31.3.09

hemorróidas

Em registo epistolográfico, Anton Chekhov deixa escrita a prova de que, a partir de hoje, não mais precisarei de me sentir envergonhada quando afirmar: - Tal-qualmente Chekhov sofria, também eu sofro da existência das minhas próprias hemorróidas, meu prezado cidadão. Não sinta vergonha, afirme-o também.

O meu olho esteve a doer ontem e hoje, por isso estou a escrever esta carta acompanhado de uma forte dor de cabeça e de uma sensação de corpo pesado. As minhas hemorróidas também me lembraram da sua existência.

Anton Chekhov. Viagem pelo império russo. p.52. [Trad. (muito reles é favor) de Carla Garrido Barata]

29.3.09

Aviso

A Noite de sempre, autorada por Rui Bebiano, agora em novas e ainda melhores vistas. Caso para afirmar que quem muda a noite ajuda.

23.3.09

da mensagem dentro da garrafa ao... twitter?

A verdade, tão irónica, é que precisamos urgentemente de mecanismos ou suportes de comunicação mais e mais velozes para mostrarmos ao mundo a crescente impossibilidade de comunicação, o quão sozinhos nos sentimos.
Não sem algum pejo, por mim falo.

22.3.09

East, sol que nasce a oeste [II]

Eastwood aconteceu no oeste


Eastwood, coroa luminosa do sol, nasce a Oeste, no coração de Leone, e só recentemente e com a mesma resplandecência parece começar a morrer a Este de East ou em si mesmo. Independentemente de lutarmos ou não por aquilo que ele significa, cada um de nós transporta em si o seu próprio Eastwood. Sobre a cena final de Aconteceu no Oeste -- lugar onde a aura de Eastwood já havia acontecido (vídeo em baixo) e, por conseguinte, inaugurado um olhar humano que contraria, em o desacelerando, o disparo abrupto da existência -- escrevi, no dia 24 de Setembro de 2007, neste mesmo blogue, o seguinte trecho que em nada alterei, porque nada (para o bem e para o mal) poderia ter mudado desde então. É um texto sobre Justiça, sobre um sol que nasce a oeste e que morrerá em East(wood):

Ensinou-me o meu pai que, a partir desta cena (vídeo ao alto), passa a ser possível fazer todos os travellings à figura sempre remota da Justiça - deslocando o nosso olhar para a frente, para trás, de cima para baixo e de baixo para cima, acompanhando-a lado a lado e circularmente, ou montando sobre ela uma larga panorâmica. Não obstante, ficaremos sempre com a impressão dolorosa da sua impossibilidade, ainda que ela esteja em todo o lado e mais ainda, a cada passo, no gatilho do justo, mas infeliz justiceiro. Se é disparada, mata; se não é disparada, deixa morrer. Onde há morte, parece não haver justiça e, no entanto, a morte parece ser o último aviso da Justiça, mas sem possibilidade de retorno.


Independentemente de lutarmos ou não por aquilo que ele significa, cada um de nós transporta em si o seu próprio Eastwood, senão leiamos antes estes belíssimos textos: Ricardo Gross, Sérgio Lavos, Ricardo Gross, mais Ricardo Gross. É espalhar em grande vento.


Lévin

Lévin, um migrante de leste, sentindo-se tão perdido neste mundo e arredores, resolve publicar um anúncio nos classificados do jornal local. Peço, a quem me possa ajudar, a seguinte informação: Onde posso encontrar sementes de clitórias e de cravinas? Oh, estou a brincar, o que vos peço mesmo é o seguinte:

e um só filho chamado Nicolau

José Rodrigues Miguéis é um Tolstoi português. Se me casasse, iria vestida de Karenina, com um ramo de camélias brancas que ofereceria ao altar de Santa Salomé dos milagres, haveria de ser a amante portuguesa de Oblonski, embora jamais viajasse com ele para Itália, porque em Itália, unidos por uma instituição amorosa, estaria a viver com o meu legítimo homem, o príncipe Fabrizio, pelo menos até ao dia em que celebrássemos bodas de ouro e no qual rebentasse uma guerra tão medonha que nos matasse durante um beijo.
Gostei muito do texto do Luís.

