20.5.08

(in)diferença

A verdadeira prova de que não somos indiferentes às pessoas que não gostam de nós e que tentam, debalde, aventar indiferença à nossa indiferença, reside na falta de subtileza – tendencialmente ridícula - que essas mesmas pessoas demonstram quando atacam com desprezo os criadores da nossa estima. Esquecem que a indiferença é uma criação talentosa, tão talentosa como os criadores – escritores, arquitectos e tantos outros – por quem a nossa enorme e irrepreensível estima se esforça, mas que, no envolvimento precoce que em geral antecipa a ignorância, tão-pouco os merece.

plágio [2]

A notícia do plágio a' O Regabofe igualmente me vexa. Tanta fraude defraudada. Ou deverei dizer, tanto freud defreudado? Também na blogosfera; que vergonha. Hoje, por exemplo, até me rebentou herpes nos lábios da boca e outros melindres nas partes da consciência, palavra de honra. A minha avó, diante do mar, soía dizer: Tanta água, o poder de Deus é grande. Não atinjo o significado destas palavras - que assim perfeitamente poderiam ter sido escritas com pena de ganso sobre pergaminho por um filósofo muito importante do tempo da maria cachucha ou do arroz de quinze -, certo é que rolam no pé da página virtuosa da minha consciência, não indiferentes, na acepção múltipla da bagatela a que diariamente nos destinamos, ao enorme poder da sucção.

16.5.08

plágio

Obrigada, querida Citrina; por essas e outras, não faço tenções de ter filhos. Já me basta saber que Proust copiou sete anos inteirinhos da minha infância. Sim, acabemos com o plágio, aliás, no estado actual igual das coisas todas, ponhamos fim à humanidade; menos a das peixeiras, Fortes e marinheiras
As peixeiras
Mamas no cume e
A voz regateira
Das peixeiras

Libra ao peito
Viúvas
Mãos velhas e
Magoadas
Das peixeiras
E de certeza que
Não se fodem
Por truta-e-meia
[Ainda de salientar, a este respeito, que a woody passa o blogue a plagiar-me. É uma turina da melhor casta.]

14.5.08

os governantes elegem o povo e não o contrário

Ana da allen, não provoques o Brecht que há em mim.

recordar clearasil

26 de julho de 2008, em Lisboa Calling, no Pavilhão Atlântico. Se não gostas, não ponhas na borda do prato; «come mais, para aprenderes a gostar».

no meu funeral

- ?
- ?
- A morte é um bocado puta, não é?
- É, é, um bocado puta.
- …
- ?
- ?
- A que bocado te refer…?
- À vida.
- Pois. É a vida.
- ?
- Outro.
- (suspiro)
- Também.
- ?
- ?
- A vida é só uma barraca. Somos inquilinos da morte…
- As gerbérias nunca cheiraram muito bem.
- Não tenho nada meu...
- Os Stranglers vão cá estar em julho, já sabias?
- Foda-se, a sério?
- Tão sério como a fuça do morto.
- Telefona-me, depressa.
- Ala! Finge que choras enquanto marco o número.
- Depois desmaias.
- Para cima das gerbérias.
- Perfeito.
- Ala!


[10ª palavra]

desodorizante de melancia


Aquela mulher agradece a deus a depressão que a anima
Eu tenho um problema
Psiquiátrico
Eu não agradeço a deus o meu problema
Psiquiátrico
Qual quê, eu exijo a deus que aperfeiçoe o meu problema
Psiquiátrico

Visto-me todos os dias igual
A todas as pessoas da rua
E das casas
E das cabinas telefónicas
E das paragens do autocarro
E das que vão dentro dos necrotérios
Sabe-se lá até onde
Vão de barco?
De comboio?
Algumas delas
Do raio que as parta
Ah, sim, vão do raio que as parta a quatro

Para não parecer que tenho um problema
Psiquiátrico
Lá me calço as meias da mesma cor
A roupa e a máscara asseada do cotio
Que da ópera à operária
Da gala ao cotio em portugal vale o mesmo
Não há nem haverá quem vá ao campo de batalha
E nele se defenda atrás da Callas ou de Maria Deolinda a casada
Que dá a cola numa fábrica de felgueiras
E apanha porrada de levar todos os dias
Do marido asseado com a máscara do cotio
Igual à minha que eu visto todos os dias
Para não parecer que tenho um problema
Psiquiátrico
Igual ao dos casados de papel passado que
Por amor na saúde e na doença
Pelo menos de Caselas ao Santa Maria
Sem passar pela avenida da liberdade
Não sabem que também têm um problema
Psiquiátrico

Todos os dias me visto igual
A uma vida que dura de Caselas ao Santa Maria
E vira ao retorno dá no mesmo
Apanhas o 32 e fazes a realidade em pouco mais de
Uma hora
A ser física, a realidade faz-se em pouco mais de uma hora
E é igual tem de ser igual
À realidade dos sentidos das outras máscaras
Iguais às outras máscaras
Porque as máscaras têm de ser iguais a todas as máscaras
Mesmo que por força não sendo têm de parecer
Isto só pode ser um problema psiquiátrico

Ah, mas hoje comprei um desodorizante
Que cheira a melancia
Alguma coisa há-de ter mudado ou há-de voltar a mudar
Que ser não querer ser igual a toda a gente
E não poder ser outra coisa
Quando não sou nem igual às pessoas
De cá de dentro todas de mim mesma
É a outra face do mesmo problema
Psiquiátrico

Então, deus, exijo-te
Aperfeiçoa o meu problema psiquiátrico
Ou então diz-me, por amor à madre santa
Que não existe no mundo outro igual ao meu
Desodorizante de melancia

[Imagem: Gilbert Garcin. Vivre masqué.]

