31.12.09

as frases da frase do ano

Deste tempo português, que por vezes parece surdamente incompatível, há frases, no entanto, que seria pena ficarem perdidas. Umas delas foi proferida pelo atleta Nelson Évora, e representa, creio, não apenas a descrição de uma técnica, mas uma espécie de razão onde a vida se pode decidir.
«Sempre que salto, salto para o infinito.», disse ele.
Transcender-se, ir além, ir mais longe, sabendo que isso implica que cada um se tenha encontrado humildemente com os seus limites e plenamente com as suas possibilidades. Numa estação de tectos baixos e de metas imediatas, «saltar para o infinito» é talvez uma solidária aposta. Mas o que seríamos sem a coragem e o risco?

Fotos escolhidas por escritores. A foto escolhida por José Tolentino Mendonça, de quem gostamos muito.
Revista do Diário de Notícias. 26 Dez./2009/ nº51399.

29.12.09

Rainer Maria Rilke


Graças a Deus, são poucos os turistas que o visitam no cume de Roran, onde, além do lado de dentro dos livros, permanece vivíssimo. Há, com efeito, muitas pessoas que morrem no dia 29 de dezembro, no entanto há os da cepa que não têm essa mania de morrer a torto e a direito como as horas. A maioria das pessoas, felizmente para elas, não sabe o que é estar durante um par de horas plenamente viva no cemitério de Roran, ou, mesmo, em qualquer outro cemitério. Felizmente para a minoria de loucos, é tamanha e dolorosa a visão da lucidez. São os eleitos a escapar do mundo dentro do mundo.

26.12.09

what the f****


Vai para muito tempo que me não ria tanto.

até estava de muito boa saúde

Estou bastante engripada. Perguntam-me se já tomei a vacina contra a Gripe A. Respondo que não, que prefiro morrer saudável.

18.12.09

do minarete ao minete


A verdade é uma e aborrece-me, claro que me aborrece. Falam, falam, falam, mas anda tudo atrás da Nespresso e a lambuzar-se com toblers. Para mais nesta quadra.

lei divina

Ponho-me a pensar: as pessoas não se confessam aos padres, advogando que os padres são pessoas iguais a todas as pessoas, mas sujeitam a sua intimidade às leis feitas por pessoas, as mais das vezes, piores do que elas mesmas. É só por isto que eu penso que assuntos relativos a intimidade (como, p.e., o casamento entre pessoas de diferentes sexos, iguais sexos e, até, entre pessoas e os chamados animais irracionais) deveriam estar sujeitos a um compromisso amoroso, logo seriíssimo, de responsabilidade individual, sob pena de fustigação de um raio divino que as partisse ao meio em mil pedaços de carne. Mas isto digo eu, que sou uma utópica de mil sexos diferentes e uma única responsabilidade amorosa.

até que a lei nos separe

Estou dentro do carro a fazer horas para um compromisso sério. Não, não se trata de casamento. É um compromisso muito, mesmo muito menos sério.

leis históricas

Duas leis históricas: Em 2008: Lei do tabaco (atenção: sou fumadora). Em 2009: Uma vez não abolido o casamento na sua integralidade (ainda que a alma seja grande, ou se está por amor ou nada vale a pena. Atenção: sou utópica.), o país está de parabéns (atenção: não tendes nada a ver com isso.). Felicidades aos noivos e pretendentes ao divórcio (atenção: sou solteira e muito má rapariga).

17.12.09

6.1 na escala de Richter (segundo DN)

Combinação de efeitos do cipralex e metabolismos metaquímicos da existência? Poderia dizer que o epicentro se deu dentro da minha cabeça, mas não se brinca com abalos sérios, sobretudo aqueles que, segundo dizem, mudaram a vida de Voltaire. Contudo, sei de muita gente que adoraria que isto fosse tudo abaixo e sobrevivessem apenas os melhores. O problema reside, no entanto, na descoberta da exacta indefinição de uma escala de abalos cujo epicentro se dê na cabeça dos melhores. Um problema de metaquímica que a metafísica, creio, jamais explicará.

o meu balanço [II]

No final de cada ano sobra sempre o mesmo dilema: Pregar aos peixes ou ficar muito caladinha?

