26.12.09

what the f****


Vai para muito tempo que me não ria tanto.

até estava de muito boa saúde

Estou bastante engripada. Perguntam-me se já tomei a vacina contra a Gripe A. Respondo que não, que prefiro morrer saudável.

18.12.09

do minarete ao minete


A verdade é uma e aborrece-me, claro que me aborrece. Falam, falam, falam, mas anda tudo atrás da Nespresso e a lambuzar-se com toblers. Para mais nesta quadra.

lei divina

Ponho-me a pensar: as pessoas não se confessam aos padres, advogando que os padres são pessoas iguais a todas as pessoas, mas sujeitam a sua intimidade às leis feitas por pessoas, as mais das vezes, piores do que elas mesmas. É só por isto que eu penso que assuntos relativos a intimidade (como, p.e., o casamento entre pessoas de diferentes sexos, iguais sexos e, até, entre pessoas e os chamados animais irracionais) deveriam estar sujeitos a um compromisso amoroso, logo seriíssimo, de responsabilidade individual, sob pena de fustigação de um raio divino que as partisse ao meio em mil pedaços de carne. Mas isto digo eu, que sou uma utópica de mil sexos diferentes e uma única responsabilidade amorosa.

até que a lei nos separe

Estou dentro do carro a fazer horas para um compromisso sério. Não, não se trata de casamento. É um compromisso muito, mesmo muito menos sério.

leis históricas

Duas leis históricas: Em 2008: Lei do tabaco (atenção: sou fumadora). Em 2009: Uma vez não abolido o casamento na sua integralidade (ainda que a alma seja grande, ou se está por amor ou nada vale a pena. Atenção: sou utópica.), o país está de parabéns (atenção: não tendes nada a ver com isso.). Felicidades aos noivos e pretendentes ao divórcio (atenção: sou solteira e muito má rapariga).

17.12.09

6.1 na escala de Richter (segundo DN)

Combinação de efeitos do cipralex e metabolismos metaquímicos da existência? Poderia dizer que o epicentro se deu dentro da minha cabeça, mas não se brinca com abalos sérios, sobretudo aqueles que, segundo dizem, mudaram a vida de Voltaire. Contudo, sei de muita gente que adoraria que isto fosse tudo abaixo e sobrevivessem apenas os melhores. O problema reside, no entanto, na descoberta da exacta indefinição de uma escala de abalos cujo epicentro se dê na cabeça dos melhores. Um problema de metaquímica que a metafísica, creio, jamais explicará.

o meu balanço [II]

No final de cada ano sobra sempre o mesmo dilema: Pregar aos peixes ou ficar muito caladinha?

16.12.09

o meu balanço

Vamos terminar o ano tal-qualmente começou; com efeito, sem nada de extraordinário. Por um lado, o resultado de referendos ao minarete; por outro, aguardam-se resultados para referendo ao minete. E tudo não passa de um joguinho de poder nas mãos do político e do capelão. É sempre isto que, chegado o natal, se oferece às criancinhas do mundo. Vamos lá, vamos.

o fim do mundo está próximo

No Facebook há mães que são amigas das filhas e vice-versa. Já no Face to Face nem por isso. A minha querida mãe, que não sabe abrir a miséria de um computador, está a anos-luz de uma contemporaneidade que tem vindo a colapsar à desamão dos caminhos adventistas a que é forçosamente disposta.

15.12.09

Desafio 2010


Ainda é cedo para legendas.

o som e o sentido*

Em certo post, cinco andares por aí abaixo, escrevi que Proust se masturbaba em vez de masturbava. Um leitor, vulnerável ao sentido, corrigiu inoportunamente e eu fui atrás e desviei a palavra - que tola que eu sou - alterando-lhe o som. O leitor, por certo, não sendo capaz de corrigir Proust, corrigiu a minha palavra, viu o resultado em seu favor e babou-se todo. Felizmente que agora estamos a falar de uma outra baba que a baba proustiana facilmente apaga.