13.5.08

le 13 mai 68-08

Les principaux syndicats appelent à une grève générale et à une manifestation pour le 13 mai. La participation est spectaculaire ce jour-là. Même la préfecture de police concède le chiffre de 200.000 personnes; les organisateures, eux, en revendiquent un million.
Os 200.000 concernem à média de peregrinos reunida no santuário de Fátima, Portugal. Hoje e sempre, ámen.

12.5.08

she floats



Não acreditas na realização eficaz da advertência, não destacas os efeitos imediatos da percepção, deixas que o espaço perca manifestação para o tempo, lutas por um insulto – puta – que perca manifestação para a dicção. Se te disserem cheiras a puta é porque cheiras bem. Ouve apenas o domínio da dicção bela, acredita que o mundo estará para o domínio da dicção bela; seja ele qual for, propugna sempre o momento próprio: cheira a puta, nunca sejas puta. És fragmento, mas contanto que deixes flutuar o excerto de corpo ausente, és total.
[Imagem: Pam Mendelsohn. Bridgit floats.]

uma coisa ou a outra

Ou eu não sou feito para Veneza, ou Veneza não é feita para mim, ou uma coisa ou a outra. Nesta ambiguidade, veio em meu socorro um forte desprazer que me deu o impulso de que precisava. Decidi deixar a minha pátria como quem deixa uma casa de que se gosta mas onde é preciso tolerar um mau vizinho que nos incomoda e que não podemos mandar desalojar. Estou em Dux, onde, para estar de bem com todos os meus vizinhos, basta que não pense em conjunto com eles, e nada é mais fácil do que isso.
[Giacomo Casanova. História da minha fuga das prisões da república de Veneza, a que chamam os chumbos, escrita em dux, na boémia, no ano de 1787. Trad. José Miranda Justo.]
O'Regabofe está de volta; uma coisa ou a outra, nós assim-assim.

2.5.08

intervalo


Vamos dar folgas a'O Regabofe até ao dia 9 de Maio.

aos amantes (ir)regulares (especialmente para vós os dois)

Dito isto, quanto mais não seja, poderá, isso sim, dizer-se - como pluricontextualmente até aqui se entende e, deste modo, parece evidente - que pela mesma razão não se pode dizer que, dito de outro modo, no vosso contexto, outra face do mesmo problema, por sua vez, e se quisermos reverter à precisão, com efeito, mais clara ainda, mas em todo o caso também pluricontextual, não decorra, na verdade, da mesma face de outro problema. Dir-se-ia que tudo acontece na temporalidade que está. Entre o céu e o chão, dão-se quecas e maravilhamentos, e ninguém escapa à ordem do apodrecimento. Dir-se-ia que tudo acontece na espacialidade que está. Quem sabe, não será bem assim. Pelo sim pelo não, nunca se sabe.

não se morra apenas em Veneza

A minha amiga C., se tanto, terá 35 anos. Esta tarde parou o carro para me dizer que vai ser operada no dia 14 de Maio. Histerectomia total, Mastectomia total. Reza a Nossa Senhora de Fátima, por favor. A caminho do trabalho, vejo peregrinos mancos de colete reflector e bordão. Reza por mim a Nossa Senhora de Fátima, por favor. Que estertor na minha cabeça, meu leitor indiferente. Este post não é o princípio de uma crónica do António Lobo Antunes, não faz as vezes de uma notícia de jornal ou de um show de opinativos. Não há por onde chorar. Como as favas, a ideia deste post vale o que vale o corpo de uma pessoa dentro da própria vagem. O tempo debanga os Homens, depois cada um apodrece de diferentes maneiras. Tinha um bilhão de coisas para fazer, esta noite. Um bilhão de páginas para ler, assuntos de conhecimento, grandes interesses, os meus grandes interesses. Não sei como se reza a Nossa Senhora de Fátima. A C., tão bonita, dá garantia à luta; despediu-se, foi embora sem atropelar um único peregrino. Não sei o que é a puta da beleza; imagino que, por um fio, possa matar tanto como um cancro, a puta da beleza. Não sei rezar a Nossa Senhora de Fátima, a menos que ela se atrase um dia, irrompa ao mundo inteiro no dia 14, cadavérica, sem cabelo, sem mamas, sem útero, sem ovários, cheia, repleta de cancro, e que o mundo inteiro, de tanto a achar bela e vitoriosa, morra aos seus pés.

utopia 68

Enquanto homens e mulheres continuam a fracassar, o mês resiste.