16.12.09

o meu balanço

Vamos terminar o ano tal-qualmente começou; com efeito, sem nada de extraordinário. Por um lado, o resultado de referendos ao minarete; por outro, aguardam-se resultados para referendo ao minete. E tudo não passa de um joguinho de poder nas mãos do político e do capelão. É sempre isto que, chegado o natal, se oferece às criancinhas do mundo. Vamos lá, vamos.

o fim do mundo está próximo

No Facebook há mães que são amigas das filhas e vice-versa. Já no Face to Face nem por isso. A minha querida mãe, que não sabe abrir a miséria de um computador, está a anos-luz de uma contemporaneidade que tem vindo a colapsar à desamão dos caminhos adventistas a que é forçosamente disposta.

15.12.09

Desafio 2010


Ainda é cedo para legendas.

o som e o sentido*

Em certo post, cinco andares por aí abaixo, escrevi que Proust se masturbaba em vez de masturbava. Um leitor, vulnerável ao sentido, corrigiu inoportunamente e eu fui atrás e desviei a palavra - que tola que eu sou - alterando-lhe o som. O leitor, por certo, não sendo capaz de corrigir Proust, corrigiu a minha palavra, viu o resultado em seu favor e babou-se todo. Felizmente que agora estamos a falar de uma outra baba que a baba proustiana facilmente apaga.

* Bem apropriado.

dou-vos o mandamento novo

entre as mulheres

«Ave Maria cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres,
e bendito o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte.
Amém.»




Ali estávamos, eu e a cúpula ao alto, entre as mulheres de preto cheias de graça.

ponto de interrogação

O melhor no início de uma relação, o pior no fim de uma relação.

14.12.09

o regabofe: balanços [III]


Duas belíssimas pespitas suportadas pela mínima distância de um reflexo que lhes dá a forma de um par levemente insustentável. Com a verdade mentem, com ficção nem por isso. É isto tudo, Miguel.

balanços [II]


É muito confortante chegar à conclusão de que este blogue prestasse, ao menos, para nada. Proust masturbava-se mais de quatro vezes por dia. O pai dele, certo dia, deu-lhe 10 francos para ele se ir «curar» a um bordel. Sabe-se que, uma vez no bordel, partiu um bacio de 3 francos e que, nem assim, chegou a deixar de gostar de fazer amor com homens, tão-pouco colapsaria o clarão da sua genialidade. Um tudo-nada extraordinário sobre o qual este blogue não tem a capacidade de esclarecer mais nada. Não chegou a fornicar com uma puta e ainda ficou em dívida para com o bordel. Ahahahah. Isto tem tanto de confortante como de perverso: há, ainda, toda uma integralidade do nada para conhecer.

9.12.09

balanços

Tive um desaire profissional no início do ano. Cometi a avareza de ler muito durante o ano. Fui luxuosa, orgulhosa, gulosa, preguiçosa e irada ao cabo dos últimos meses; o ano termina com duas amigas atacadas pela guerra silenciosa da leucemia e o meu gato está morto. Tenho a certeza de que permanecerei melancólica até ao resto dos meus dias. Não entendo, por conseguinte, como ainda haja gente capaz de me condenar à sua pior maldade: a inveja. Como diria São Paulo numa hora destas: resta-me, portanto, a fé, a esperança e a caridade, se bem que, bem ao alto das três, eu esteja para sempre condenada à insustentável leveza do amor.

aforismo

Para que não restem dúvidas, não sou feminista. A feminista é um machista sem pénis.

