29.4.09

vende-se


É para informar que o Pedro Vieira (Irmão Lúcia) pôs a sua casa à venda. Todas as informações, com apêndice fotográfico, aqui. E vale bem a pena pensar nisso, leitor(a). De contrário, ao menos, é passar a informação de blogue em blogue. O Pedro agradece-nos.

[Fotografia: O pormenor da casa de que mais gosto. Sou aquela que está sempre sentada no cadeirão vazio.]

27.4.09

guerra e paz

Hoje acordei com um dos meus maiores dilemas de sempre: ligar ao meu mais recente picheleiro ou ao meu mais antigo psiquiatra. Talvez um ou o outro um dia me expliquem por que razão tenho uma dor tão grande na palma das mãos, qual a fissura por onde vaza um fio de sangue de cada vez que na palma das minhas mãos seguro o mundo da minha cabeça.

26.4.09

Teresa Salgueiro


Estamos de volta.

9.4.09

intervalo


Vamos de férias e voltaremos daqui a 15 dias. Ficai com Deus vosso Senhor, que o nosso vai andar bastante ocupado.

5.4.09

inspector Nicolau

Há tantos argumentos, mas não precisaria de dizer mais do que isto: tenho mais feitiços do que argumentos, um deles é gostar de narizes grandes e afilados.

Gógol n'A Barraca [até 31 de maio]*


É só para lembrar que há coisas a acontecer neste país, sim, olhai para os blogues, são a prova de que há muitas coisas a acontecer neste país, centenas, milhares, um trilhão de coisas a acontecer neste país, todavia Maria do Céu Guerra não é uma coisa e por isso não basta lembrar que existe, é preciso exceder os limites da mnemotecnia batendo largamente com chicote em quem, injusta e mediocremente, se esquece tantas vezes dela.

* Pede-se dedicação ardente principal e preferencialmente aos queridos ledores d'O Regabofe residentes em Lisboa. Vereis que, se comparardes esforços, não fica muito longe de vossa casa, senão vede o meu caso: para ir a Lisboa, começo por ter de andar uns 20 minutos a pé (se for de noite e em tempo de chuvas, acumula-se o facto de ter de tomar diligências sérias para não pisar salamandras de cores muito exóticas que se atravessam no carreiro); de seguida, tenho de apanhar uma caleche puxada por uma mula velha e só muito para diante, cerca de hora e pico depois, é que já posso apanhar a carreira que passadas muitas horas, talvez dias (consoante os ventos), me deixe indispensavelmente bem perto do jardim zoológico, que eu, na Corte, gosto de ser recebida por gente comme il faut. Por isso, agora ide, ide «qu'a vossa mãe disse qu'ísseis».

4.4.09

Dustin Hoffman


Não sei se traduzo bem o que hoje li, algures na web, mas arrisco. Aos 68 anos, este grande actor de pouco mais de metro e meio disse: «Choro sempre que posso». Não sei, mas apostaria que Dustin Hoffman leva a melancolia de casa para o trabalho; em todo o caso, os seus trabalhos melancólicos fazem-me chorar sempre que se viram para mim e me identificam. Mesmo nas alturas em que não os posso rever, porque estou ocupada a vivê-los.

e depois alfim, cossaca montada a cavalo, a paz

...Ou sejamos! Grandes hussardos de bigode e astracã do mundo fictício, atirando desprezo e ignorância e total inexperiência contra os costumes, as ruas, os bares e as pessoas do mundo real.
Cavalheiro de Beri-Beri, «Guerra contra o mundo real».

3.4.09

colecção privada

Obrigada, Finn.

1.4.09

a mulher em Chekhov: da mãezinha à puta, com uma desandança de permeio

Do mesmo registo epistolográfico, deixo-vos algumas frases que gostaria que retivésseis no escaninho da vossa mais extremosa virtude literária:

a) A mãezinha de Chekhov era uma santa e chamava-se Evgenia Chekhova. Nas cartas que lhe escrevia, começava por se dirigir a ela deste modo: Saudações, querida Mamã! [Atenção: M em capital].