duas filhas de um regabofe


Estava para aqui a pensar na minha vida, no que O'Regabofe tem feito por mim que a minha querida mãe não poderia fazer ou ter já feito, e chá servido com madalenas ou uma operação de mudança de sexo de certeza o blogue não mos faz nem mos poderia fazer. O certo é que faço mais por este blogue do que ele tem feito por mim, inúmeras vezes promotor de terríveis acusações. Duas delas subsistem mais do que tantas outras. Por exemplo, não só na cabeça do João Carvalho, mas em muitas outras cabeças me acusam, embora gentilmente, de ser homem (a prová-lo, declara o João, está o buço que foi da allen, allen que, ao contrário de mim, se não se deixa afectar, isto porque, e dá de remate com provérbios antigos tais como «mulher de bigode ninguém a fode»). Todavia, do que me acusam mais é de, frequentemente, escrever um português exemplar (tão imperdoável em senhoras como em quengas, que me não ouça o Eastwood), com algumas falhas, é certo, e o que é certo é que pouco mais levarei desta vida. No entanto, e vede bem a ironia das coisas, se o acordo ortográfico vier a vingar, passarão a acusar-me frequentemente de analfabetismo. Porém, acredito que este blogue, num futuro longínquo, me fará a justiça de através dele vir a cumprir o meu objectivo mais significativo que não passa, naturalmente, pela transsexualidade, mas sim pelo fácil, suave e conformista sabor a derrota ortográfica. Eu mesma me pregarei numa cruz e exclamarei de olhos virados ao céu: Está tudo consumado. E dito isto, expirará o meu corpo de mulher iletrada semelhante a certas mulheres tolstianas que, no restolhar dos vestidos de baile, falam unicamente dos chapéus umas das outras e do palerma do Nikolai, que resolveu alistar-se na estúpida da guerra contra Napoleão em vez de ter ficado em Moscovo a dar beijinhos nas faces submissas da petite petite et chère Julie. Nessa altura todos olharão para mim, pregada aos madeiros d'O Regabofe, e exclamarão: Ah, afinal, ela era mesmo uma mulher! E a outra também, também é uma mulher, sim, afinal são duas mulheres. Vede como são fúteis sem pêlos no buço e por trás dos cosméticos, e que mal tratam a sua própria língua.

Em meu nome e no da allen: obrigada pelo linque, João. Agora já só tem para gastar mais duas tentativas. Tente acertar nos chapéus.

21.3.09

a luz da ignorância

O que sou, como leitora, resume bem a minha vida. Não procuro línguas originais nem mesmo quando se trata de literatura portuguesa (vá-se lá explicar isto), porque não domino nenhuma das línguas da Terra. Procuro, sim, a tradução que me pareça a melhor; quando a encontro, há um mistério que revela que assim é, a melhor. Como diria alguém que não conheço, a melhor, isto é, a mais iluminada de entre as ignorâncias.

primavera omissa

A janela do quarto está aberta e o estore corrido até meio, para que um vento inexistente entre e mova os cortinados. Pela casa soa o "A girl in port", dos Okkervil River. Lá fora uma noite quente de finais de Julho, só que em Março.
Finn

19.3.09

antologia da memória


A 7 de janeiro, o Estado Civil morre solteiro e parece não ter deixado filhos; depois o Luís que põe termo a uma Vida Breve. Não há muito tempo, a despedida da Carla de Elsinore. Intuímos inúmeras vacilâncias (inluindo a nossa), eventualmente um ano que dá princípio à morte da melhor blogosfera nacional (dela excluindo o nosso). Sem dramas, meus amigos, que isto é e será sempre assim. Para o bem e para o mal, há blogues que são partículas integrantes de um universo virtual maduro, completamente feito. O Insónia, ou Antologia do Esquecimento, é um deles. Despede-se hoje, confirmando, uma vez mais, o lugar de proveniência e destino de qualquer um de nós, forasteiros de nome Ninguém, ou do que quer que façamos. Lugar a que, honestamente, todos devemos chamar Passagem. Que vença, portanto, a memória da Passagem de Ninguém.

Obrigada, Henrique.

[Vídeo: Memória de uma das fitas de Leone, irónica e infelizmente das mais esquecidas.]

fraternidade


Rocco, o bom frágil; Simone, o bom fraco; Vincenzo, o bom conformista; Ciro, o bom prudente; Luca, a boa esperança; Rosaria, a boa mãe; e Nadia, a boa puta. Um Luchino Visconti em poucas e terríveis palavras.

18.3.09

pêlos no buço

Uma pessoa leva anos até que reencontra um velho amigo que deixou de (nos) reconhecer. Está a acontecer comigo. A última vez que achei que ele era um velho amigo, ainda não tinha descolorado os pêlos do buço, quanto mais tirá-los, sem que, no entanto, isso constituísse impedimento à consolidação de uma verdadeira amizade, ademais, uma verdadeira amizade sai sempre reforçada quanto mais naturalmente se contempla uma pequena excentricidade no amigo que a maioria das pessoas associaria ao padrão dos defeitos e fealdades. Entendemos que o velho amigo reencontrado nos deixa de reconhecer quando, volvidos tantos anos, a primeira pergunta que nos faz perdeu a pertinência de uma estética e ganhou o peso de um tempo em nós diferentemente instalado; O que fizeste ao buço? serve de pergunta metáfora para explicar que a amizade até suporta um décalage temporal, no entanto, jamais resistirá a um tão grande décalage estético-ideativo. O que o velho amigo deixou de reconhecer em mim foi que os pêlos do buço continuam lá, mesmo tendo sido tirados; já as ideias que não existiam quando ainda tinha um enorme bigode e, ainda assim, aos seus olhos lhe era perfeita, agora existem e constituem, muitas delas, enormes defeitos que ele não é capaz de reconhecer, achando-me, por isso, sem pêlos no buço e continuamente digna, como quando os tinha, de uma mesma e antiga devoção. Talvez o velho amigo seja aquele que é tão ou mais capaz de, ininterruptamente ao longo da vida, acompanhar e fundamentar os nossos defeitos em detrimento de uma veneração iconófila das nossas qualidades, tais como pêlos no buço e assemelhados. Escrevo isto com muita tristeza.