28.4.08

nada

O óbvio. O óbvio continua a ser o mais difícil. O que é a coisa óbvia? A coisa óbvia deveria ser aquela que precisa de mais palavras para ser explicada. Nada é óbvio. Nada é a coisa mais óbvia entre todas as coisas. Nada não chega a ser uma única palavra; a própria palavra - nada - é a única prova, a prova mais visível, da esquizofrenia humana. A única palavra que nunca foi, sequer, palavra. Nada é, entre tudo, a coisa não contaminada. É a doença maravilhosa. A coisa que precisa de mais palavras para voltar a ser o que nunca foi. Entre tudo, o mais difícil.

23.4.08

vês claramente o que não vês


Não, eu não quero parecer inteligente, porque não sou inteligente. Não posso querer parecer algo que não sou, mas posso querer ser algo que ainda só pareço ser. A luta da minha vida passa por conseguir provar sem dúvidas que sou invisível. A luta da minha vida passa por não trair o que sou, todavia, ao contrário da canção do Pasternak, mostrar claramente as marcas dos meus passos nas águas do anonimato. Chegar à tal definição de invisibilidade, para que todos, sem esforço ou excepção, sejam capazes de me ver. Isto é, ser. Isto é ser.
[Imagem: Arno Rafael Minkkinen. Self-portrait. Fosters Pond. 1989]

love theme [2]



love theme

- Mete medo, não mete?
- Mete um bocado.
- Um bocadão, eu acho que mete um bocadão de medo.
- Um bocadão de medo.
- E aquela parte, lembras-te daquela parte?
- Essa é que mete medo.
- Até tremo, só de pensar.
- Não penses, mete mais medo.
- Ainda mais, tens razão.
- Um bocadão de medo.
- Um bocadão de medo.
- (silêncio)
- (silêncio)
- Um bocadinho de solidão?
- Pode ser, obrigada.
- (silêncio)
- (silêncio)

caldo no lume

Comecei a ler Proust quando entrevi que é mais fácil desfiar galinha velha para a canja ou pelar os pimentos depois de assados, do que lidar com pessoas que parecem vivas mas que, na realidade, estão mortas. Convém esclarecer, já agora, que será sempre mais difícil (cada vez mais difícil) pelar os pimentos do que tirar um curso universitário. E esta conversa, não fosse eu ter o avental posto e a comida no lume, daria pano para mangas.

a presença que une é estar ausentes

Photobucket
Este blogue escapa à ordem da autoria, assume a berma sem contornos, fecha à hora da abertura, quando sai entra para fora, propõe o modelo do instante sem prejuízo do posterior desenvolvimento, abre à hora do fecho. Este blogue escapa à ordem da autoria, não é escrito por uma ou por duas pessoas. Em cima, na fotografia, somos aquelas duas do meio, a nossa função, aqui, não passa pela escrita, a nossa função é estar abraçadas sem braços. À nossa volta, outras expressões baseadas no paradigma do feitiço anterior. Somos todas e o espaço é o mesmo para todas, densamente desabitado. A função do manequim é esta. O manequim distancia-se de si mesmo para consentir a ficção do lugar povoado. A relação entre esse distanciamento e a ficção, está na procura da verdade. Quanto mais a procura, mais o manequim se perde de vista. Deste modo, a verdade está no abraço sem braços, é a percepção que se tem do acontecido a partir de longe. Invertendo a propensão benjaminiana [Infância em Berlim por volta de 1900. ] de «ver tudo o que lhe interessa aproximando-se de longe», a nossa função é ver tudo o que interessa afastando-nos do perto, isto é, trocando a alucinação da pequena distância pela alucinação da grande distância. Logo, a nossa função distancia o encontro para formar relação.

[Imagem: Pam Mendelsohn. Closing Day at B. Altman's Department Store. New York, 1990]
O mérito do primeiro encontro com esta foto(auto)grafia está na enorme distância, nos termos da melhor qualidade que pode exprimir a mácula, que nos une ao Manchas, de Luís Mourão. Aprende-se mais nos lugares que abrem à hora do fecho; lugares distantes. Ver mais de perto não será, pois, ler mais de perto.

sobre o direito à morte

Msn, sms, Gmail, Voipbuster, Hi5, Skype: a profusão de dispositivos de proximidade tecnológica roubou à vida social o ancestral medo do adeus. O mundo hiperreral da comunicação electrónica é o cosmos que simula a impossibilidade do nunca mais. Como? Encenando a perpétua contiguidade de existências.
Irremediavelmente enculturadas no simulacro, as novas gerações estão mais vulneráveis à perplexidade perante corpos que morrem, amores que desertam, viagens sem retorno, chamadas jamais atendidas, sms's fora de validade, contactos resolutamente offline, vazios nominais de carne. Os descobrimentos contemporâneos cortejam os limites do código. O real, afinal, ainda se reserva ao direito de algumas cartadas. As definitivas.

