3.9.08

calend(i)ário de portugal


Eu, que apenas tinha para começar uma única frase – Este Querido Mês-Portugal: Miguel Gomes potencia para belo o analfabetismo alucinado ou feliz (não se vê uma só casada a levar coça) do português diário – depois de ter lido a melhor reinterpretação da fita (por Osvaldo Silvestre), escolhi estar mas é caladinha. Acrescento, apenas, que desde o 25 de Abril não via ninguém a legitimar tanto a ordem deste povo paternalista (nem mesmo a Fátima Felgueiras), tão querido e que não deveria votar nunca (não acho que haja ironia, Sérgio, faltou mesmo dizê-lo). O busílis, procedente de um vício remotamente instalado, parece-me este: se a paisagem do filme (sémen artístico) oferece a (única) realidade à câmara, a câmara acolhe quanto reprojecta o agente alucinatório que advém da gente e da palavra e não das ramadas e do vento, sem que entendamos claramente quem pretende – câmara/personagem que também é espectador/espectador que também é personagem - alucinar quem. Tal como a Osvaldo Silvestre, também me lembrei de Nanni Moretti, o mal é que saí a trautear o Dino Meira, e isto é grave, Osvaldo, muito grave. É que Nanni, revezando os sonhos de menino, não passaria sem que lembrasse o teor brechtiano – O pior analfabeto / É o analfabeto político …/ -; já Miguel Gomes, por seu turno, foi capaz de sublimar as cifras do Marante, sinais de uma escrita de imagens sonoras que, tal como é apresentada, não deveria ser permitida a todos - pelo menos em doses exageradamente democráticas -, mas somente o bastante para que dela resulte a melhor poética do cinema.