17.3.09

Maria Velho da Costa


«Da dor até à dor», MVdC por João Paulo Sousa.

isto é mais forte do que eu

É costume, no entanto, nenhum outro tema do Prós e Contras poderia ter sido mais impertinente do que o desta semana: O que é que Angola tem? Foda-se, a sério, já pareço o Maradona, mas seria de esperar outra reacção? O que é que Angola tem? Já toda a gente sensata e calculista sabe o que é que Angola tem, todavia, durante mais de duas horas foi ignorada a única pergunta pertinente da noite: O que é que Angola não tem? O que Angola não tem é aquilo que todos sabem, mas que os calculistas sem vergonha na cara ignoram: no mínimo dos mínimos, a inclusão da pobreza nos trâmites obscuros da produção de riqueza. O sr. dr. paineleiro Aguinaldo Jaime, um dos tais pretos de alma branca, resume bem a sua posição de economicista escondido por trás da lei da gravata: Se houver uma postura de respeito das leis e instituições, se houver uma postura de respeito para com o mercado, etc., etc., vós perdoai-me a redundância, mas deveria ter ficado numa senzala a levar fustigadas no seu cu gordo para ver como elas doem, e já agora vagar o lugar para a palavra angolana de gente como aquele senhor da audiência, em todo o debate o único branco angolano de alma preta, que teve a integridade (porque já não é uma questão de coragem) de abrir o peito às balas da corrupção e da pobreza. Alguém venha à caixa de comentários lembrar-me do nome dele, por favor, que é uma vergonha eu ter-me esquecido.

depois de maria não me mates que sou tua mãe*

Uma das melhores homenagens, em blogosfera, a portugal real.

* Título de novela camiliana.

16.3.09

é o diz-que-diz-que, Camilo


O Irmão Lúcia lembra muito bem o nascimento do homem que um dia ousou escrever qualquer coisa como Trago nos intestinos Teófilo Braga e uma ténia, e se não é Teófilo Braga, que a minha memória já não é o que nunca foi, pode sempre substituir-se o Teófilo por Manuel Pinheiro Alves. Também tenho umas coisas para contar em homenagem ao portentoso lingrinhas de Ceide. Uma vez fui visitar a propriedade de Ana Plácido, quer dizer, a propriedade que havia sido do seu primeiro legítimo marido e que passou, por ironias da morte, a último abrigo dos amores contrafeitos desta com o seu amante, Camilo Castelo Branco. Uma casa de primeiro andar sita em São Miguel de Ceide (ou Seide), cuja fachada principal exibe os ramos adejantes de um velho quercus que dizem ter sido plantado por Jorge, o filho enlouquecido de Camilo. Conforme se entra, damos de caras com estes retratos, e, para quem nunca viu o rosto de Camilo, cuidará que se trata do segundo à direita. Dizem que Ana Plácido se sentava amiúde no preguiceiro por baixo da grande chaminé minhota, devorando charutos à conversa com os camponeses. Acredito impetuosamente e sem provas. Numa das prateleiras da sala grande e do que resta da biblioteca do escritor, está um prato com folhas de jornal rasgadas em pedacinhos minúsculos e que o guia da casa disse terem sido rasgadas pelo grande amigo de Camilo, Feliciano de Castilho, que, por ser cego, gostava de manter as mãos sempre ocupadas. Lembro-me de ter enfiado uma mão cheia de pedacinhos de jornal dentro do bolso, isto aconteceu há uns anos, mas certamente já terão reposto mais pedacinhos de jornais do século XXI; para que conste, também guardo sempre alguns para limpar os vidros de minha casa. Durante a visita, desapareceu um turista português (eufémica para parvonês com interesses culturais) e fomos dar com ele de calças descidas e muito derreado, tentando levantar a chapa que tapa(va) a antiga latrina da casa. Ao nosso olhar de espanto, exclamou feroz e intrépido
- Queria sentir o que sentia Camilo quando expelia naturalmente os seus excrementos. - Meu deus do céu - pensei eu - há gente neste mundo que não entende que jamais poderia trazer Camilo na cabeça, quanto mais nos intestinos.