21.4.08

azul russo

Nessa fotografia gostavas de ti. Agora sais de casa pela porta da rua mais velha, vais às vielas ouvir o teu nome na boca das mulheres desabitadas; de boca em boca, gostas de ti aos intervalos, no corpo das mulheres desabitadas. Tenta ser a última a esquecer-se de ti, depois logo se vê; um ponto de fuga, uma luz paciente, o pigmento que determina a noite. Uma vez que já não gostas de ti, deita a cabeça do teu pensamento no gato que dobra a esquina, tenta o Azul da Rússia, não sabes de onde vens nem para onde segues, tenta qualquer coisa à excepção de tudo.

19.4.08

António Lobo Antunes


Com São Jorge, padroeiros da Ler. A 23 de Abril.

17.4.08

señoritas

Disse-lhe que portugal ainda tinha muitos comunistas
Mas o que ele queria saber era onde havia señoritas
Que o levassem a dar uma volta.

a língua é uma aura [2]

Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis.
A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros

a língua é uma aura



Ontem, enquanto aguardava na sala de espera da urgência de otorrinolaringologia que me viessem arrancar uma espinha de sardinha cravada na goela, procurei, no amontoamento de jornais e revistas, o Metro de segunda e fui directamente às Vozes:

Não sei se a língua é a minha pátria, mas é seguramente a minha infância. Aceitar mudar as regras é sempre uma violência, como se por decreto nos obrigassem a esquecer as férias de Verão. Espero, por isso, que o acordo não passe. Porém, espero também que a geração vindoura defenda as regras da língua que aprendeu, mesmo que estas sejam as do acordo que agora recuso (...) (Vasco M. Barreto) [ Metro. 14/4/2008]
Aumentei o volume da quinta de Mahler, dirigi-me às reproduções de Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros, olhei-as, fechei os olhos, alguma coisa me doeu e não era da espinha cravada na garganta; lembrei-me da menina que eu fui, da criança que aprendeu a ouvir muitas vozes da língua portuguesa e via, misteriosa e claramente vista, a aura da língua portuguesa. Por mais vezes que seja mudada de tempo e de lugar, a língua é uma aura irreiterável como a infância. Não fui uma criança especial, embora ache que só às pessoas raras é aberta a possibilidade misteriosa e solitária de ver, claramente vista, a aura da língua. Tudo o que poderá vir a ser alterado com este acordo não derivará muito do modo como escreviam os escribas portugueses medievais e sucedâneos: quase inexistência da acentuação e pontuação, hífen praticamente nem vê-lo, a mesma selecta de imbróglios de pronúncia, interpretação e pensamento continuará a ser alterada para que tudo, de cabo a rabo, fique igual. Só a infância, como uma fotografia tirada ao céu infinito, permanece imóvel acima dos limites da regra, e a língua que explica isto não carece de norma nem de mudança, ou tampouco de palavras. A língua que explica isto é uma aura que só as pessoas muito sozinhas, sem orgulho nem glória, conseguem ver e, sobretudo, ouvir. Esta língua principia na infância e só no retorno à infância de cada indivíduo ela se reveste de futuro. Não é uma língua falada, nem escrita. Invisível e muda, é uma língua que se ouve com os olhos fechados. Obrigada, Vasco.

[Imagem: Gilbert Garcin. Communiquer.]

16.4.08

referendo ao acordo ortográfico

O referendo que importa. Pelo menos desde 12 de novembro de 2006.

emprego de um novo hí-fen [traço de desunião]

As mesmas pessoas que defendem o uso arbitrário da pontuação, outrossim defendem a separação das palavras incorrectamente unidas. Para divórcio, p.e., dever-se-á escrever divór-cio. Cio, porque - Ademais, nos tempos que correm, o cio é o principal germe da separação dos casais. - Diz a dona Dilinha da freguesia de São Jorge da Várzea, concelho de portugal.
Divór, - Porque, normalmente, depois ninguém sabe o que fazer com a badalhoquice que sobra do cio. Como com as cabeças separadas do corpo, entende? Cabeças fracas, é o que é. - Remata a dona Dilinha.

emprego de pontuação

Neste particular, desconheço as normas do novo acordo, mas já há quem defenda que deveria passar a ser arbitrário, tal como acontecia na cópia medieval ou acontece em matéria de orgasmos femininos ou fidelidade masculina. Viva portugal.

quando emprega acentos ou tira o chapeuzinho ao NAO*

Nos textos escritos em língua portuguesa medieval e moderna (aproximadamente séculos XII a XVII) os acentos eram usados raramente; séculos mais tarde, o, então, emprego parcimonioso do acento não só haveria de originar falhas de pronúncia e de interpretação (tempos verbais) na leitura dos textos escritos como, também, e de modo a evitar as confusões acima e outras tantas, a necessária criação de uma nova disciplina académica: Paleografia. Paleógrafos do portugal de hoje, alegrai-vos!, já podeis viver mais duzentos anos ou mais, que o vosso trabalho é prometido durar.

