23.2.09

um dia, (e) a eternidade


A festa dos Óscares define os contornos de uma dimensão teatral que, longe de se constituir cinemática, despista subtilmente o que, ainda que no limite, deveria representar o apelo fundamental da sua realização. No entanto, e escapando a quaisquer trâmites de mercado, Meryl Streep - essa grande senhora - quando aparece, aparece em nome da pureza da linguagem fílmica e só não papa uma estatueta por ano, porque a festa dos Óscares define os contornos de uma dimensão teatral que, longe de se constituir cinemática, despista subtilmente o que, ainda que no limite, deveria representar o apelo fundamental da sua realização. A festa dos Óscares não passa, pois, da festa dos Óscares; fulvos, todos igualmente espalhafatosos. Não obstante, apartadas dos pressupostos físicos e no solipso adaptado à ocasião pública (dimensão cinemática teatralmente constituída), há as pessoas que dão rosto quotidiano aos actores que não dão nas vistas, como a Meryl Streep ou, mais recentemente, Seymour Hoffman, como os sentimentos que transportamos para toda a parte, mas que destinamos a uma intimidade secreta que nos marca até à morte. As pessoas que, em trâmites diferentes, já arrecadaram, se me faço entender, o prémio festivo da eternidade.
[Imagem: Actores: Sister Aloysius Beauvier (Streep) e Father Brendan Flynn (Hoffman). Doubt/2008]

22.2.09

auto-retrato

Por exemplo, a minha imagem não me interessa para nada, ou antes, sirvo-me de mim como uso dixan ou ariel para lavar a roupa. É o que estiver mais à mão e o que for mais barato. Ora eu não sou muito cara nem esquisita.

Fátima Rolo Duarte.

20.2.09

todo aquele céu


[Fausto Bordalo Dias. 18 Canções de Amor e Mais Uma de Ressentido Protesto.]

18.2.09

casamento: lei(turas)

É, manifestamente, muito triste o grau da nossa incrível e prolongada degeneração. Há muito tempo que chegámos a um estado em que as relações humanas principiaram a ajustar-se a critérios de fundamental institucionalidade; o próprio amor, bem como o desamor, em virtude da ilegibilidade dos conceitos naturais e/ou selvagens, perdem na discussão para a poderosa (in)eficácia da lei. Não vale a pena parafrasear O Cântico dos Cânticos ou a Sonata a Kreutzer (exemplos imediatos), a lei é dura, mas todos continuam a preferi-la em prejuízo da bela, prologal, terrível e misteriosa condição humana.

rede social o $%&%$#$&#$%#$

Allen, desculpa-me, não é por nada, mas estava a descascar os legumes para o caldo (abóbora, batata, cenoura, cebola, nabo, alho francês e alho do teu quintal) e ocorreu-me o seguinte pensamento, parte dele citável: «Twitter é uma rede social e servidor para microblogging que permite que os usuários enviem atualizações pessoais contendo apenas texto em menos de 140 caracteres via sms, mensageiro instantâneo, e-mail, site oficial ou programa especializado.»; olha se o Sr. Fernando, mudo e surdo, soubesse disto, twittaria mais ou menos assim: Olá, rede social, estou a estatelar-me no chão neste preciso momento, e desconfio que, desta vez, é mesmo para bater as botas.
Era o darem-lhe com as ossadas, no mínimo, um ano depois; não achas, rede social?

16.2.09

dúvida

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Aprender a dúvida com as pessoas certas.