freud diz que os orgasmos clitoridianos são infantis

Por razões que desconheço, esta noite sonhei que ainda eu não tinha lido o guião do seu último filme e já Clint Eastwood me havia dispensado do elenco do mesmo, cujo título e data prevista para estreia só eu conheço. Entretanto, despedi-me de Eastwood enfunada e cheia de amargura, e fui para casa. Uma vez em casa, o sol começou a desfazer-se e enormes esferas de lume desataram a cair no quintal, corri para a mangueira e apaguei o lume com uma leve chuveirada. Liguei para os sapadores e estes informaram-me que ainda faltavam cair cerca de 85 mil esferas de lume e que, para meu grande medo, o fenómeno poderia repetir-se sobre as traseiras de minha casa. Já todos sabemos o que Freud pensa sobre os orgasmos clitoridianos, mas, por deus, o que diria Freud sobre isto?

Fila K - uma Cinemateca em Coimbra


Para quem não sabe, fique sabendo que, no meu tempo de estudante, o melhor usufruto de um cidadão decentemente residente em coimbra não ia para lá dos Hospitais da Universidade, além de que, naquele tempo, não havia nada disto, mas agora já há. Gastava os tostões que podia e não podia para me deslocar de carreira à cinemateca da Corte e depois comia nas cantinas do que os amigos me pagavam. Oquéi, estou a mentir, mas poder-me-ia ter acontecido realmente se este post não fosse sobre cinema e sim sobre a ficção da minha própria vida. Adiante. Para qualquer informação, consultar o site dos marginais assim aqui; adianto, desde já, que as sessões de terça comportam entrada livre e este mês é consagrado não a Maria, mas às marias de Cassavetes. No caminho para Fátima ou para os jogos do FCP, um excelente motivo para fazer o desvio e tomar poisada na cidade dos estudantes (de meia-tigela). Com a certeza de que a qualidade dos hospitais, à excepção da psiquiatria que nada tem feito pela cidade, continua garantida.

15.3.09

primeira grande enciclopédia de poche


«Banquetes reais, orgias anónimas, crises de bastidores, turismo pansexual, socialismo socialite, adultério, fetichismo, recriminação, propaganda, clisteres de vodka russo, poemas* em latim e name-dropping numa escala industrial: aqui está uma leitura de férias para toda a família».

* Não sei (eu, woody) se é falha involuntária na gráfica da Quetzal, no entanto -- meu deus, jamais pensei vir a precisar de os citar -- , ensinaram-me os meus mais 'queridos' lentes da academia de Coimbra que há que consultar sempre as «fontes originais».

linque-que-deslinque

Por vezes escrevemos coisas neste blogue que levam blogueres a deslincar este blogue. Normalmente isso acontece quando escrevemos coisas que não passam de coisas; nos dias que correm, a honestidade, por exemplo, não passa de uma coisa; enfim, coisas que não passam das coisas, talvez por isso nos custe mais os deslinques vindos de pessoas que achá(va)mos inteligentes. O amor, já dizia a Amália, é aquilo que nunca me desiludiu. O que nunca nos desiludiu até hoje? Flores do monte, por exemplo.

vestido de quarto

Muito provocante, esta relação não propriamente oposta de eu preferir a belga quando a allen prefere a de Amsterdão. Ai tchiki-tchiki, ai mulheres das nossas vidas.

dos gases atmosféricos ao homo eroticus

No Grande Dicionário de Cândido de Figueiredo ficamos a saber que um pião é uma peça de metal ou madeira, em forma proximamente cónica, com um ferrão na ponta, e que os rapazes jogam, enrolando-lhe e desenrolando-lhe uma guita. Quando li isto pensei que não seria necessário recuperar Boaventura de Sousa Santos dos meus tristes tempos de Universidade para perceber que foi escrito a um tempo cujo pólo científico dominante, ditado por premissas de teor sexista, era o masculino em prejuízo do feminino. Ontem vi um programa no Odisseia sobre o Clítoris, fiquei a saber que a cabeça ou glande do clitóris apresenta normalmente 8000 feixes de fibras nervosas, e que bem precisamos deles para nos resgatarmos do ferrão na ponta do pião. Mas voltemos ao pião. Acusavam-me de ser maria-rapaz por, entre outras brincadeiras associadas à superioridade da glande masculina, jogar ao pião e, desde muito cedo, saber imitar de cor e salteado os vaqueiros do Leone. É fodido, se tivesse apreciado mais a imitação das mulheres da pradaria (preferências da woody), muito provavelmente acusar-me-iam de putinha de saloon e quejandos. Basicamente, e se não degenerou no híbrido maria-rapaz, a mulher ainda se encontra sobre a linha de fronteira entre a mãezinha estado-novista e a grandessíssima putéfia; estamos, infelizmente, longe de um conhecimento que evolua para a equação de forças materno-paternais e o seu consequente prolongamento rumo à supremacia do prazer homo eroticus. Uma epistemologia natural que fundisse, de uma vez por todas, a mãe à puta, e que de uma costela desta fusão se criasse um novo homem. Enfim, tudo isto para vos perguntar, meus ledores cripto-libidinosos, onde poderei arranjar sementes de clitória?

