28.4.10

like a virgin


«Eram especialmente os homens de meia-idade que se passavam connosco, com aquela mistura de meias de borracha, Doc Martens e vai-te-foder-masturbador-tás-a-olhar-pra-onde? Eles não sabiam se estávamos a chegar ou já de saída.»
[O'BRIAN, Lucy, 2008, Madonna. Como um ícone. A biografia definitiva., Trad. Francisco da Silva Pereira, p.39]

27.4.10

a new dawn [dedicado]


Oh freedom is mine
And I know how I feel

[Para allen]

26.4.10

?

Cada relação amorosa, quando termina, deixa no ar não um ponto final, mas o lugar vago a ser ocupado por um indefinível ponto de interrogação, assim como na política no que diz respeito a ministros sem contornos tais como o actual do «Ensino Superior». Há lá coisa mais cansativa e inútil do que estar vez após outra em compromisso com fantasmas.

linhas de fronteira


Estudo para casos de fronteira a todos os níveis.

25.4.10

o gosto

(...) o gosto é apenas um modo de sair de um sítio para chegar a outro, provavelmente muito melhor porque mais perto daquilo que nos serve de casa num dado momento (vamos mudando).

Daniel. No Rulote.

20.4.10

sedução



Acabo de ver o significado da palavra «impostor» no dicionário Priberam.
Adj. s.m. Que ou aquele que diz ou faz imposturas. Embusteiro, mentiroso, trepaceiro. Que ou aquele que não demonstra os seus sentimentos. Falso, fingido, hipócrita. Que ou aquele que se acha superior. Convencido, vaidoso. Que ou aquele que se faz passar por outro. Charlatão. Que ou aquele que propaga falsas doutrinas.
As palavras que algumas pessoas vão desencantar só para não nos chamarem sedutores.

[Imagem
: Ed Harris e Jennifer Connely, ambos sagitarianos.]

apropriado

... Dois meses, mas quem diz dois pode até dizer um ou quatro, será o tempo ideal para aproveitar o máximo do tesão e o mínimo da complicação. A partir desse período, tudo tende a tornar-se cada vez mais «inversamente proporcional». Há, contudo, quem diga que a paixão vem com a complicação; que andam ambas de mãos dadas e sem uma a outra não existe. Nas noveletas barrocas e no Romantismo Francês talvez, mas eu pessoalmente não acredito. Pelo menos até prova em contrário.

Pedro Duarte Bento. «la mort du roman». Vontade Indómita.

«eleja-se um novo povo»

As novelas são uma facécia do piorio, o mau Cristo dos milénios. Se, por um lado, fazem o povo crer nas suas pessoas boas, por outro ajudam o povo à remissão dos seus pecados cometidos por simplória maldade. Todavia, o que o povo por cegueira natural ou provocada não percebeu ainda, tanto quanto não entenderá nunca, é que as pessoas boas das novelas não são tão boas quanto as pessoas boas em quem o povo desacredita na sua vidinha novelista; já as pessoas más das novelas são sempre melhores do que as pessoas más extrínsecas às mesmas. Só há uma conclusão a extrair destas brevíssimas notas: o povo acredita no que não acredita; o povo é ignorante, feio e mau. Ao contrário de Tomé, o povo jamais terá a coragem de tocar nas suas próprias feridas, pelo que o povo também é cobarde e putrefacto. O povo não merece uma ditadura, o povo é o seu próprio ditador.

