26.8.08

paroxismo da simplicidade [intervalo 5]*


Escrever sobre relações de poder e afecto entre mulheres e homens literários no paroxismo dos termos mais simples, sobretudo quando se trata de mulheres e de homens nobres sobre os quais facilmente se antevê, pouco mais das duas linhas em diante, a indolência talentosa típica das personagens que marcam até à morte os melhores roteiros literários do século XIX (não há muito, a respeito, se falou bastante, e fala, de uma delas - Platónov), é preparar a linguagem à confissão inteligível e sem peias do nosso amor pelo escritor que recria, com total distinção, o seu equivalente não literário, e, porque não literário, naturalmente mediocrizável (imitasse a vida a arte). É, pois, nos termos mais simples que o Eremita fala de condessas intrépidas e mosquinhas mortas, imprimidas de uma leitura de Stendhal, repito, Stendhal (A Cartuxa de Parma), que vai oferendo zénite em cada post sobre ela publicado. Nesses termos mais simples, o Eremita é capaz de sugerir um trânsito de ideias, estratégias, emoções e enredos de todo um programa estético de invocação quotidiana própria de qualquer tempo, mas que, em primeira mão, sob prisma oitocentista de Marie Stendhal, se torna invocação quotidiana de melhor entalhe, e não perde, confirma-se, pelo arrojo crítico do seu leitor. Na mesma ordem do binómio vida quotidiana/arte quotidiana, é com termos ainda mais simples que dou para exemplo os meus pensamentos ocorridos hoje de manhã, no caminho do trabalho: enquanto me comparava a Odette (Um Amor de Swann, Proust. Em Busca… I Vol. II Parte), imaginava Swann a comer na palma da minha mão a volúpia e os prazeres sôfregos que só um homem bom, no fito ingénuo de um amor lavado pela mulher errada, não é capaz de adivinhar tão mesquinhos quanto viciosos. Estudioso de Vermeer, ainda que pondo mais em prática a preguiça talentosa do que a semente do trabalho, Swann é um homem apaixonado, bom e inteligente; já Odette, dissimulada, obscurecendo a sua natureza bissexual libidinosa, é uma puta como há tantas, embora na equidistância de que uma puta escrita por Marcel Proust nunca por nunca poderá ser uma puta qualquer, móbil que, ao me ter comparado a ela, apenas vem acrescentar à relação dos meus vícios uma deplorável falta de humildade.
Trasladando o Eremita, sei bem que é arriscado dizer estas coisas, porque se pode passar por idiota, mas só um parvo pensa que ver gravidade por toda a parte o elevará, pelo que há que dizer estas coisas no paroxismo dos termos mais simples, ao menos uma vez na vida, e sobretudo quando se tem um blogue que leva de sinete um pretensiosismo tão grande que nasce para imediatamente morrer no título que, per se, parafraseia o que não passa de um regabofe.
* Os intervalos são foguetes à base de tédio de uma festa que está para acabar? Vou perguntar à woody.
[Imagem: Vermeer.]

1 comentário(s):

Blogger -pirata-vermelho- disse...

Ah, "dire que j'ái gaché des années de ma vie, que j’ai voulu mourrir, que j’ai eu mon plus grand amour pour une femme qui ne me plaisait pas, qui n’était pas mon genre.”



Como se o último paragraphe não estivesse ali, a estragar 'tudo'...!

19/9/08 23:52  

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