:

Não sei se a língua é a minha pátria, mas é seguramente a minha infância. Aceitar mudar as regras é sempre uma violência, como se por decreto nos obrigassem a esquecer as férias de Verão. Espero, por isso, que o acordo não passe. Porém, espero também que a geração vindoura defenda as regras da língua que aprendeu, mesmo que estas sejam as do acordo que agora recuso (...) (Vasco M. Barreto) [ Metro. 14/4/2008]
Aumentei o volume da quinta de Mahler, dirigi-me às reproduções de Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros, olhei-as, fechei os olhos, alguma coisa me doeu e não era da espinha cravada na garganta; lembrei-me da menina que eu fui, da criança que aprendeu a ouvir muitas vozes da língua portuguesa e via, misteriosa e claramente vista, a aura da língua portuguesa. Por mais vezes que seja mudada de tempo e de lugar, a língua é uma aura irreiterável como a infância. Não fui uma criança especial, embora ache que só às pessoas raras é aberta a possibilidade misteriosa e solitária de ver, claramente vista, a aura da língua. Tudo o que poderá vir a ser alterado com este acordo não derivará muito do modo como escreviam os escribas portugueses medievais e sucedâneos: quase inexistência da acentuação e pontuação, hífen praticamente nem vê-lo, a mesma selecta de imbróglios de pronúncia, interpretação e pensamento continuará a ser alterada para que tudo, de cabo a rabo, fique igual. Só a infância, como uma fotografia tirada ao céu infinito, permanece imóvel acima dos limites da regra, e a língua que explica isto não carece de norma nem de mudança, ou tampouco de palavras. A língua que explica isto é uma aura que só as pessoas muito sozinhas, sem orgulho nem glória, conseguem ver e, sobretudo, ouvir. Esta língua principia na infância e só no retorno à infância de cada indivíduo ela se reveste de futuro. Não é uma língua falada, nem escrita. Invisível e muda, é uma língua que se ouve com os olhos fechados. Obrigada, Vasco.

[Imagem: Gilbert Garcin. Communiquer.]

2 comentário(s):

Blogger blue disse...

obrigada aos dois.

na minha infância, as palavras também tinham um corpo visual. e a cada conjunto de sílabas que formava uma palavra, estava associado o som. como acontece com um compasso nua música.
sinto uma estranheza enorme face às alterações propostas. mesmo que fique tudo igual, as palavras só serão as mesmas nessa translacção forçada entre a memória visual e a memória sonora. uma questão de sobrevivência.

22/4/08 13:59  
Anonymous allen disse...

Tão melodioso o que disse, Cláudia. Sim, o ritmo do pensamento, o som das palavras... Obrigada.

22/4/08 17:22  

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