a arte de desalmar

Freud, por esquecimento, amizade ou pudor, deixou por escrever a versão Alma-Mahler contada pelo próprio Mahler. Tenho quase a certeza de que seria, no que ao jaez das relações homem-mulher diz respeito, tratadístico. Nem sempre é seguro lançar-se à conquista das mulheres , já dizia Ovídio, igualmente tratadístico, em a Arte de Amar [séc.I a.C.].

saneamento

Menos problemas derivam do pecado do matrimónio do que do pecado do divórcio, por isso prefiro, a ter de preferir, falar da imundície do divórcio. Que os divórcios não contemplem o melhor para os filhos pouco me espanta. Que os divórcios não contemplem o melhor para os animais espanta-me ainda menos. Vivemos na merda deste país cujas fezes saem dos intestinos de quem o habita. Estamos perante um gravíssimo problema de saneamento básico.

7.12.09

Mahler para Visconti

2010-2011: ano novo mahleriano na CdM


Os maníaco-depressivos, escreve a Professora Jamison, têm frequentes preocupações com a morte. Por outro lado, têm tendência para pensar em termos espectacularmente grandiosos. Em indivíduos menos criativos, isto pode conduzir a falsas ilusões que são perigosas, mas quando conjugado com o génio, como acontece no caso de Mahler, os resultados podem ser avassaladoramente impressionantes. [Stephen Johnson. Mahler. Vida e Obra. Ed. Bizâncio. p.80.]

O pleno das Sinfonias mais a Canção da Terra. Na Casa da Música.

4.12.09

mãos ocultas

Este blogue não serve tanto para falar de faces ocultas no regabofe da multidão quanto de muitas pessoas novas que se vêem de mãos dadas e raramente de velhas a quem se dá a mão. Olhai para a rua e contai-as, vereis que nem toda a estatística remete para enunciados invisíveis.

Arno Rafael Minkkinen


Nude Descending a Staircase. 2005.

o interruptor

Hoje vi a velha corcunda a atravessar na passadeira. Há, em toda a parte do mundo, uma velhota corcunda de casaco cinzento comprido a atravessar, sozinha, os carreiros, as ruas, as avenidas e os quelhos; há, em toda a parte do mundo, uma só pessoa que vê a velha corcunda a atravessar para o outro lado, a vazar dificilmente as garrafas nos vidrões, a parar em câmara lenta à frente do escaparate de um quiosque, fingindo que lê as gordas apenas para verdadeiramente repousar ou apenas para a verdadeira mente repousar. Através do olhar perdido de Julie, Kiéslowski olhou-a e não a viu; já através dos olhos ternos de Valentine, Kiéslowski deita a mão à velha como quem procura redimir a culpa do pior dos cegos: eu, tu, ele ou ela; nós, vós, eles ou elas, deliberadamente rendidos ao interruptor da indiferença. Vejo-a daqui, do sétimo andar com vista para o Hotel Lutécia. Se aqui estivesse, de certeza que a Fátima Rolo Duarte também a veria, todavia, nenhuma de nós teria a coragem de saltar do sétimo andar para cima da velha corcunda, de maneira a que mais pessoas olhassem e vissem o espantoso acontecimento de uma pobre velha esmagada no meio da rua por uma louca que, a ela e aos outros, quis redimir dos mecanismos ferozes da sobrevivência.

2.12.09

excesso

Não ames mais do que julgas poder amar, olha os teus intestinos, a quebra da tensão baixa, o dilúvio das mãos, a certeza excessiva de estares viva. Não ames mais do que julgas poder amar, pequena, olha a conta bancária, o salto das refeições, a indómita gastrite. É excessivo chorares só porque a máquina abastracta das japoneiras as põe em flor todos os invernos. É excessivo chorares só porque a máquina metabólica da tua existência te põe em flor em cada outono e quase ninguém repara. Não te excedas, minha pequena de nariz afilado e lábios finos, olha os intestinos do mundo, um planeta sem tesão, o dilúvio para uma arca onde não cabes por ser demais, por ser excessivo o dilúvio, desmedida a liquefacção das tuas duas mãos no abstracto levadas às coisas impossíveis de um só mundo.