cordão humano pelo humano


Não tenho podido deixar pistas diárias aqui n'O Regabofe, embora vos assevere que continuo a andar com os pés virados para cima e a cabeça no chão (preceitos de um mais que realista). Só por causa das coisas, venho dizer isto de uma penada e a sangue frio, que o recuperador do calor da lareira leva o seu tempo a disparar. Recebi, há dias, um e-mail em defesa da mata do Choupal, prontamente assinei a petição, porque em tudo a mata do Choupal me dizia bastante: em tempos de estudante de Coimbra, aos sábados de manhã, ou de tarde, fui atleta de umas boas léguas daquela mata, até me lembro que, certa vez, ainda estudante um bocado tola, também por aquelas bandas fodi dentro de um Volkswagen cor de burro quando foge (quem nunca pecou ou quem nunca viu, ao menos, meio episódio da série de fitas Emmanuelle, faça o favor de arremessar o primeiro calhau), por conseguinte e em suma, cristalmente da mata me lembro com saudade e sem pudibundarias, que eu no monte, pelos vistos, é que estou bem. Agora querem, como se diz na terra dos analfabetos, alagar parte daquilo tudo, citando naco: uma área de relevância ambiental tão sensível. No entanto, e como diz o poeta, não era nada disto que eu vos queria dizer, pá. O verdadeiro motivo que me trouxe do estendal da roupa que acabei de apanhar no terraço, que sempre têm estado uns dias misericordiosos para lavar e pôr a secar, não achais?, é o seguinte: vivo numa casa de campo há uns bôs 3 meses; à direita da casa, como quem olha de frente, o vizinho surdo e mudo, pobre como veio ao mundo, humaníssimo como raros no mundo. À direita, perdão, à esquerda, uma vizinha viúva e calhandreira como outra qualquer em toda a parte do mundo, com ela troco limões por ovos caseiros e nada de palavras além do infeliz obrigadinha. Do mudo, como era conhecido por estas bandas, não lhe sabia o nome, apenas que me dizia olá e adeus, sorrindo, e me orientava o estacionamento à porta de casa; certo dia, gesticulou para alguém como quem diz: Esta é toda boa, hein? (além de mudo, era um bom cego, coitado); sabia, porque se vê do terraço alto onde entendo a roupa, quero dizer, estendo a roupa, que fumava no pátio das traseiras de casa como se fosse o único homem do mundo a fumar e a esbracejar sozinho entre as velharias anónimas que uma vida de merda acumula; por vezes tentava gritar e atravessava, amiúde, o dedo polegar à largura pescoço como se dissesse: corto-te a goela ou, eu cá apostaria mais nesta, estou com a faca ao pescoço, estou fodido, essas merdas. O mudo foi, aqui há tempos, jornaleiro do quintal desta casa, ainda eu habitava longe daqui, num apartamento entalado na cidade fria. Poderia ser adepto do benfica (ninguém é perfeito), julgo-o pelos cromos colados na placa de zinco a fingir cancelo que dá para o seu pequeno quintal, desde há mês e meio, sem que eu percebesse o porquê, cobrindo-se de silvado. Ajudava uma senhora muito velha, que vive mais para cima, a atravessar a rua, frequentemente obrigava os carros a parar não fosse a velha partir-lhes o retrovisor com as muletas (acho que não gosto da velha, é amarga, calhandreira e fala mal do povo, incluindo o mudo, sorte a do mudo que era surdo, ou sorte a da velha, que eu não responderia pelos actos do mudo se o mudo não fosse surdo). Enfim, peço-vos que aguenteis os cavalos, que isto não é uma parábola e estou quase a terminar. Desde o natal que ninguém sabia do mudo, indaguei no café e na venda, inclinava-me no muro entre molas e cuecas e o pátio, sem homem, fechando-se nele mesmo ao compasso calado do silvado e outras ervas daninhas. No sábado passado, isto é, anteontem, uma cunhada veio saber do familiar leproso, abriu a porta da fachada nascente e deu com ele deitado de bruços, os pés virados para a porta, morto há já cerca de mês e meio (apurado adiante), desta feita não completamente sozinho, porque alguns ratos fizeram dele ninho e repasto, e fizeram muito bem, que eu, se fosse rata de cano, teria feito o mesmo. Conto-vos esta história (e sobretudo às almas sensíveis à sensibilidade de um monte onde se corre e fode a torto e a direito, as mesmas que, a partir de hoje, não vão ter a lata e o descaramento de solicitar mais das minhas assinaturas em defesa de florinhas e outras impertinências), conto-vos esta história para que penseis comigo o seguinte: este mundo, minhas senhoras e meus senhores, não vale a ponta de um corno. O que vos conto não é uma parábola, porque aconteceu e acontece todos os dias diante dos nossos olhos perfeitamente cegos. Não valemos aqueles ratos que se alimentaram do mudo. Falamos sem pertinência, ouvimos com oportunismo, não vemos as coisas invisíveis. Somos uns falhados, e no defeito de falhada como vós sou, resta-me terminar citando as mais recentemente lidas e inúteis letras de Tchékhov (Duelo): «Sei muito bem, disse ele, que me não podes auxiliar em nada, mas abro-me contigo porque para os falhados e inúteis da minha espécie, a salvação está em desabafar. Sou obrigado a procurar uma explicação e uma justificação da minha vida absurda, nas teorias de outrem, num tipo literário, na ideia de que nós (...) degeneramos...».
Desculpai o tom, mas sendo o mundo um Duelo que se faz Guerra, isto não pode passar de um regabofe e assim continuará a sê-lo.
[Imagem: Vasily Vereshchagin. A apoteose da guerra. 1871.]

15.2.09

Vasily Vasilyevich Vereshchagin


Desconhecia. Referido na página 24 ou 23 verso, como preferirdes, da minha edição (de 1938) de O Duelo de Anton Tcheckoff (sic). E este post é um post de puro e impudente exibicionismo, quem não estiver bem que se ponha, a ler Tcheckoff, p.e..

13.2.09

e vão duas publicidades

A melhor publicidade à revista onde, entre outros sítios, pode ser lido o Casanova.

8.2.09

que te chamem outra coisa, porra

Que tal: Assalariados dessa Grande Puta Mercenária?

7.2.09

dilema

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[Do gr. dilemma] Situação em que somos confrontados com duas soluções igualmente difíceis e penosas.
[Imagem. Gilbert Garcin. Le dilemme.]