vidas privadas

Esta noite dormi em casa da allen. Uma vez acordada bem cedo, decidi fazer-lhe o pequeno-almoço e levar-lho à cama, e assim o fiz. Fui dar com ela a ler a tradução de Guerra e Paz dos Guerra e resmungando ao mesmo tempo contra a tradução de Anna Karenina feita por Saramago, a sentir pena de quem gosta de ler Saramago, essa fraude comunista, a lamentar-se de quem nunca se comoveu numa linha de Lobo Antunes a ponto de se deixar chorar lentamente e em silêncio. Fui concordando e acenando com a cabeça, conforme segurava o tabuleiro e soprava sobre a caneca de leite com café, Sim, só gosta de ler Saramago -- bufffff! -- quem nunca se comoveu --bufffff!-- numa única linha de Lobo--buffff!-- Antunes -- já está como gostas, bebe! Quando subi para buscar o tabuleiro, dei com ela no terraço alto em robe de chambre, autêntico vestido de quarto, de chapéu de abas largas na cabeça e a lançar o pião das muitas maneiras como só ela o sabe fazer. Não serei a mesma se um dia a allen morrer à minha frente, provavelmente de insuficiência cardíaca depois de me terem detectado um cancro no útero.

andas a precisar de apanhar ar

Apesar de, habitualmente, me deitar muito tarde, desde há umas semanas para cá que me levanto muito cedo, este ano calhou começar a levantar-me cedo durante aquelas duas últimas de fevereiro que, inadvertidamente, vieram bastante quentes. É como diz a allen, chega o março e começo a gostar de apanhar o ar fresco da manhã. Umas vezes corro atrás dele, tem dias que uso uma rede que herdei do próprio Nabokov.

13.3.09

bosta

Anda no ar um cheiro a bosta que eu sei lá, provavelmente das cavalariças de uma escola agrícola aqui das cercanias. Por falar em bosta, e por falar em indivíduos da parvónia, o cheiro da bosta lembra-me sempre uma história contada por familiares meus. O Sr. Armando, o peludo de alcunha, irmão de um tio meu e emigrante muitos anos em França, quando regressava de férias em agosto, entrava no país por trás-os-montes, abria o vidro do peugeot 505 e exclamava alto como um quim barreiros: Ai, mulher, que bom cheirinho a bosta, já chegámos a portugal. O povinho nem se dá conta do quanto é metáfora para si mesmo.

IRS/08 (II)

Engordando a olhos vistos, o peso do sr. primeiro ministro que, pode dizer-se, em quatro anos passou de gazela a bisonte, não tem espaço na agenda para reavaliação dos Direitos Fundamentais dos (donos dos) Animais. É uma vergonha que não seja possível deduzir despesas de veterinário no IRS. Aquela cambada de ursos de assembleia teria muito por onde deduzir se assumissem o que verdadeiramente são. Muito sinceramente, Sr. Engº, deite a mão à consciência e em vez de ir para a Suíça esquiar como um lorde e lesionar-se como um parvonês, aprenda como é que as vacas lá, e isento-me de mais comparações, são verdadeiras senhoras. Nunca falei tão a sério na puta da minha vida.

IRS/08

Só de recibos hospitalares por desembaraço de espinhas encravadas na goela, tenho muito por onde deduzir. Podia ser podia, aguçado leitor, mas não se trata de uma metáfora. Da primeira vez, carapaus à espanhola. Da segunda, sardinha assada com pimentos da tia Isaura. Da terceira, dourada assada na brasa com batata a murro e um fio de azeite de Macedo de Cavaleiros (produção particular). Da quarta, foi tão mau que me esqueci de que peixe tenha sido, lembro-me apenas de ter metido o cartão do médico na mochila, copiado para o mp3 umas músicas de Gustav Mahler e vestido uma roupa asseada antes mesmo de me sentar à mesa. E das outras tantas nem vale a pena amanhar discurso. Tento, ao menos, que aconteça aos domingos e terças, por causa do decote perfumado da Drª Glória e das mãos atrevidas do Dr.Miguel. Também tenho fantasias com mancas e mudos, enfim, o IRS mexe comigo.

suspense

A operadora Celeste Mateus tinha acabado de registar um prato de rojões de porco, um creme de cenoura, uma água sem gás e um copo de sumol de laranja quando nisto...

