
À entrada do
court, no minuto de fusão das perspectivas dos atletas, Del Potro denunciou claríssima subserviência a Federer, o meu comentário saltou de imediato: «Potro acobardado. Já foste». Roger Federer, como pertence aos génios, não baixou a fasquia à inoperância do oponente e desde cedo agiu por intermédio dele mesmo nele mesmo e para ele mesmo, mostrou o que vale um profissional quando posto à prova da injustiça dos vaticínios mais redutores (Federer,
insisto e
volto a insistir para quem ainda não percebeu, jamais morrerá ou, mais bem dito,
morrerá altíssimo, porque se funde a uma ideia de desporto pré-existente à condição física que em primeira instância o define). Contra Del Potro, uma vez mais as bolas ganhantes de Federer revelaram um autêntico espectáculo de curta-metragem
tenística, um homem que estava ali para mostrar o domínio da fronteira das quatro linhas, uma constelação de gramáticas belas e matemáticas (obra de arte), a certeza - própria do génio - de que é possível viver nos limites recriando os limites, atribuindo-lhes uma dimensão de liberdade que escapa à prisão mundana dos Homens. Eu vejo os meus atletas e eles dão-me alegrias gratuitas em dias tristes, eu amo os meus atletas e comprometo-me a unificar a inevitabilidade deste ponto de vista: Roger Federer é exemplo representativo do ténis mais completo, converte a linguagem tenística numa lógica desportiva única e transformacional sem que, com isso, anule a legítima contribuição dos demais atletas que vivem o desporto, acima de tudo, por amor ao desporto. Não se consigna a um fim um atleta desta natureza, mas sim ao começo permanente inerente à própria noção de
ideia.
Já em relação às mulheres, nenhuma me espanta ou envergonha. Há as preocupadas com o último grito da moda (encabeçado pela ausente Sharapova), há o corpo lindíssimo e reconfortantemente feminil de Gisela Dulko (mas não basta), há o capricho insuportável das meninas amuadas (qual Martina Hingis, começa e termina em Novak Đjoković), há as mulheres revoltadas de Tolstoi, com pequenos rasgos de Anna Karenina sempre resvalando, inseguras, para a linha do comboio (Safina), e as sedutoras de Tchékhov, finalmente assomadas para dominar sabe deus como (Dementieva). A esquerda de Navarro é linda, mas incomparável à mais recentíssima perfeita de Henin; falta-lhe a matemática o que, por vezes, a leva a tropeçar na pirueta espalhafatosa.
No meio disto tudo, eu só queria uma final impossível: Federer-
Kohlschreiber, uma esquerda sublime amante contra uma esquerda amorosa enamorada.
E sobre o próximo jogo, o
Maradona (que eu adoro, adoro mesmo, e a quem perdoo antigos vaticínios), já disse tudo.