18.4.10

alter-ego

17.4.10

protótipos

Não sou protótipo de uma mulher fisicamente bonita. Primeiro, porque desconheço o significado da palavra protótipo e é feio falar sobre algo que desconhecemos. Segundo, porque toda a palavra usada sem que a conheçamos, soa a um fato Antonio Marras no corpo de um serralheiro de unhas sujas. Ademais, não sou protótipo de coisa alguma, mas distingo claramente um quer e pode de um quer e não pode, e só isto faz de mim, pelo mais, uma mulher honesta e, por isso desde logo, mentemente bela.

desafio

Um dos maiores desafios da minha vida passa por aprender a indiferença; a indiferença face a determinadas diferenças e a indiferença face à indiferença sobre a diferença que consiste em ser-se diferente face a determinadas diferenças.

absolutamente

O meu maior problema passa pela asfixia que sinto quando sou obrigada a ter de lidar com pessoas fáceis, prováveis, acessíveis. As pessoas fáceis são aquelas pessoas que fazem perguntas fáceis e não compreendem o silêncio de quem se recusa a responder a perguntas fáceis, prováveis ou acessíveis. Por exemplo, nunca fui capaz de ser uma aluna brilhante de professores minimamente prováveis e apenas por pudor também nunca me soube defender deles. Seria tão ou mais capaz de dizer a um professor idiota que ele é absolutamente idiota como sou capaz de dizer a um maneta das duas mãos que ele tem a braguilha aberta.

doentes mentais

Existem muitas espécies de pessoas, incluindo as pessoas que se acham pessoas, mas não são realmente pessoas nem animais, são amêijoas fechadas; e também existem aquelas pessoas que se metem em consultórios de psiquiatria, porque não é fácil, caramba, nem sempre é fácil lidar com os doentes mentais que as circundam. É por isto que vos digo: quando se tem um cérebro, mas não é possível ser um doente mental, o melhor é aprender a lidar com os doentes mentais; é para isto que o valente do meu psiquiatra me tem servido.

morphine


Um fármaco narcótico do grupo dos opióides, que é usado no tratamento sintomático da dor.

7.4.10

comment dire

Os blogues intimistas tendem a desaparecer. Um blogue intimista escreve-se para dentro; ensimesmado ou em si mesmo, por pudor disfarça um sentimento que deveras sente e diz-se neutro, e diz-se sem partido, e diz-se sem clube, e diz-se sem religião, sem sexo, sem cor. Escreve-se para dentro como outrora eu via a dona Otília a passar o chão da sala de leitura; uma empregada a dias fala com o pensamento, na maioria dos blogues pensa-se mais com as palavras do que se fala com o pensamento. Blogues assumidamente íntimos estão a ficar ainda mais sozinhos, escrevem-se com uma vassoura e limpam-se com um pano do pó, como outrora eu via a dona Otília a passar o chão a pano e a limpar a minha secretária como se a minha secretária fosse um altar. Ainda que pessoal, o blogue de poesia não chega a ser íntimo, demasiado polido para ser íntimo; interessa-me cada vez menos o blogue poético, e muito menos aquele que atira pedras de esferovite aos governadores. Entristecem-me os copistas que assumem uma alegria que deveras não sentem, e muito mais me angustiam aqueles que falam da tristeza como se esta se comprasse no corte inglês para ser oferecida na blogosfera. Estes copistas não entenderam ainda que a tristeza se compra cara no mini-preço de eiras. Uma tristeza sem quantidade, sem qualidade, murcha, encovada, cansada e operária, e ainda assim muito cara para um porta-moedas limpo, mas gasto. Os blogues intimistas tendem a desaparecer; limpos, mas gastos, encontram-se amiúde no mini-preço de eiras, onde a vida se compra cara e ninguém a quer, nem dada.

1.4.10

abril

o lugar que guardamos ferozes

Quando entardece mais cedo e a luz nos quartos fica dourada durante as trovoadas, quando a terra fica molhada e a cheirar a musgo. Quando se atravessa a cidade ou o país para ir ver o teu eterno descanso, e o teu, e o teu. Quando o silêncio responde aos silêncios e os braços ficam quebrados da força velha. Quando já ficámos velhos de saber das palavras gastas e proibidas na nova poesia portuguesa, pérola, alabastro, barco por partir, seios, madrugada. Quando acordamos do sono vigil com o aceno das giestas e do milho ao vento e ainda sorrimos aos sorrisos que ficaram a dançar parados num lugar que guardamos ferozes.

Mário Rui
Palâtre. 5/Out./2010