20.5.08
plágio [2]
16.5.08
plágio
As peixeiras
Mamas no cume e
A voz regateira
Das peixeiras
Libra ao peito
Viúvas
Mãos velhas e
Magoadas
Das peixeiras
E de certeza que
Não se fodem
Por truta-e-meia
14.5.08
recordar clearasil
26 de julho de 2008, em Lisboa Calling, no Pavilhão Atlântico. Se não gostas, não ponhas na borda do prato; «come mais, para aprenderes a gostar».
no meu funeral
- ?
- A morte é um bocado puta, não é?
- É, é, um bocado puta.
- …
- ?
- ?
- A que bocado te refer…?
- À vida.
- Pois. É a vida.
- ?
- Outro.
- (suspiro)
- Também.
- ?
- ?
- A vida é só uma barraca. Somos inquilinos da morte…
- As gerbérias nunca cheiraram muito bem.
- Não tenho nada meu...
- Os Stranglers vão cá estar em julho, já sabias?
- Foda-se, a sério?
- Tão sério como a fuça do morto.
- Telefona-me, depressa.
- Ala! Finge que choras enquanto marco o número.
- Depois desmaias.
- Para cima das gerbérias.
- Perfeito.
- Ala!
[10ª palavra]
desodorizante de melancia

Eu tenho um problema
Psiquiátrico
Eu não agradeço a deus o meu problema
Psiquiátrico
Qual quê, eu exijo a deus que aperfeiçoe o meu problema
Psiquiátrico
Visto-me todos os dias igual
A todas as pessoas da rua
E das casas
E das cabinas telefónicas
E das paragens do autocarro
E das que vão dentro dos necrotérios
Sabe-se lá até onde
Vão de barco?
De comboio?
Algumas delas
Do raio que as parta
Ah, sim, vão do raio que as parta a quatro
Para não parecer que tenho um problema
Psiquiátrico
Lá me calço as meias da mesma cor
A roupa e a máscara asseada do cotio
Que da ópera à operária
Da gala ao cotio em portugal vale o mesmo
Não há nem haverá quem vá ao campo de batalha
E nele se defenda atrás da Callas ou de Maria Deolinda a casada
Que dá a cola numa fábrica de felgueiras
E apanha porrada de levar todos os dias
Do marido asseado com a máscara do cotio
Igual à minha que eu visto todos os dias
Para não parecer que tenho um problema
Psiquiátrico
Igual ao dos casados de papel passado que
Por amor na saúde e na doença
Pelo menos de Caselas ao Santa Maria
Sem passar pela avenida da liberdade
Todos os dias me visto igual
A uma vida que dura de Caselas ao Santa Maria
E vira ao retorno dá no mesmo
Apanhas o 32 e fazes a realidade em pouco mais de
Uma hora
A ser física, a realidade faz-se em pouco mais de uma hora
E é igual tem de ser igual
À realidade dos sentidos das outras máscaras
Iguais às outras máscaras
Porque as máscaras têm de ser iguais a todas as máscaras
Mesmo que por força não sendo têm de parecer
Ah, mas hoje comprei um desodorizante
Que cheira a melancia
Alguma coisa há-de ter mudado ou há-de voltar a mudar
Que ser não querer ser igual a toda a gente
E não poder ser outra coisa
Quando não sou nem igual às pessoas
De cá de dentro todas de mim mesma
É a outra face do mesmo problema
Psiquiátrico
Então, deus, exijo-te
Aperfeiçoa o meu problema psiquiátrico
Ou então diz-me, por amor à madre santa
Que não existe no mundo outro igual ao meu
Desodorizante de melancia
13.5.08
le 13 mai 68-08
12.5.08
she floats

uma coisa ou a outra
2.5.08
aos amantes (ir)regulares (especialmente para vós os dois)
não se morra apenas em Veneza
28.4.08
nada
23.4.08
vês claramente o que não vês

love theme
- Mete um bocado.
- Um bocadão, eu acho que mete um bocadão de medo.
- Um bocadão de medo.
- E aquela parte, lembras-te daquela parte?
- Essa é que mete medo.
- Até tremo, só de pensar.
- Não penses, mete mais medo.
- Ainda mais, tens razão.
- Um bocadão de medo.
- Um bocadão de medo.
- (silêncio)
- (silêncio)
- Um bocadinho de solidão?
- Pode ser, obrigada.
- (silêncio)
- (silêncio)
caldo no lume
a presença que une é estar ausentes