* Bem apropriado.

dou-vos o mandamento novo

entre as mulheres

«Ave Maria cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres,
e bendito o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte.
Amém.»




Ali estávamos, eu e a cúpula ao alto, entre as mulheres de preto cheias de graça.

ponto de interrogação

O melhor no início de uma relação, o pior no fim de uma relação.

14.12.09

o regabofe: balanços [III]


Duas belíssimas pespitas suportadas pela mínima distância de um reflexo que lhes dá a forma de um par levemente insustentável. Com a verdade mentem, com ficção nem por isso. É isto tudo, Miguel.

balanços [II]


É muito confortante chegar à conclusão de que este blogue prestasse, ao menos, para nada. Proust masturbava-se mais de quatro vezes por dia. O pai dele, certo dia, deu-lhe 10 francos para ele se ir «curar» a um bordel. Sabe-se que, uma vez no bordel, partiu um bacio de 3 francos e que, nem assim, chegou a deixar de gostar de fazer amor com homens, tão-pouco colapsaria o clarão da sua genialidade. Um tudo-nada extraordinário sobre o qual este blogue não tem a capacidade de esclarecer mais nada. Não chegou a fornicar com uma puta e ainda ficou em dívida para com o bordel. Ahahahah. Isto tem tanto de confortante como de perverso: há, ainda, toda uma integralidade do nada para conhecer.

9.12.09

balanços

Tive um desaire profissional no início do ano. Cometi a avareza de ler muito durante do ano. Fui luxuosa, orgulhosa, gulosa, preguiçosa e irada ao cabo dos últimos meses; o ano termina com duas amigas atacadas pela guerra silenciosa da leucemia e o meu gato está morto. Tenho a certeza de que permanecerei melancólica até ao resto dos meus dias. Não entendo, por conseguinte, como ainda haja gente capaz de me condenar à sua pior maldade: a inveja. Como diria São Paulo numa hora destas: resta-me, portanto, a fé, a esperança e a caridade, se bem que, bem ao alto das três, eu esteja para sempre condenada à insustentável leveza do amor.

aforismo

Para que não restem dúvidas, não sou feminista. A feminista é um machista sem pénis.

a arte de desalmar

Freud, por esquecimento, amizade ou pudor, deixou por escrever a versão Alma-Mahler contada pelo próprio Mahler. Tenho quase a certeza de que seria, no que ao jaez das relações homem-mulher diz respeito, tratadístico. Nem sempre é seguro lançar-se à conquista das mulheres , já dizia Ovídio, igualmente tratadístico, em a Arte de Amar [séc.I a.C.].

saneamento

Menos problemas derivam do pecado do matrimónio do que do pecado do divórcio, por isso prefiro, a ter de preferir, falar da imundície do divórcio. Que os divórcios não contemplem o melhor para os filhos pouco me espanta. Que os divórcios não contemplem o melhor para os animais espanta-me ainda menos. Vivemos na merda deste país cujas fezes saem dos intestinos de quem o habita. Estamos perante um gravíssimo problema de saneamento básico.

7.12.09

Mahler para Visconti

2010-2011: ano novo mahleriano na CdM


Os maníaco-depressivos, escreve a Professora Jamison, têm frequentes preocupações com a morte. Por outro lado, têm tendência para pensar em termos espectacularmente grandiosos. Em indivíduos menos criativos, isto pode conduzir a falsas ilusões que são perigosas, mas quando conjugado com o génio, como acontece no caso de Mahler, os resultados podem ser avassaladoramente impressionantes. [Stephen Johnson. Mahler. Vida e Obra. Ed. Bizâncio. p.80.]

O pleno das Sinfonias mais a Canção da Terra. Na Casa da Música.

4.12.09

mãos ocultas

Este blogue não serve tanto para falar de faces ocultas no regabofe da multidão quanto de muitas pessoas novas que se vêem de mãos dadas e raramente de velhas a quem se dá a mão. Olhai para a rua e contai-as, vereis que nem toda a estatística remete para enunciados invisíveis.

