um olho no acordo ortográfico
Se perder um olho em Ceuta ou num jogo de futebol entre o Barroca Funda e o São Tomé de Felgueiras - seja o esquerdo ou o direito - poderá passar a escrever, segundo o novo acordo ortográfico, vêm em vez de vêem; ah, e sem o circunflexo, claro. Se perder o mais virtuoso dos três, anime-se (diria Roland Topor), sempre não terá de o continuar a vigiar.
2 comentário(s):
A Língua portuguesa está a passar por um período de implantação, quer nos países Africanos de Língua Portuguesa, quer em Timor Leste. Na Guiné-Bissau esteve até para ser adoptado o Francês como língua oficial e em Timor-Leste o Inglês. Daí será fácil concluir que a língua portuguesa nas nossas ex-colónias não ficou muito bem cimentada. Esses países já não são colónias portuguesas, são livres e tanto poderão seguir o português falado em Portugal, por 10 milhões de habitantes, como o português falado no Brasil, por 220 milhões.
A teoria de Darwin é mesmo verdadeira e Portugal, se teimar em não se aproximar da versão de português do Brasil sujeita-se a ficar só e, mesmo assim, não vai conseguir manter a pureza da língua porque ela evolui todos os dias, independentemente da questão que agora se nos põe: todos os dias há termos que caem em desuso e outros novos que são adoptados pela nossa língua, em especial termos ingleses que são adoptados sem quaisquer modificações.
Se não houver aproximações sucessivas ambas as versões do português continuarão a divergir e daqui a algumas gerações serão línguas completamente distintas. Será então a altura de Portugal confirmar que saiu a perder porque ficou agarrado a um tabu que não conseguiu ultrapassar.
O Brasil tem um impacto muito maior no mundo do que Portugal, dada a sua dimensão, população e poderio económico que em breve irá ter. O nosso português tem hoje algum peso muito em função dos novos países africanos (PALOPs) e de Timor Leste, mas ninguém garante que esses países não venham um dia a aproximar o seu português da versão brasileira e há até já alguns sinais nesse sentido. Não poderemos esquecer-nos de que são países independentes e poderão decidir como muito bem entenderem.
Se Portugal permanecer imutável um dia poderá ficar só: a língua portuguesa de Portugal será então considerada uma respeitável língua antiga (o Grego é ainda mais), da qual derivou uma outra falada e escrita por centenas de milhões de habitantes neste planeta. O nosso orgulho ficar-se-á por aí e pronto!
Ambas as versões de português têm uma raiz comum e divergem há apenas cerca de 250 anos. Outros tantos anos a divergir e já não nos entenderemos, terá então que ser considerada uma outra língua.
O acordo ortográfico é uma decisão apenas política que os técnicos terão depois que aceitar e seguir. Será uma pena rejeitarmos agora o acordo que o Brasil está disposto a aceitar.
Zé da Burra o Alentejano
Caro anónimo,
Não sei se a teoria de Darwin «é mesmo verdadeira», quando muito Lamarck serviria melhor ao contexto, mas não sigamos por aqui.
Não defendo o «puritanismo», nem jogos, nem lutas, nem orgulhos, nem impactos econónimos, nem estratégias políticas. Tem razão, acordos e normas são sempre e unicamente decisões políticas. A língua é uma aura e são raras as pessoas que a conseguem ver; essas, anónimo, serão sempre pessoas muito sozinhas, independentemente de parte deste acordo preconizar uma expressão escrita e pontuada que já foi praticada neste país em tempos medievais e modernos (sécs. XII-XVIII). Volta-se sempre ao mesmo: é preciso que algo mude, para que tudo fique igual.
Obrigada pelo seu comentário.
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