[Imagem: Pam Mendelsohn. Closing Day at B. Altman's Department Store. New York, 1990]
sobre o direito à morte
21.4.08
azul russo
19.4.08
17.4.08
señoritas
Disse-lhe que portugal ainda tinha muitos comunistas
Mas o que ele queria saber era onde havia señoritas
Que o levassem a dar uma volta.
a língua é uma aura [2]
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
a língua é uma aura

16.4.08
emprego de um novo hí-fen [traço de desunião]
emprego de pontuação
quando emprega acentos ou tira o chapeuzinho ao NAO*
No entanto, as pessoas que vivem em casas com telhados de duas águas poderão escolher o uso do acento circunflexo nas seguintes palavras: para casa de duas águas passará a escrever apenas câsa; para espigueiro, espiguêiro; para barraca de duas águas, barrâca; para cortelho de duas águas, cortêlho; para meu pai ou minha mãe, mê pai e nhâ mãe (excepto se pai ou mãe ausentes; residentes, por tabela, em telhado incerto) e, por fim, para etc., et-caêtera. Todas as pessoas deverão estar de contínuo munidas de escrituras de propriedade, arrendamento, comprovativo da segurança social (assim como vivem em cortêlho) ou probatório do registo civil - aos católicos serve escritura paroquial - (assim como são filhas de pai ou mãe ausentes).
um olho no acordo ortográfico
novo-velho acordo ortográfico
metadeus
15.4.08
classificados
durante duas horas
leio Tolstoi
e de seguida
vou ver a novela da tvi
para depois
me deitar na cama e então fazer o amor
com uma mulher de olhos cansados
e de boca muito rija
que me lembre um homem levantado
e até nem sou muito esquisita
com uma mulher de olhos cansados
vou ver a novela da tvi
e de boca muito rija
leio tolstoi
para depois
e de seguida
me deitar na cama e então fazer o amor
que me lembre um homem levantado
durante outras horas
duas rezas pelo meio
uma avé maria cheia de tédio
e um pai nosso que estais no breu
da novela da tvi
que tolstoi que me lembre nunca leu
nem de boca rija nem muito levantado
com a mulher de olhos cansados
que gosta de tudo um pouco
eu só quero ser eu

o non-sens

14.4.08
no país do messenger
grande entrevista
- Uma otite blogosférica, pois claro que sim, há uma otite blogosférica.
- ?
- Como disse? (sacudindo os ouvidos)
- Tite-tite-tite-tite-tite...
- O Sr. é um estouvado, quanta elite. Ah! Ah! Ah! aaah (sentindo o alívio depois da gargalhada) Olhe, gostei da entrevista, gostei muito da entrevista, nunca me fizeram uma entrevista assim; encaixe, com uma só pergunta, ainda por cima a última pergunta; bastante entendimento; óptima interlocução. Merci e não tem de quê.
amizade
Com amigos que me conhecem e gostam, e por isso tão honestos, enfim, sou uma mulher cheia de sorte; pensando bem, não serei uma namorada assim tanto um bocadinho puta. Pensando melhor, gaja de mérito nas margens.
publicidade