No entanto, as pessoas que vivem em casas com telhados de duas águas poderão escolher o uso do acento circunflexo nas seguintes palavras: para casa de duas águas passará a escrever apenas câsa; para espigueiro, espiguêiro; para barraca de duas águas, barrâca; para cortelho de duas águas, cortêlho; para meu pai ou minha mãe, pai e nhâ mãe (excepto se pai ou mãe ausentes; residentes, por tabela, em telhado incerto) e, por fim, para etc., et-caêtera. Todas as pessoas deverão estar de contínuo munidas de escrituras de propriedade, arrendamento, comprovativo da segurança social (assim como vivem em cortêlho) ou probatório do registo civil - aos católicos serve escritura paroquial - (assim como são filhas de pai ou mãe ausentes).
*NAO [Novo Acordo Ortográfico]

um olho no acordo ortográfico

Se perder um olho em Ceuta ou num jogo de futebol entre o Barroca Funda e o São Tomé de Felgueiras - seja o esquerdo ou o direito - poderá passar a escrever, segundo o novo acordo ortográfico, vêm em vez de vêem; ah, e sem o circunflexo, claro. Se perder o mais virtuoso dos três, anime-se (diria Roland Topor), sempre não terá de o continuar a vigiar.

novo-velho acordo ortográfico

Daqui a cem e mais anos vai sobrar para os novos paleógrafos, os neo-paleógrafos.

metadeus

Parecenças com Proust: deus usa risca ao meio e ocupa muito espaço. Neste último caso, só porque é gordo.

15.4.08

classificados

gosto de tudo um pouco

durante duas horas
leio Tolstoi
e de seguida
vou ver a novela da tvi
para depois
me deitar na cama e então fazer o amor
com uma mulher de olhos cansados
e de boca muito rija
que me lembre um homem levantado

e até nem sou muito esquisita

com uma mulher de olhos cansados
vou ver a novela da tvi
e de boca muito rija
leio tolstoi
para depois
e de seguida
me deitar na cama e então fazer o amor
que me lembre um homem levantado

durante outras horas

duas rezas pelo meio
uma avé maria cheia de tédio
e um pai nosso que estais no breu
da novela da tvi
que tolstoi que me lembre nunca leu
nem de boca rija nem muito levantado
com a mulher de olhos cansados

que gosta de tudo um pouco

eu só quero ser eu


Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...
Mário de Sá-Carneiro
Para o meu amigo R. que, além de sósia de Sá-Carneiro, tal como ele também só quer ser ele.

o non-sens


Stricto sensu, o que verdadeiramente achamos é que deveria ser dedicada uma blogosfera inteira ao conceito francês acima mencionado. Non-sens, na verdade, não é a ausência de sentido, o não-sentido ou o sentido-não. Non-sens é o certo sentido ou um certo sentido que nada, nada, nada tem a ver com certezas ou a cartografia do sentido certo, caminho danoso que também na blogosfera se tenta inculcar. O Regabofe poderá não ser um bom ou muito bom não-caminho, no entanto, na figura de um cometa à deriva, impõe-se fiel à estrita desordem que a imaginação, ao delíquio de uma passagem, muito aventura.
[Imagem: Gilbert Garcin. Etre maître de soi.]

14.4.08

como, com algumas engelhas, susanna tamaro fica favorecida

Vai aonde te leva o cu e a razão.

no país do messenger

Por messenger, um amigo diz-me que depois de ter lido a autobiografia da Tamaro passou a sentir por ela muito respeito. Achando eu que o rosa tipo Tamaro é como o melão fresquinho vendido na berma da estrada portuguesa, comentei com grosseria, dizendo que, ao contexto, Tolstoi ao lado de Tamaro é o equivalente à imagem do sol ao lado de um olho do cu. E rematei concordando com ele, sinto um enorme respeito pelo (meu) olho do cu e agradeço a deus sempre que, diariamente e quase à mesma hora, o alijo dos fardos.
A propósito de raios de sol, o Caravana também pode ser comprado na Almedina. Obrigada, Luís.

grande entrevista

- Miss Woody, a última pergunta, considera que haja uma elite blogosférica?
- Uma otite blogosférica, pois claro que sim, há uma otite blogosférica.
- ?
- Como disse? (sacudindo os ouvidos)
- Tite-tite-tite-tite-tite...
- O Sr. é um estouvado, quanta elite. Ah! Ah! Ah! aaah (sentindo o alívio depois da gargalhada) Olhe, gostei da entrevista, gostei muito da entrevista, nunca me fizeram uma entrevista assim; encaixe, com uma só pergunta, ainda por cima a última pergunta; bastante entendimento; óptima interlocução. Merci e não tem de quê.

amizade

Em início de nova relação, os meus amigos avisam: - Vê lá o que fazes; não magoes ninguém. Consta que já os amigos das pessoas com quem me envolvo costumam dizer-lhes: - Vê lá o que te fazem; não deixes que te magoem.
Com amigos que me conhecem e gostam, e por isso tão honestos, enfim, sou uma mulher cheia de sorte; pensando bem, não serei uma namorada assim tanto um bocadinho puta. Pensando melhor, gaja de mérito nas margens.

fosses dita do melhor modo

baliza identitária [19]

Que não separe o Homem o que o link uniu.

