Os blogues intimistas tendem a desaparecer. Um blogue intimista escreve-se para dentro; ensimesmado ou em si mesmo, por pudor disfarça um sentimento que deveras sente e diz-se neutro, e diz-se sem partido, e diz-se sem clube, e diz-se sem religião, sem sexo, sem cor. Escreve-se para dentro como outrora eu via a dona Otília a passar o chão da sala de leitura; uma empregada a dias fala com o pensamento, na maioria dos blogues pensa-se mais com as palavras do que se fala com o pensamento. Blogues assumidamente íntimos estão a ficar ainda mais sozinhos, escrevem-se com uma vassoura e limpam-se com um pano do pó, como outrora eu via a dona Otília a passar o chão a pano e a limpar a minha secretária como se a minha secretária fosse um altar. Ainda que pessoal, o blogue de poesia não chega a ser íntimo, demasiado polido para ser íntimo; interessa-me cada vez menos o blogue poético, e muito menos aquele que atira pedras de esferovite aos governadores. Entristecem-me os copistas que assumem uma alegria que deveras não sentem, e muito mais me angustiam aqueles que falam da tristeza como se esta se comprasse no corte inglês para ser oferecida na blogosfera. Estes copistas não entenderam ainda que a tristeza se compra cara no mini-preço de eiras. Uma tristeza sem quantidade, sem qualidade, murcha, encovada, cansada e operária, e ainda assim muito cara para um porta-moedas limpo, mas gasto. Os blogues intimistas tendem a desaparecer; limpos, mas gastos, encontram-se amiúde no mini-preço de eiras, onde a vida se compra cara e ninguém a quer, nem dada.