eu hei-de casar com deus
aura
eu acho que o gato da vizinha é deus e
quando penso nisto fico um bocado
lixada
Não porque o gato da vizinha seja
deus
ou porque o gato da vizinha veja a minha
aura
Eu fico lixada porque tenho uma aura
que só é vista por um gato que é
deus
nem eu mesma consigo ver a minha
aura
mas consigo ver que o gato da vizinha
é capaz de ver a minha aura
Fico lixada porque tenho uma aura
e prometi a deus que casaria com
o primeiro ou primeira
que olhasse para mim e claramente visse
como eu nunca me vi
Agora tenho de casar com deus
que por acaso tem dona
estou quilhada
deus é o gato da minha vizinha
[8ª palavra]
estrofe regabofe
nunca falto às aulas de esgrima
e todos os dias agradeço a deus
esta depressão que me anima
Maria Rodrigues Teixeira para A Naifa.
11.4.08
gadelhudo e com esta idade
10.4.08
«esta máquina mata fascistas»
Fora de grupo ou dentro de grupo, uma causa não impõe, invariavelmente, o «sentido único» de que fala Pedro Mexia. A certa altura, em entrevista, Todd Haynes revela a única coisa que Jeff Rosen (manager) lhe pediu, da parte de Dylan: que não insistisse muito no tema das drogas. Quando li esta entrevista, lembrei-me de Woody Guthrie; um filme sobre Bob Dylan sem alguma insistência na bolota seria um filme sobre lucidez excessiva de um homem que arriba aos sítios e nos sítios, sem proveito nem glória, se faz à dor. Poderia ser, então, um filme sobre Woody Gutherie; errático, vagamundo, alguém que, não tendo montado escola, ofereceu a liberdade da pergunta e o gozo particular de haver possibilidades em qualquer uma das respostas. Nisto há uma causa, há sempre uma causa. Ser génio de conhecimento é uma condição, ainda que perversa, instituidora da causa ou de causas. Se é que há uma consciência de génio (como defende Mexia acerca de Bob), se é que a consciência não cede aos efeitos de quaisquer mecanismos alucinatórios (drogas químicas e sociais), então haverá sempre a causa combatível, um recorte de sobrolho que denuncia um espírito inquieto e reivindicativo, um espírito que transporta, na pluralidade do caminho, uma responsabilidade pessoal, essa sim, única na acepção auto-figurativa, transmissível na atitude (exemplo) conferida à sua representação (imagem).
Conheço bem mal Bob Dylan ou, para dizer honestamente, não o conheço. Pedro Mexia também não conhece Bob Dylan. Scorsese mostra bem o misunderstanding, ou seja, também conhece bem mal o Bob Dylan. Bob Dylan conhecerá Bob Dylan? - (pergunta mais escusada) - Digo, sobre Bob Dylan, que me faz lembrar um ex-namorado meu que, não sendo transsexual, às vezes, no lugar do pénis, dava à cena amorosa uma vagina ou, dito do mesmo modo, um pénis feminino. Eu compreendia a beleza da cena e não questionava a última privacidade do corpo, daquele corpo. Bob Dylan também me faz lembrar um outro ex-namorado meu, um que fumava bolotas, despejava na goela garrafas de tinto maduro a torto e a direito, tocava umas guitarradas e ouvia a Joplin em modo repeat, com tudo isso se achando uma espécie de salvador do mundo, um ícone da não-ideia lançada à terra do não-lugar. Se eu não questionava o poder intimista do primeiro namorado, não duvidava, no entanto, da fragilidade pública do segundo. Bob Dylan foi, se o não é ainda, um drogado fácil que é um homem frágil e, por isso, um homem espantosamente difícil; uma life story composta por atributos de intimidade que não me interessam, porque não me dizem respeito; um cantautor de uma ou várias causas que eu gostaria, isto sim, de ver assumidas no fio das evidências alucinatórias (aquilo que realmente acontece), assumidas quer por ele, Dylan, quer por aqueles que dizem conhecê-lo bem (mal). De outro modo, sem causas a história fica entregue apenas à droga, e um drogado, como todos devem imaginar, não está para se matar com ideias; quando muito -- por saber que as tem e a medo do excesso de lucidez (consciência) -- conforme se mata, a si se convence de que apenas a obra que cria o poderá salvar (para não falar de conversões ao cristianismo). Essencialmente, ponho sem dúvida: Bob - figurando o artista e o homem - duvida tanto de si mesmo como duvida do mundo (inconsciência), mal de natureza a que ninguém escapa. E bem vistas as coisas, tanto é possível gostar de uma identidade que se não arruma (BD), como de uma outra que, na causa visível da especificidade de vários tempos (nitidamente duros), não encerra a identificação permanente(WG).
Dito isto, fora de grupo ou dentro de grupo, uma causa não impõe, invariavelmente, um «sentido único», muito menos se tomarmos em consideração a(s) causa(s) movida(s) contra o «sentido único» (ora impregnado de comprometimento histórico - caso de WG - ora impregnado de vazio de sentido (niilismo) - caso de BD? Isto é uma pergunta. Enquanto o Bob canta o seu próprio tempo (pós-guerra)
People are crazy and times are strange, I'm locked in tight, I'm out of range, I used to care, but things have changed,
alguém que me esclareça, que eu não sei nada.
[No vídeo, Woody Guthrie. So long it's been good to know you.]
9.4.08
bater a primeira linha [18]