o cebolo e os melros

Ao contrário de muita gente que percebe de agricultura, gosto de meter o cebolo em março, ao som das primícias dos melros. Abro apenas um par de leiras, o suficiente para, nos meses veranis e em vingando antes da transplantação, não molhar mais do que meia dúzia de cebolinhas em molho salgado de vinagre e azeite. Já quando vivia na casa dos meus pais adiantava-me no cebolo, a Dilinha soía troçar da minha antecipação, ignorava que eu havia inaugurado dentro da minha cabeça uma tradição íntima que consistia em plantar o cebolo depois de os vizinhos terem metido as batatas e antes de começarem a cavar a terra para meterem o seu próprio cebolo. Possuo o dom de um Borda d'Água sem calendário, explicava-lhe eu, meto as cebolinhas antes do tempo não tanto para contrariar o método da gente que entende de agricultura, mas porque assim o comanda a pronúncia dos melros. A Dilinha, conforme ajeitava com uma das mãos as guedelhas à frente da testa, botava a outra à barriga para amparar duas gargalhadas e virava as costas proferindo, alternadamente, senão mesmo em simultâneo, um solilóquio de cumcaralhos e benzádeus. Sinto saudades do tempo passado em que, voluntariamente, faltava às aulas para meter o cebolo, do tempo em que a energia sonora dos melros prenunciava, como corolário, colheitas abundantes, um futuro repleto de agricultores tolstianos, de olhos benévolos e mãos calejadas, portadores de uma voz semelhante à dos melros, uma voz que sobe e abrange pensamento. Quem diria este país de antigo regime cheio de licenciados analfabetos empregues em cafés e pizarias?

11.3.09

os três mosqueteiros


Um dia hei-de começar a juntar moedas de dois euros em mealheiros de arrombamento único para comprar futuras compilações de textos escritos por ele em toda a parte; palavra de honra, estamos perante a emergência do Rogério Casanova, não há por onde negar a prova de uma evidência. Associei às minhas orações profissionais e amorosas um novo pedido a deus: Que Deus queira que RC se leve a sério; a sério, que se deixe de seitas num futuro brevíssimo (e não estou a falar propriamente de jantares) e passe a comandar a sua própria arca de noé. Compreendo que, por ora, não sendo ele um academista, aceite a boleia de um carro de bois, é certo que meritoso, mas não mais do que um carrinho de bois. O FJViegas não me levará a mal, aliás, se não fosse um homem inteligente não o teria reconhecido por trás de uma qualquer sarja cor de senhor dos passos (e que, a preceito, e afirmo-o sem ironia, acho lhe continuaria a assentar bem se RC fosse o senhor da gravata azul e sarja cor do senhor dos passos), apesar de eu sempre no imaginário o ter figurado à feição de uma mescla de três mosqueteiros: barba talhada à condição de um talassa, mosquinha D'Artagnan; um Porthos humorista; um Aramis ninfeu de testa alta, em todo ele dotado de delicadeza; quem sabe um segredo de Athos escondido por trás de uma arma ofensiva. (Andarei longe?). Faltaria acrescentar a estreita elegância de um Neil Hannon, mas que importa se a tem ou não tem quando escreve como só ele mesmo? Que importa se Casanova seria ou não capaz de usar uma combinação infinita de gravatas em camisas aos florões e cintos delgados de pele em cores sortidas, se todos legitimamente lhe consentem epicentralidade, se nitidamente todos à sua volta o adoram; p.e., este retrato não conta a verdade toda, de contrário esta malta far-me-ia lembrar uma excursão de fãs ao redor do seu ídolo e o FJViegas aquele Sr., meu antigo colega academista, muito mais velho, que decidiu tirar um curso na universidade para não apodrecer na reforma, como é que ele se chamava?, o Sr. Fernando, é isso mesmo, o Sr. Fernando, tal e qual o FJV, uma boa alma, uma paz de homem. Enfim, o que eu pretendo afirmar, em essência, ledoras e ledores obsequiáveis, é o seguinte: no panorama da ágora dos literatos da minha absoluta e honesta admiração, ponho em foco Rogério Casanova e Osvaldo M. Silvestre, ambos não necessariamente em relação contrária. Nem um nem outro passam por academistas; o primeiro, fora da academia, certamente lhe dará a volta, até digo mais, por ele meto a minha mão no fogo para não dizer outra coisa. Já o segundo, está dentro dela há um bom quinhão de anos, mas não inevitavelmente ela dentro dele (como diria o Vasco Barreto). O mais certo, para terminar que são que horas, é daqui a 20 anos eu me encontrar velha e bafienta na cama de um hospital, com problemas gastro-intestinais depois de me terem sido detectados melanemas nas análises clínicas, e ainda assim a ler, nas intermitências da arrastadeira, um romance do Vasco Barreto prefaciado por RC e posfaciado por Osvaldo Silvestre, ou não necessariamente por esta ordem de eternífluos.

