Não tenho podido deixar pistas diárias aqui n'
O Regabofe, embora
vos assevere que continuo a andar com os pés virados para cima e a cabeça no chão (preceitos de um mais que realista). Só por causa das coisas, venho dizer isto de uma penada e a sangue frio, que o recuperador do calor da lareira leva o seu tempo a disparar. Recebi, há dias, um e-mail em
defesa da mata do Choupal, prontamente assinei a petição, porque em tudo a mata do Choupal me dizia bastante: em tempos de estudante de Coimbra, aos sábados de manhã, ou de tarde, fui atleta de umas boas léguas daquela mata, até me lembro que, certa vez, ainda estudante um bocado tola, também por aquelas bandas fodi dentro de um
Volkswagen cor de burro quando foge (quem nunca pecou ou quem nunca viu, ao menos, meio episódio da série de fitas
Emmanuelle, faça o favor de arremessar o primeiro calhau), por conseguinte e em suma, cristalmente da mata me lembro com saudade e sem pudibundarias,
que eu no monte, pelos vistos,
é que estou bem. Agora querem, como se diz na terra dos analfabetos,
alagar parte daquilo tudo, citando naco: uma
área de relevância ambiental tão sensível. No entanto, e como diz o poeta,
não era nada disto que eu vos queria dizer, pá. O verdadeiro motivo que me trouxe do estendal da roupa que acabei de apanhar no terraço, que sempre têm estado uns dias misericordiosos para lavar e pôr a secar, não achais?, é o seguinte: vivo numa casa de campo há uns
bôs 3 meses; à direita da casa, como quem olha de frente, o vizinho surdo e mudo, pobre como veio ao mundo, humaníssimo como raros no mundo. À direita, perdão, à esquerda, uma vizinha viúva e calhandreira como outra qualquer em toda a parte do mundo, com ela troco limões por ovos caseiros e nada de palavras além do infeliz
obrigadinha. Do mudo, como era conhecido por estas bandas, não lhe sabia o nome, apenas que me dizia olá e adeus, sorrindo, e me orientava o estacionamento à porta de casa; certo dia, gesticulou para alguém como quem diz:
Esta é toda boa, hein? (além de mudo, era um bom cego, coitado); sabia, porque se vê do terraço alto onde entendo a roupa, quero dizer, estendo a roupa, que fumava no pátio das traseiras de casa como se fosse o único homem do mundo a fumar e a esbracejar sozinho entre as velharias anónimas que uma vida de merda acumula; por vezes tentava gritar e atravessava, amiúde, o dedo polegar à largura pescoço como se dissesse:
corto-te a goela ou, eu cá apostaria mais nesta,
estou com a faca ao pescoço,
estou fodido, essas merdas. O
mudo foi, aqui há tempos, jornaleiro do quintal desta casa, ainda eu habitava longe daqui, num apartamento entalado na cidade fria. Poderia ser adepto do benfica (ninguém é perfeito), julgo-o pelos cromos colados na placa de zinco a fingir cancelo que dá para o seu pequeno quintal, desde há mês e meio, sem que eu percebesse o porquê, cobrindo-se de silvado. Ajudava uma senhora muito velha, que vive mais para cima, a atravessar a rua, frequentemente obrigava os carros a parar não fosse a velha partir-lhes o retrovisor com as muletas (acho que não gosto da velha, é amarga, calhandreira e
fala mal do povo, incluindo o mudo, sorte a do mudo que era surdo, ou sorte a da velha, que eu não responderia pelos actos do mudo se o mudo não fosse surdo). Enfim, peço-vos que aguenteis os cavalos, que isto não é uma parábola e estou quase a terminar. Desde o natal que ninguém sabia do
mudo, indaguei no café e na venda, inclinava-me no muro entre molas e cuecas e o pátio, sem homem, fechando-se nele mesmo ao compasso calado do silvado e outras ervas daninhas. No sábado passado, isto é, anteontem, uma cunhada veio saber do familiar
leproso, abriu a porta da fachada nascente e deu com ele deitado de bruços, os pés virados para a porta, morto há já cerca de mês e meio (apurado adiante), desta feita não completamente sozinho, porque alguns ratos fizeram dele ninho e repasto, e fizeram muito bem, que eu, se fosse rata de cano, teria feito o mesmo. Conto-vos esta história (e sobretudo às almas sensíveis à sensibilidade de um monte onde se corre e fode a torto e a direito, as mesmas que, a partir de hoje, não vão ter a lata e o descaramento de solicitar mais das minhas assinaturas em defesa de florinhas e outras impertinências), conto-vos esta história para que penseis comigo o seguinte: este mundo, minhas senhoras e meus senhores, não vale a ponta de um corno. O que vos conto não é uma parábola, porque aconteceu e acontece todos os dias diante dos nossos olhos perfeitamente cegos. Não valemos aqueles ratos que se alimentaram do
mudo. Falamos sem pertinência, ouvimos com oportunismo, não vemos as coisas invisíveis. Somos uns falhados, e no defeito de falhada como vós sou, resta-me terminar citando as mais recentemente lidas e inúteis letras de Tchékhov (
Duelo): «Sei muito bem, disse ele, que me não podes auxiliar em nada, mas abro-me contigo porque para os falhados e inúteis da minha espécie, a salvação está em desabafar. Sou obrigado a procurar uma explicação e uma justificação da minha vida absurda, nas teorias de outrem, num tipo literário, na ideia de que nós (...) degeneramos...».
Desculpai o tom, mas sendo o mundo um Duelo que se faz Guerra, isto não pode passar de um regabofe e assim continuará a sê-lo.