4.2.09

frieza

Acusam-me, muitas vezes, do crime da frieza. Declaro que há uma Julie Vignon em todos nós e mando-os ver filmes e ler livros, que é como se os mandasse às fezes que o intestino expele normalmente pelo ânus.

2008: ano judas iscariotes

Altura para fazer balanços. Ainda há quem esqueça que, quem trai, acaba por morrer à corda.

metáforas


Vivo, actualmente, numa casa de campo; não sendo escritora, sofro da nevrose crónica das criadas domésticas. Há dias entrou-me em casa um rato e sei que vive, por baixo do telheiro, entre a lenha, pelo menos um condomínio deles, são para aí uns 6 ou 9 ratos. Tal como Julie, em Bleu de Kieslowski, tenho tanto medo de ratos e ratazanas como da vida. Em casa sou inteiramente doméstica, vivo para esfregar o chão onde reina o meu gato preto; embora solteirona e não sendo intelectual, juraria que me resta a vocação para levar porrada de um homem maldito nascido para bater em casadas. Fora de casa não passo de uma empregada de estranhos. Todas as pessoas, para mim, são patrões calculistas, pessoas que contam dinheiro para adormecer e anedotas para fingirem que estão acordadas. Caminho pelas ruas que nem uma rodilha. O mundo não presta, aproveito este blogue para repetir as vezes que forem necessárias: acreditai de olhos abertos, o mundo nunca prestou. Aconselho-vos, portanto, a terdes medo, muito medo, dos ratos e das ratazanas. À primeira oportunidade, enfiai-lhes veneno pela goela abaixo, ganhai a coragem que me falta.

2.2.09

25 de janeiro: DBdP

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Miguel Marujo, de quem há tempos dissemos, e muito bem, ser o autor do mais fodível de todos os blogues consagrados à deíctica corpórea parafeminina, consentiu-nos a inauguração do Dia Blogosférico da Puta. A lógica seria esta: Maravilhoso Rumo das Putas na Ordem Fílmica do Mundo (título já aparecido, remotamente, num post d'O Regabofe autorado pela woody). Seguir-se-ia uma pequena lista das putas maravilhosas introduzida, num primeiro post, por um excerto em youtube da fita La Maman et la Putain (1973), filete que serviria de máxima sustentação conceptual da figuração posterior (conjunto de 1 semanada de imagens -7, portanto-) de mulheres nomeadas, pois, no esplendor deíctico de vocação sexual, tais como: (Juliete), Et Dieu... créa la femme ,1956, a ela de Roger Vadim; (Lucienne), La chienne, 1931, a ela de Jean Renoir; (Marguerite Gautier), Camille, 1936, a ela de George Cukor; (Nadia), Rocco e i suoi fratelli , 1960, a ela Luchino Visconti; (Holly), Breakfast at Tiffany's , 1961, a ela de Blake Edwards; (Nana), Vivre sa Vie, 1962, a ela de Jean-Luc Godard; e (Séverine), Belle de Jour , 1967, a ela de Luis Buñuel. No entanto, o grande problema passaria por encontrar figurações de qualidade na internet e não sabíamos se a coisa resultaria mais do ponto de vista epistémico e não tanto, como seria desejável, do ponto de vista estético. É que a força destas mulheres, e há que dizê-lo nos termos mais simples, emerge de dentro para fora, daí que daqui derivava a nossa dificuldade maior (eminentemente prática), a de encontrar imagens na web que fizessem jus ao poder do conceito puta que, no caso vertente, sempre supera a imobilidade fotográfica inadequada à motricidade dos filmes e actrizes em causa. O Miguel, padroeiro da mulher total mais que produto da soma das partes, não declinou a ideia, galgou a nossa dificuldade, e com imagens entretecidas na lógica inicial mais não fez do que sobrelevar o patamar da nossa invisa expressividade. Ficou ardente, Miguel. Mercis.

[Imagem: Nadia (Annie Girardot), Rocco e i suoi fratelli, (1960). A Ela de Luchino Visconti.]

seminal

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As lágrimas de Federer que no instante encerram a fisicalidade mais humana de um atleta eterno.
[Imagem copiada do Last Breath.]

a diferença em ténis completo

O que estamos a observar entre o Federer e o Nadal é, talvez, o que seria inevitável acontecer se todas as décadas fossem beneficiadas por dois inigualáveis jogadores de ténis separados por 5 anos de diferença. (...) é um prazer andar por aqui ao mesmo tempo.

1.2.09

mediação possível


Em boa verdade, o desportista não perdeu, tão-pouco Nadal perderia caso adviesse o resultado mais desejado. O que esteve em causa foi, sobretudo, a vitória do Homem sobre tudo o resto, e o certo é que o Homem, em ambos os atletas por fim manifesto, ganhou. Quando isto acontece, vale a pena chorar.

Federer vs Nadal: LIVE

Alturas destas em que eu gostaria de estar a fazer bainhas abertas ou preferiria pintar e bordar com a irmã Celeste durante uma vida inteira.