daguerreótipo


Criado pelo francês Louis Daguerre, em 1837. A páginas tantas, vem no Proust.

excrementícia libidinosa

Embora os méritos poéticos de uma prostituta em regime de intimidade e o seu desprezível mercenarismo público estejam em relação inversa e jamais directa, mentiria se vos dissesse que não sinto um enormíssimo, gratuito e libidinoso estímulo sempre que, na consolação dos lençóis, me encontro a apagar determinados contactos profissionais.

a 5ª avenida da p.161

O Rui Bebiano não dá ponto sem nó. No dia 26/10 do ano 2007 aprontou-nos a partida do agrilhoamento, eu fiz-me desacautelada, ao contrário da woody, e a coisa era o passavas. Ano e meio depois, como se espreitasse pela fechadura de um santuário, dá comigo a ler a quinta linha da página 161 d'O Milagre Segundo Salomé: «Não é má ideia, essa de lhes arranjar empregos. Tudo uma pelintrice.» É como se, num repente, fosse dar comigo santa do pau oco, celebrando, nua, novenas ante o altar da virgem maria. Aproveito o vagão para manipular a crítica de Alexandre Andrade por ele mesmo atribuída ao Mau Tempo no Canal, tomando a liberdade de subtilmente lhe alterar a trajectória autoral. Em anos de existência a minha, eis a melhor crítica viva ao folhoso supra de José Rodrigues Miguéis:
...consegue conter, sem entrar em colapso, uma absoluta limpidez e uma consciência profunda do que de movediço e insondável encerram os seres humanos. Edificado em moldes essencialmente clássicos, esvazia de sentido qualquer discussão em torno da sua posição na literatura portuguesa, em torno de eventuais dissonâncias com tendências ou correntes, contemporâneas ou por vir. Este romance limita-se a existir, soberbo, mas sem reivindicar. A literatura portuguesa continuaria a ser o que é, com ou sem ele. O facto de não se encontrar em nenhuma encruzilhada dos rumos da ficção nacional é uma virtude inestimável. Ninguém o encontra pela frente como resultado de ter seguido um itinerário, ou por afinidade. Inteiro e agreste, só o encontra quem o deseja encontrar.
É preciso que se diga que os melhores atiradores, quando falham o alvo, falham-no com máxima precisão. Acho que foi o que aconteceu ao AA, embora eu, que sou uma vergonha a estender roupa quanto mais a lidar na literatura, perceba tanto da poda como de um lagar de azeite.
Até amanhã, se deus quiser.

8.3.09

sonhos por entre tudo

Nem diários, nem cartas. Os únicos cadernos que a minha avó guardava eram de receitas, algumas apontadas por ela, outras pelo meu avô, que tinha uma caligrafia muito bonita, embora difícil de decifrar. De certa forma, é possível encontrar nestes cadernos um registo fiel do quotidiano dos meus avós. Não só aquilo que comiam todos os dias, mas também parte do que se passava entre as refeições, sobretudo na vida da minha avó: os períodos de escolha, as compras, a preparação dos pratos, o tempo de espera enquanto a comida estava no forno ou ao lume, os sonhos por entre tudo isto. Da última vez que visitei a casa dos meus avós, fiquei incomodada com o vazio daquele sítio que costumava estar sempre cheio de gente. A toda a hora me parecia sentir chegar alguém com coisas para contar ou perguntas a fazer. Um cão ou um gato dos muitos que por lá foram morando.Se ao menos me tivesse lembrado dos livros de receitas.
É tão raro encontrar na blogosfera a narrativa do resgate, uma narrativa de natureza etérea e, por isso, dificilmente decifrável; por consequência, bela. Predominantemente feminina, logo, nada feminista.

também meti maracujás




Uma pessoa vai dando para velha e passa, aos poucos, a consentir o preito universal. Hoje abri uma cova no quintal e meti uma japoneira de camélias brancas. Depois, liguei à woody por sentir necessidade da reacção que vale a pena, a reacção de uma voz íntima que transporte a palavra justa. Para a woody não só homenageio as putas, como lhes atribuo a proporção de um todo maternalício emanante da terra. Uma mulher, para ser completa, irradia-se no mundo para uma intimidade gratuita sem compromisso. Uma mulher, para ser completa, compromete-se apenas a partilhar de uma mesma liberdade com o homem. Depois é vê-los crescer, entregues ao resto do que a natureza dá.


[Fotografias: allen/8março-09. Vídeo: Preisner: Conte d'amour.]