Arno Rafael Minkkinen


Nude Descending a Staircase. 2005.

o interruptor

Hoje vi a velha corcunda a atravessar na passadeira. Há, em toda a parte do mundo, uma velhota corcunda de casaco cinzento comprido a atravessar, sozinha, os carreiros, as ruas, as avenidas e os quelhos; há, em toda a parte do mundo, uma só pessoa que vê a velha corcunda a atravessar para o outro lado, a vazar dificilmente as garrafas nos vidrões, a parar em câmara lenta à frente do escaparate de um quiosque, fingindo que lê as gordas apenas para verdadeiramente repousar ou apenas para a verdadeira mente repousar. Através do olhar perdido de Julie, Kiéslowski olhou-a e não a viu; já através dos olhos ternos de Valentine, Kiéslowski deita a mão à velha como quem procura redimir a culpa do pior dos cegos: eu, tu, ele ou ela; nós, vós, eles ou elas, deliberadamente rendidos ao interruptor da indiferença. Vejo-a daqui, do sétimo andar com vista para o Hotel Lutécia. Se aqui estivesse, de certeza que a Fátima Rolo Duarte também a veria, todavia, nenhuma de nós teria a coragem de saltar do sétimo andar para cima da velha corcunda, de maneira a que mais pessoas olhassem e vissem o espantoso acontecimento de uma pobre velha esmagada no meio da rua por uma louca que, a ela e aos outros, quis redimir dos mecanismos ferozes da sobrevivência.

2.12.09

excesso

Não ames mais do que julgas poder amar, olha os teus intestinos, a quebra da tensão baixa, o dilúvio das mãos, a certeza excessiva de estares viva. Não ames mais do que julgas poder amar, pequena, olha a conta bancária, o salto das refeições, a indómita gastrite. É excessivo chorares só porque a máquina abastracta das japoneiras as põe em flor todos os invernos. É excessivo chorares só porque a máquina metabólica da tua existência te põe em flor em cada outono e quase ninguém repara. Não te excedas, minha pequena de nariz afilado e lábios finos, olha os intestinos do mundo, um planeta sem tesão, o dilúvio para uma arca onde não cabes por ser demais, por ser excessivo o dilúvio, desmedida a liquefacção das tuas duas mãos no abstracto levadas às coisas impossíveis de um só mundo.

29.11.09

29/11/1968-

Sabes que nada há a concluir. A tua alma tem uma boca de Pantagruel, por isso come a vida intensamente até morreres e logo verás se a morte, por fim ou sem fim, te sacia.

23.11.09

take your time ou a insustentável leveza do estar

Photobucket
Levada a palco 50 vezes, ontem a última (no Maria Matos). Quem não viu, não poderá ver mais, e jamais saberá o que perdeu. Descansai. Nós estivemos lá, no entanto, sabemos bem que uma escolha implica sempre uma recusa. Aí está a insustentável leveza: Quanto mais ganhamos ante o mundo, tanto ou mais perdemos do mundo. Bleib Opus#3, coreografado por Michel Schweizer, cinco brilhantes actores belgas treinados para a submissão e a violência; metáfora, tão difícil quanto bela, de um mundo bem agrilhoado, programado para a submissão e a violência. Está certo, já todos sabemos que a ideia não é nova, mas o mundo, infelizmente, também não é.

22.11.09

bater a primeira linha [19]

Ontem chovia nos telhados da Av. de Roma com vista da janela para o Hotel Lutécia. Da noite para o dia, a chuva não regou nada. Tão-pouco a apatia.

admira-te

E quando ela te disser que está, como dizê-lo sem que isto pareça uma frase longa?, que está apática, descansa, isso não quer dizer que ela não goste de ti, quer acima de tudo dizer que jamais chegou a, sequer, gostar de ti. Admiras-te, allen palerma? Há muito tempo que vem no Beckett. Agora faz o favor de meter o tesão para dentro e ergue outra coisa.

tesão

Mas ele, o homem moderno, ainda tem tesão aos vinte e cinco anos, de vez em quando mesmo física, é a cruz de cada um de nós, eu próprio me sujeitava a ela, se àquilo podemos chamar tesão.