b) Sobre as mulheres Gilyaks, que observou in situ, deixa o seguinte testemunho: São tratadas como animais domésticos, como objectos, (...) podem ser expulsas, vendidas ou pontapeadas como um cão. Os Gilyaks mimam os seus cães, mas as mulheres nunca.
Que Deus me livre da metempsychosis platónica, que eu, talvez por não suportar feministas, de certeza reencarnaria numa Gilyak, no entanto, assim de repente que me lembre, devo dizer que também não gostaria de exercer facilmente uma profissão sob os efeitos perversos da quota feminina. A Fernanda Câncio, p.e., ontem lá estava no A Torto e a Direito (TVI 24) diante do paz d'alma do Francisco José Viegas e de um outro cujo nome não lembro, mas de certeza atacado pelo terceiro dia da TpM, a tentar defender a tese da quota deitando mão aos (e cito-a) «350 mil estudos» que existem sobre o caso, mas que, parece-me pelo modo como titubeia em televisão (em blogue tartamudeia menos), não leu nenhum deles. Ainda assim, pior do que uma feminista que não agarra o mote pelos cornos e o defende com pertinência, é a feminista cuja voz rouco-esganiçada lembra os insectos estridulatórios diante da língua de um camaleão. A propósito de camaleão e ainda no tema das quotas, o Francisco José Viegas, a dado momento, vira-se para ela e para a Constança Cunha e Sá e diz qualquer coisa do género: Ouçam meniiinas ou então deixem-me falar meniiinas. E as meninas nem tugiram nem mugiram, foi ver, por breves segundos, a Fernanda Câncio calar a sua triste falta de conhecimentos em geral e de postura em particular, e o Francisco, em vez de falar, desatou a debicar qualquer coisa no ar como um galo manso, contrariando os cacarejos da galinha ao lado. O Pedro Mexia sempre soube reconhecer não ter sido talhado para televisão. É triste, meus ledores tolerantes aos meus piores dias, achar que um programa destes ainda é melhor do que esperar eternidades pelo canalizador da allen.

c) Anton Chekhov ia às putas (é verdade, não é da vossa, tampouco da minha, imaginação; lestes mesmo bem). Anton Chekhov ia certamente às putas, senão lede esta passagem do mesmo livro: Está-se sempre a rir e profere de forma constante sons com "ts". Tem uma incrível mestria na sua arte, de tal forma que ao invés de só usarmos o seu corpo sentimo-nos como fazendo parte de uma exibição de perícia equestre de alto-nível. Quando atingimos o clímax, a rapariga japonesa retira, com os dentes, um pedaço de tecido de algodão da sua manga, pega no nosso "velho" homem (ahahahah, isto é sublime!, nem o Henry Miller diria melhor) (lembras-te da Maria Krestoskaya?) e de forma algo inesperada limpa-nos, enquanto o pano faz comichão na barriga. E tudo isto é feito com uma sensualidade artística, acompanhada por risos e do som musical dos "ts".
E fui eu condenar tantas vezes o comportamento do meu querido pai. Homens e mulheres, se fordes casados ou quase, quando chegardes a casa do lupanar, batendo as 5h00 no campanário da vossa consciência, lede esta passagem aos vossos cônjuges, se forem cultos exclamarão com prazer: «Ah, Chekhov, sim, sempre e a qualquer hora; mais, mais»; se não forem cultos, acharão simplesmente que estais bêbados e um bêbado dificilmente consegue coiso e tal.

Vou-me lá, são horas de comer o caldo.

com verdade te minto, com ficção nem por isso [2]

Só há 5 mentiras no (meu) mundo: o Sr. Virgílio, canalizador; a morte da minha avó (uma mulher como a minha avó jamais nasceria para morrer e quem disser o contrário leva um tiro de caçadeira de dois canos no meio da testa; atenção, não estou a brincar); o meu mundo em si mesmo; o mundo para lá do meu mundo em si mesmo. E eu. De resto, acreditai em todas as mentiras ditas neste blogue, porque são verdadeiras. O mesmo se diga, e em contrário, das verdades aqui ditas.

paixão

Eu, que ainda ontem me sentia vivíssima por não ter certezas de nada, só nas últimas três horas cheguei a duas conclusões: 1) Não há nada mais sedutor nesta vida do que a contemplação de uma mulher com um violoncelo entre as pernas; 2) Não há nada mais ridículo nesta vida do que o paroxismo derivado das relações que nunca chegaram a existir.
Quer isto dizer que Álvaro de Campos sabia o que dizia quando falava das cartas de amor ridículas, mas nem por isso soube o que disse quando escreveu à mão cheia que a única conclusão é morrer. Acreditai em mim, eu sei o que estou a dizer. Enfim... A semana que vem é Semana Santa, costumo estar presente em todas as cerimónias pascais: quinta de última ceia e lava pés, sexta de paixão, sábado de vigília e aleluia. Aprecio as cerimónias até meio da vigília pascal, porque invocam a tristeza de morte e a tristeza da morte, e eu sou aquela pessoa muito triste que aos outros leva as alegrias da tristeza. Quando a meio da vigília pascal o padre inicia os cantos alegres da ressurreição, deixo-me ficar calada no meu canto, por baixo do nicho da senhora das dores como se estivesse por baixo das oliveiras do calvário, a achar que o mundo inteiro deveria botar a mão à consciência em vez de invocar para si os milagres da salvação. (uns minutos em silêncio) Não estava para escrever este post, antes pensei em partilhar convosco um trecho de uma sonata de fazer inveja ao sol esplendoroso dos últimos dias, é muito bela, é sim, composta por Johann Paul von Westhoff a quem eu gostaria de dizer o seguinte: - Johann Paul von Westhoff, nem só de Johann Bach vive o Homem, prezado Johann Paul von Westhoff.