Até que nem te sentias assim tão mal, agora vem o teu psicoterapeuta (quereis que diga psiquiatra? eu digo) até que vem o teu psiquiatra e diz que te vai tirar essa depressão. Essa depressão. Tu estavas bem, aqueles gritos contra o rosto dos que amas queriam dizer-lhes que essa depressão que o Aucíndio Valente te quer tirar se calhar nem é tua, mas toda e completamente toda dos que amas. Há uma força tão poderosa na fragilidade de uma mãe, na inclinação lenta das pétalas da tua japoneira, tu tentas explicar essa força aos que amas e eles respondem dizendo que precisas de visitar um psiquiatra. Então fizeste-lhes o favor de marcar o número do consultório da Marquês de Pombal, e por uma última vez consentiste que tudo à tua volta, à excepção da mobilidade da morte das pessoas e das coisas que nunca serão tuas, à excepção da tua melancolia (quereis que diga infelicidade? eu digo) à excepção da tua infelicidade cuja natureza é imensamente gratuita, parasse naquele dia dos teus 3 anos de idade, o dia em que então ainda não compreendias o porquê de teres nascido para o mundo, mas sim para a esmagadora mobilidade da incompreensão do mundo. Agora? Agora és grande como quem diz adulta. Agora toma, pequena, toma o cipralex como manda o clínico, entre refeições e não chocolates, há lá maior metafísica no mundo do que cipralex e assemelhados, pequena, há lá maior metafísica no mundo do que a implacável incompreensão dessa besta que é o mundo e contra a qual já só apenas a tua gratuita melancolia, a que clinicamente chamam depressão, nascida da fragilidade poderosa dos que amas, te salvava. E paga, paga caro a felicidade que eles te prometem, que eles querem que rias, que brinques, que sejas normal, que uma mãe seja apenas uma mãe, uma mãe, só uma mãe, e a tua japoneira tão-somente a árvore que dá camélias que lentamente nascem para a morte rápida e normal de todas as coisas. É muito fácil, entras pelo número 66 adentro, sobes ao terceiro andar e compras a felicidade da marca cipralex como se fossem cerejas à venda na berma de uma estrada de putas. Não vás por regabofes gratuitos, pequena de 3 anos, come cipralex como se fosse cipralex, que as cerejas não passam de cerejas e murcham como tem de murchar a besta deste mundo.