7.3.09

contra-parábola

Manhã cedo. Muitíssimo bem vestido, um velho homem, encostado ao muro de uma casa, gesticula com ambas as mãos como se com dois talheres levasse comida à boca. Aproxima-se um transeunte que, por acaso, - a menos que sofra de rinite alérgica ou esteja constipado - solta um espirro e não diz nada, nem sequer bom dia. Passados alguns segundos, aproxima-se um outro transeunte que repara no velho e indaga: - O Sr. desculpe-me a pergunta, posso saber o que está a fazer, aliás, devo dizer-lhe, com que elegância o faz?! - O velho responde prontamente - Cavalheiro, estou a jantar, é servido? - O homem, primeiro muito pasmado, de seguida soltando umas gargalhadas, reage - A esta hora? - E continua a rir como um tolo. O velho olha-o com pena e declara - O cavalheiro graceja e ri como um tolo, porque acha que não estou mesmo a jantar. Na realidade, e em verdade em verdade lhe digo, não só estou mesmo a jantar a estas horas como, não tardando, arroto-lhe para cima. - Temendo a chegada da sobremesa, o transeunte deu às de vila-diogo e o velho pôs-se a palitar os dentes, fazendo barulhinhos com a boca como se esbichasse um osso de javali.

5.3.09

dilinha

Há muitos anos fui vizinha da Dilinha. A Dilinha era a mulher dos impropérios mais vertiginosos. Quando se abespinhava, fosse com ela mesma, com os netos ou o último ladrão de uma das suas trezentas sardinheiras, jorrava os palavrões mais insólitos; o mais evidente, a título de exemplo, aliás, a título exemplar, era o célebre Meu filho de trinta putas. Actualmente, vivo ao lado de um guarda reformado pela GNR que, por não ter nada que fazer, atira de flóber não à tia Albertina*, mas ao meu gato mais velho. É um filho de trinta (mil) putas, Dilinha.
* Quem ouve Fausto, percebe esta.

última hora


Em menos de dois meses o canal Hollywood exibe C'era una volta il West. Está mesmo a terminar a segunda exibição, olhai, está naquela parte em que o barbaçanas dá uma sapatada certeira entre as nádegas da portentosa Jill (Cardinale), maravilhosa criatura. Ou vai cair um santo do altar --Bronson não cai de certeza-- ou a malta que dirige a programação da TVCabo (do pacote clássico para cima), julgando pelos desastres esmagadores dos últimos meses, não entende a gloriosa dimensão fílmica desta fita. Este post é um post de última hora, pois. Despiciendo? Talvez, se compararmos, p.e., com as últimas novidades do melhor jornal nacional (O Crime); ele, ultimamente, é «a namorada do Sócrates» sempre em destaque, a roubar lugar aos solavancos da Marante. Fica o aviso: quando vos tratarem da saúde, rezai para que vos saibam alvejar. Longe deste país, de preferência.

terceiro ano da noite


Uns despedem-se nas aporias da noite, outros somam e seguem. Três anos em três noites. Parabéns, Rui Bebiano.

[Imagem: Brassai]

a nossa Carla, a de Elsinore

Há uma verdade ou, se quiserdes, uma meiadade dela, que principia a ganhar força. A blogosfera é como qualquer outra coisa na e da vida. Aliás, é como a própria vida da maneira como a vaticina o ditado antigo: uma passagem. Obrigada, Carla, Obrigada.

essa é que é essa



O brilho até nem está na entrevista, diga-se de passagem. O brilho está em passar a saber (eu até já sabia, mas faz de conta que não sabia) que Rogério Casanova ronda a minha idade e que, a partir de agora, terei de penar muito para voltar a encarar as ventas do meu pensamento ao espelho. Brilho o dele, vergonha a minha. Agradeceria, já agora e no entanto, a muito de vós, amigos virgulólifos, críticos de virgulinhas várias e demais aperitivos, que suportásseis também alguma da minha vergonha. Questão de honestidade e, sobretudo, de sensibilidade e bom senso. Rogério, o Casanova, é, actualmente, o melhor observador de quase tudo, pelo menos desde que o meu pai afirmou (sem que, hélas, o tenha deixado escrito) que Bob Dylan a cantar lembra um pastor bêbado a desabafar no cume de um monte com lindas cabras. Só vos digo uma coisa: entre estes dois homens vai uma frincha do caraças. E o desenho, bem esgalhado, é da lavra do nosso Irmão, pois claro.

4.3.09

?

No outro dia, estava eu a rilhar uma pêra quando não sobrevieram ao topo da minha cabeça as duas maiores dúvidas da minha vida: porquê? porquê?

1.3.09

país do avô cantigas

Miguel Vale de Almeida assinala, mais uma vez, o atavismo da parvónia deste país. Lá diz o Vasco Barreto, que eu cito por outras palavras: Bom profissional é aquele que se não deixa penetrar pela instituição. Penetrar é bem o termo, Vasco, penetrar é bem o termo, minhas senhoras e meus senhores.