esta outra e ela mesma

Não é para vos falar de Morangos com Açúcar que sumario a inquietação dos meus últimos 5 minutos e meio passados na pastelaria da minha rua, mas não andarei longe de outros termos novelescos que, longe do formato pericial de Alexandre Andrade, pouco devem à instrução.
Todos os dias, ao despontar da noite, a TVI exibe três novelas portuguesas, duas das quais – Feitiço de Amor e a A Outra – repetem a presença da actriz Alexandra Leite (interpreta Carminho Menezes, na primeira; e Beatriz Gama, desaparecida, provavelmente morta, na segunda). Em a A Outra, Beatriz Gama, outrora abandonada pelo marido e pela amante deste na pradaria africana e ali desfigurada pelos leões, não tendo morrido, na realidade, resolve aparecer para se vingar de seus algozes, e aporta sob condição cirúrgico-plástica que lhe devolveu a intumescência de um corpo remodelado entregue à representação de uma outra actriz, Margarida Marinho, que dá ao papel que interpreta a imagem adulterada da destemida e arrojada vingadora Teresa Pimenta, perfeito heteronómico de Beatriz. Coibida pelos desejos fervorosos da vendetta de revelar a sua primeira identidade, Teresa, sem olhar a meios para atingir a sentença definitiva sobre anos de humilhação marital, procura consumar a vingança a qualquer preço; e é com a vida que Teresa Pimenta, em episódio recentemente passado, acaba por pagar o dédalo em que deliberadamente se meteu, aparecendo, em circunstância obscura, corpo morto boiando na piscina da sua vivenda. O povo português (a quem Miguel Gomes subtraiu as novelas, quando estas são, parede em meio com as marchas e os bailaricos, o fastígio do seu agosto), indignado, não compreendeu como é que, de repente, Beatriz (enquanto Teresa) desaparece pela segunda vez, para mais quando de modo terrífico da novela se retira definitivamente de cena uma Beatriz de corporeidade determinada, género de mulher que leva as mãos à cintura e de mamas em viço se dispõe às intenções mais impiedosas. Era esta a Beatriz que os portugueses preferiam, então por qual quê da novela se afasta a boazona da Margarida Marinho? Fará sentido, depois de semelhante golpe desferido no peito dos portugueses, continuar a exibir a A Outra quando, afinal, os portugueses preferem (a A) Esta? Pertinente, Vaz Nande. Sucede que a resposta já está nos escaparates das revistas da pastelaria não só da minha rua, mas de todas as ruas e travessas do nosso país sem avenidas. Beatriz (a outra), afinal, não morreu, ou, diga-se melhor - porque sempre vai larga a diferença entre dizer-se não culpado e inocente - Beatriz (a outra), afinal, está viva. E Beatriz não só está viva como também aparecerá grávida de João. Teresa, por sua vez, era tão-somente uma impostora, alguém que se fazia passar por Beatriz, uma espécie de a-outra, ou, se quiserdes, uma espécie de aoutra, um desvio apátrida face ao epicentro da trama.
Certo é que a maquinação de uma identidade empalmada no método ardiloso da simulação por justa causa provocou no espectador a vontade crescente de um pathos de verdade que não passou de uma consequência falsa de uma ilusão de verdade sem contornos. A santa cai do nicho, dá-se a epifania da puta falsária e, com isso, perguntarão os portugueses, esgota-se a epífase ou estamos perante um sintoma superveniente numa doença já declarada, legitimador das ampliações próprias de qualquer novela? Não sabendo o que vai acontecer daqui para diante, sabe-se, apenas, que Beatriz, desde sempre desaparecida, está interpretando o papel de Carminho em Feitiço de Amor, mulher de Francisco Menezes (actor Alexandre de Sousa), enquadrada, também ali, no papel de mulher submissa a quem a paciência de Job tem vindo a dar lugar, lentamente, aos perímetros de uma causa subversiva. Caso para que se pergunte com igual pertinência: uma vez rebelada, Carminho desaparecerá de Feitiço do Amor para dar lugar a Beatriz reaparecida em A Outra, desta feita uma Beatriz Outra Ela Mesma?
Tenho a cachimónia num frenesim, e saí eu à rua durante 5 minutos só para almoçar um folhado misto. Deus me ampare.
Tenho a cachimónia num frenesim, e saí eu à rua durante 5 minutos só para almoçar um folhado misto. Deus me ampare.
2 comentário(s):
Cara Miss Woody:
Devo dizer que finda a leitura do seu texto encontro-me terrivelmente cansado. Compreendo, cada vez melhor, que ver ou tentar acompanhar novelas da tvi transformou-se num atentado contra a saúde pública. Passo a explicar: qualquer digno cidadão que se atreva a "alternar", i.e., vender-se a outros conteúdos de entretenimento por alguns dias noutros canais, corre o risco de sofrer um AVC por omissão de informação e tentativa involuntária de suicídio por osmose quando volta a acompanhar diariamente alguma novela da tvi. Quero com isto dizer que o seu estado psíquico fica de tal forma abalado que, tentando achar um equilíbrio entre o que viu e o que vê, o seu cérebro não consegue articular o que sabe com o que devia saber. Afinal, a ignorância (nas novelas) não é felicidade, mas um perigo.
muito bom...
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