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Mais informações.
Nos escaparates da Fnac há histórias incríveis: o rosa tipo Susanna Tamaro, assustadoramente feito vizinhança com Tolstoi, é vendido aos magotes e às manadas. A Caravana, nem vê-la passar.

depressão

Não faltam ideias; falta, no entanto, a melhor ideia: a ideia de falta.

eu hei-de casar com deus

O gato da vizinha vê a minha
aura
eu acho que o gato da vizinha é deus e
quando penso nisto fico um bocado
lixada

Não porque o gato da vizinha seja
deus
ou porque o gato da vizinha veja a minha
aura

Eu fico lixada porque tenho uma aura
que só é vista por um gato que é
deus
nem eu mesma consigo ver a minha
aura
mas consigo ver que o gato da vizinha
é capaz de ver a minha aura

Fico lixada porque tenho uma aura
e prometi a deus que casaria com
o primeiro ou primeira
que olhasse para mim e claramente visse
como eu nunca me vi

Agora tenho de casar com deus
que por acaso tem dona
estou quilhada
deus é o gato da minha vizinha

[8ª palavra]

estrofe regabofe

vivo do que me dão
nunca falto às aulas de esgrima
e todos os dias agradeço a deus
esta depressão que me anima

Maria Rodrigues Teixeira para A Naifa.

11.4.08

gadelhudo e com esta idade












Não mexas essa mama para eu poder apalpá-la / Não mexas essa mama para eu lhe acertar... blam!
Tarântula. A tomar uma bebida estranha com o velho desconhecido alto. p.18 Ed. Quasi.

10.4.08

«esta máquina mata fascistas»


Fora de grupo ou dentro de grupo, uma causa não impõe, invariavelmente, o «sentido único» de que fala Pedro Mexia. A certa altura, em entrevista, Todd Haynes revela a única coisa que Jeff Rosen (manager) lhe pediu, da parte de Dylan: que não insistisse muito no tema das drogas. Quando li esta entrevista, lembrei-me de Woody Guthrie; um filme sobre Bob Dylan sem alguma insistência na bolota seria um filme sobre lucidez excessiva de um homem que arriba aos sítios e nos sítios, sem proveito nem glória, se faz à dor. Poderia ser, então, um filme sobre Woody Gutherie; errático, vagamundo, alguém que, não tendo montado escola, ofereceu a liberdade da pergunta e o gozo particular de haver possibilidades em qualquer uma das respostas. Nisto há uma causa, há sempre uma causa. Ser génio de conhecimento é uma condição, ainda que perversa, instituidora da causa ou de causas. Se é que há uma consciência de génio (como defende Mexia acerca de Bob), se é que a consciência não cede aos efeitos de quaisquer mecanismos alucinatórios (drogas químicas e sociais), então haverá sempre a causa combatível, um recorte de sobrolho que denuncia um espírito inquieto e reivindicativo, um espírito que transporta, na pluralidade do caminho, uma responsabilidade pessoal, essa sim, única na acepção auto-figurativa, transmissível na atitude (exemplo) conferida à sua representação (imagem).

Conheço bem mal Bob Dylan ou, para dizer honestamente, não o conheço. Pedro Mexia também não conhece Bob Dylan. Scorsese mostra bem o misunderstanding, ou seja, também conhece bem mal o Bob Dylan. Bob Dylan conhecerá Bob Dylan? - (pergunta mais escusada) - Digo, sobre Bob Dylan, que me faz lembrar um ex-namorado meu que, não sendo transsexual, às vezes, no lugar do pénis, dava à cena amorosa uma vagina ou, dito do mesmo modo, um pénis feminino. Eu compreendia a beleza da cena e não questionava a última privacidade do corpo, daquele corpo. Bob Dylan também me faz lembrar um outro ex-namorado meu, um que fumava bolotas, despejava na goela garrafas de tinto maduro a torto e a direito, tocava umas guitarradas e ouvia a Joplin em modo repeat, com tudo isso se achando uma espécie de salvador do mundo, um ícone da não-ideia lançada à terra do não-lugar. Se eu não questionava o poder intimista do primeiro namorado, não duvidava, no entanto, da fragilidade pública do segundo. Bob Dylan foi, se o não é ainda, um drogado fácil que é um homem frágil e, por isso, um homem espantosamente difícil; uma life story composta por atributos de intimidade que não me interessam, porque não me dizem respeito; um cantautor de uma ou várias causas que eu gostaria, isto sim, de ver assumidas no fio das evidências alucinatórias (aquilo que realmente acontece), assumidas quer por ele, Dylan, quer por aqueles que dizem conhecê-lo bem (mal). De outro modo, sem causas a história fica entregue apenas à droga, e um drogado, como todos devem imaginar, não está para se matar com ideias; quando muito -- por saber que as tem e a medo do excesso de lucidez (consciência) -- conforme se mata, a si se convence de que apenas a obra que cria o poderá salvar (para não falar de conversões ao cristianismo). Essencialmente, ponho sem dúvida: Bob - figurando o artista e o homem - duvida tanto de si mesmo como duvida do mundo (inconsciência), mal de natureza a que ninguém escapa. E bem vistas as coisas, tanto é possível gostar de uma identidade que se não arruma (BD), como de uma outra que, na causa visível da especificidade de vários tempos (nitidamente duros), não encerra a identificação permanente(WG).