[A soundtrack da primeira linha. Yumeji's Theme.Da fita Disponível para amar.]
8.4.08
A Man of No Fortune and with a Name to Come
nada total
7.4.08
história da história do teatro
não vais lá pela fonética, mas sim pela coisa
para o caminho

debaixo da matemática, a praia
The day with its cares and perplexities is ended and the night is now upon us. The night should be a time of peace and tranquility, a time to relax and be calm. We have need of a soothing story to banish the disturbing thoughts of the day, to set at rest our troubled minds, and put at ease our ruffled spirits.
And what sort of story shall we hear? Ah, it will be a familiar story, a story that is so very, very old, and yet it is so new. It is the old, old story of love.
Two lovers sat on a park bench, with their bodies touching each other, holding hands in the moonlight.
There was silence between them. So profound was their love for each other, they needed no words to express it. And so they sat in silence, on a park bench, with their bodies touching, holding hands in the moonlight.
Finally she spoke. “Do you love me, John?” she asked. “You know I love you, darling,” he replied. “I love you more than tongue can tell. You are the light of my life, my sun, moon and stars. You are my everything. Without you I have no reason for being.”
Again there was silence as the two lovers sat on a park bench, their bodies touching, holding hands in the moonlight. Once more she spoke. “How much do you love me, John?” she asked. He answered: “How much do I love you? Count the stars in the sky. Measure the waters of the oceans with a teaspoon. Number the grains of sand on the sea shore. Impossible, you say.”
“Yes and it is just as impossible for me to say how much I love you.”
“My love for you is higher than the heavens, deeper than Hades, and broader than the earth. It has no limits, no bounds. Everything must have an ending except my love for you.”
There was more of silence as the two lovers sat on a park bench with their bodies touching, holding hands in the moonlight.
Once more her voice was heard. “Kiss me, John,” she implored. And leaning over, he pressed his lips warmly to hers in fervent osculation.
Música: Excerto da ópera de Philip Glass & Robert Wilson. Einstein on the Beach.
Texto (completo): Samuel M. Johnson: Lovers on a Park Bench.
escrever o tempo ou o tempo da escrita
efeitos do aniquilamento ou, entre o menos, pelo menos
expressão: representação animada de sentimentos
«particular absoluto»
a fronteira da passagem

excepto quando te digo que
sou uma fraude
aí não sou uma fraude
mas também não sou uma verdade
sou talvez
entre tudo e nada
da ficção à realidade
ou da realidade à ficção
a fronteira da passagem
e isto
poema
nem uma
palavra
nem a
pontuação -
de tão fácil sentido
poderia, até, ter sido escrito
por mim
que não é uma fraude
mas também
não é nenhuma verdade