Dito isto, fora de grupo ou dentro de grupo, uma causa não impõe, invariavelmente, um «sentido único», muito menos se tomarmos em consideração a(s) causa(s) movida(s) contra o «sentido único» (ora impregnado de comprometimento histórico - caso de WG - ora impregnado de vazio de sentido (niilismo) - caso de BD? Isto é uma pergunta. Enquanto o Bob canta o seu próprio tempo (pós-guerra)

People are crazy and times are strange, I'm locked in tight, I'm out of range, I used to care, but things have changed,

alguém que me esclareça, que eu não sei nada.

[No vídeo, Woody Guthrie. So long it's been good to know you.]

9.4.08

baliza identitária [18]

Só me lingaste, porque eu te linguei primeiro.

bater a primeira linha [18]


O inquilino das euforias tristes bate a porta e sai de casa. A lua enorme desce para a rua tensa. Um par de mãos, duas mãos, a mão esquerda e a mão a direita resgatadas nos bolsos do inquilino. Duas mãos são uma em cada bolso ou então, como abrigados, o devaneio de um lado e a paixão do outro, duas mãos. Vejo também uma espécie de obsessão de cama, uma sinfonia furiosa ou um tango esconjurado. Agachado para enlaçar os cordões dos sapatos, por momentos dá-se menos noite por trás de uma sombra. Tão bonito o inquilino das euforias tristes, torpor da madrugada, intermitência da sombra que gera o corpo.

[A soundtrack da primeira linha. Yumeji's Theme.Da fita Disponível para amar.]
Imagem:Edward Hopper. Night Shadows. 1921

8.4.08

A Man of No Fortune and with a Name to Come

Numa casa onde não há livros, onde a fome obriga a cavar fossos, onde os fossos mergulham no destino sem passado, presente ou futuro, os homens não podem dar-se ao luxo de pensar para lá dos bolsos. E com os bolsos rotos ninguém transporta areia, ninguém sobrevive ao azar, ninguém escapa à solidão. Há nesses bolsos rotos um turismo melancólico, uma certa forma de olhar o mundo à nossa volta.

nada total

Não conheço o sítio «antes do nascimento» nem o sítio «pós-morte»; só os meus orgasmos se parecem com o nada total.

«a fotografia esquiva-se» [2]


[miss allen. Porto/CdM]

«a fotografia esquiva-se»


[miss allen. Porto/CdM]

7.4.08

história da história do teatro

Bato no peito e digo com fervor: sou tão falsa, meu deus. Nunca mentiria a deus, deus é a imensa luz, deus perdoa os sinceros. Por exemplo, uma puta que não finja, não é uma puta verdadeira. Madalena foi uma puta verdadeira, depois bateu no peito e tudo, e deus perdoou Madalena.

não vais lá pela fonética, mas sim pela coisa

Agora conto-vos uma anedota que um amigo da Adília Lopes contou, por telefone, à Adília Lopes; dela tomei conhecimento, porque fiz de conta que a Adília Lopes me telefonou hoje para ma contar, eram as 15h37 minutos - hora em que eu estava, precisamente, a ganhar lanço da varanda norte à varanda sul de minha casa com a mira de suicidar de vez o meu trabalho - e a anedota é esta: «Um homem entra numa estação de Correios e pergunta a outro "Tem caneta?" O outro responde "Não, mas tenho pena." O primeiro homem diz: "Também serve." O outro diz: "Não - tenho pena de não ter caneta." O primeiro homem sai para a rua e pergunta a um terceiro homem "Tem fósforos?" O outro responde "Não, mas tenho isqueiro." O primeiro homem diz: "Também serve." O outro diz: "Não, tenho isqueiro de não ter fósforos."». Não que eu goste de anedotas, mas gosto desta, porque não é uma anedota; para mais, a Adília Lopes não só me salvou a vida como também, não fosse eu ter-me esquecido do que tinha ainda para vos dizer, serviria este post de exemplo que provaria de uma vez por todas a coisa que ainda tinha para vos dizer, não fosse ter-me esquecido da coisa que ainda tinha para vos dizer e que serviria de exemplo acima de todos os exemplos que provam que a coisa que eu tenho aparentemente para vos dizer - apartada fosse, neste blogue, a homenagem ao grande e verdadeiro faz de conta - é a mais sincera das mentiras.

para o caminho


Histórias para pessoas que calçam um par de caravanas a vida inteira e que acham que, depois do cemitério, o manicómio é o lugar mais seguro para se ir vivendo.
Graças a ele mesmo, um livro de Rui Manuel Amaral. Um, dois obrigadas.

debaixo da matemática, a praia

The day with its cares and perplexities is ended and the night is now upon us. The night should be a time of peace and tranquility, a time to relax and be calm. We have need of a soothing story to banish the disturbing thoughts of the day, to set at rest our troubled minds, and put at ease our ruffled spirits.
And what sort of story shall we hear? Ah, it will be a familiar story, a story that is so very, very old, and yet it is so new. It is the old, old story of love.
Two lovers sat on a park bench, with their bodies touching each other, holding hands in the moonlight.
There was silence between them. So profound was their love for each other, they needed no words to express it. And so they sat in silence, on a park bench, with their bodies touching, holding hands in the moonlight.
Finally she spoke. “Do you love me, John?” she asked. “You know I love you, darling,” he replied. “I love you more than tongue can tell. You are the light of my life, my sun, moon and stars. You are my everything. Without you I have no reason for being.”
Again there was silence as the two lovers sat on a park bench, their bodies touching, holding hands in the moonlight. Once more she spoke. “How much do you love me, John?” she asked. He answered: “How much do I love you? Count the stars in the sky. Measure the waters of the oceans with a teaspoon. Number the grains of sand on the sea shore. Impossible, you say.”
“Yes and it is just as impossible for me to say how much I love you.”
“My love for you is higher than the heavens, deeper than Hades, and broader than the earth. It has no limits, no bounds. Everything must have an ending except my love for you.”
There was more of silence as the two lovers sat on a park bench with their bodies touching, holding hands in the moonlight.
Once more her voice was heard. “Kiss me, John,” she implored. And leaning over, he pressed his lips warmly to hers in fervent osculation.

Música: Excerto da ópera de Philip Glass & Robert Wilson. Einstein on the Beach.

Texto (completo): Samuel M. Johnson: Lovers on a Park Bench.

relatividade


Vês claramente o que não vês.

escrever o tempo ou o tempo da escrita

Há escritores que passam a maior parte do tempo sozinhos, fechados entre paredes, a escrever. Há escritores que passam a maior parte do tempo acompanhados, em encontros abertos, a falar do que (outros) já escreveram. Dito de outro modo, ocorre-me a seguinte ilustração: António Lobo Antunes pedindo a José Luís Peixoto que vá brincar para a rua e que o deixe trabalhar em sossego, ou então, direi que a título mais equânime, Marcel Proust pedindo a António Lobo Antunes que vá brincar para a rua e o deixe trabalhar em sossego. Nisto não vejo querela alguma entre antigos e modernos. Verifico apenas escritores e escritores e um tempo que, em Portugal, só a Portugal pertence.

efeitos do aniquilamento ou, entre o menos, pelo menos

Ou, por exemplo, já é possível chegar a este blogue batendo no motor de busca a palavra vazio. Isto significa, entre o menos, que já falta tudo para começarmos, pelo menos, a dizer alguma coisa.

expressão: representação animada de sentimentos

Faz de conta que escrever muitas vezes n'O Regabofe a palavra puta ou putas aumenta o número de visitantes procedência google e diminui drasticamente o número de visitantes bloggers, tendendo a encurtar, por arrasto, o rol de linques na technorati. Ainda assim, puta, mais do que um vocábulo escrito, é uma expressão cuja pronúncia na boca dos ledores não poderá afligir mais do que afligirá a certos homens e mulheres a possibilidade de um orgasmo fingido na boca das suas amadas. Por assim dizer, escusando o sentimento, sobra sempre a representação animada da vida, fora ou dentro de uma tela, fora ou dentro de uma cona.

suspensão volátil

Sobre ir ou ficar, Pedro Lago e a incompletude do fim.

«particular absoluto»

São 11 horas e 23 minutos. Do mês onde me encontro, chove sobre uma figueira; a chuva, que também colide nas telhas das casas, destina expressão de tranquilidade ao meu trabalho. Sinto que não sinto fome, não sinto frio. O privilégio de um instante não é praticamente universal; enquanto a queda particular da chuva imobiliza a melancolia, as pessoas, tendencialmente, preferem afastar-se delas. As pessoas são apenas meses de 28 a 31 dias, afora as que sentem fome e frio, injustamente privadas da longa duração de um instante. Entre umas e outras, sou uma puta à chuva da sorte.

a fronteira da passagem


sou uma fraude
excepto quando te digo que
sou uma fraude
aí não sou uma fraude
mas também não sou uma verdade
sou talvez
entre tudo e nada
da ficção à realidade
ou da realidade à ficção
a fronteira da passagem

e isto

- que não é um
poema
nem uma
palavra
nem a
pontuação -

de tão fácil sentido
poderia, até, ter sido escrito
por mim

isto é
por uma criança sem ponteiros
que não é uma fraude
mas também
não é nenhuma verdade

[Para a T.]
Imagem: Gilbert Garcin. Le sémiologue ou Les symptômes du savoir.