Samuel Beckett. O primeiro amor. p.16 [Não muito boa Trad. de Alberto Nunes Sampaio]

19.11.09

Bobby Mcferrin


Parafraseando Beckett: As coisas que nos passam pela cabeça!

17.11.09

s/t


You are my sister, we were born
So innocent, so full of need
There were times we were friends but times I was so cruel
Each night I'd ask for you to watch me as I sleep
I was so afraid of the night
You seemed to move through the places that I feared
You lived inside my world so softly
Protected only by the kindness of your nature
You are my sister
And I love you
May all of your dreams come true
We felt so differently then
So similar over the years
The way we laugh the way we experience pain
So many memories
But theres nothing left to gain from remembering
Faces and worlds that no one else will ever know
You are my sister
And I love you
May all of your dreams come true
I want this for you
They're gonna come true (gonna come true)

[Antony and the Johnsons. You Are My Sister. From I Am A Bird Now]

Para a woody; sim, para ti minha puta sem título.

16.11.09

El derecho al delirio



Video realizado por Nerea Ganzarain, con música de "Bosques de mi Mente" y un texto de Eduardo Galean
. Via: Facebook Maria De Lurdes Craveiro, a quem agradecemos a maravilhosa partilha.

1989 [III] (The) Good (Bye) Lenin



Good bye Lenin!
/Dir. Wolfgang Becker (2003). Aqui dobrado para italiano.

1989 [II]: o grande trambolhão


Deixada a meu cargo a segunda parte da grande queda de 1989 e passadas horas a ler quase tudo quanto se escreveu sobre muros, ruínas e cacarias, resta-me escrever sobre o que falta ser escrito: o grande trambolhão da avó Adelaide, que deus agora a sustenha, na escaleira de granito da fachada mais considerada da casa, com o seu enorme alpendre emadeirado. 1929-1989. Era tarde fria naquela vila do norte e chovia a cântaros, quando o pai entrou pela casa, em camisa de flanela aos quadrados, apregoando a morte da avó. Olhai que não vi assim tantas vezes o pai a chorar como uma criança, a não ser naquela outra vez em que foi esfrangalhado por umas das suas amantes e fui dar com ele, esculpindo rostos mortuários em pedra granítica, no quintal da nossa casa. Aos 60 anos, a avó Adelaide era já um muro atacado de alcoolismo, um muro intransponível entre o meu pai e a minha mãe, um grosso muro a derrubar numa espécie de representação do mundo onde abundava, diga-se meio metaforicamente, um vinho riquíssimo em casa algo pobre. O meu pai chorava agarrado à minha mãe - e olhai que não vi assim tantas vezes o meu pai agarrado à minha mãe, a não ser naquela vez em que ele se mostrou arrependido de ter estoirado uma melancia inteira em cima da sua cabeça só por causa de coisas que a avó Adelaide lhe havia metido ou extraído da cabeça umas horas antes de ele regressar a casa para jantar. Antecipávamos claramente os resultados das visitas à avó e brincávamos, que é como quem diz, aos trocadilhos em volta da controversa lobotomia do Moniz: - Pronto, mais uma labótomia, e agora? - desta vez, o meu pai chorava agarrado à minha mãe e eu, de malga nas mãos, a petrificar de olhos espetados no nestum: o grande muro havia tombado e eu não sabia se havia de rir ou de chorar. A vida é um drama sem tino. Parece que a antiga Europa de Leste é agora uma Europa mais livre, sem o obstáculo de um muro sequer invisível (deve ser, deve), todavia as circunstâncias do grande trambolhão de 1989 permanecem ainda mais obscuras do que aqueloutro. Enquanto a avó Adelaide subia aos tremeliques os degraus da cave e o avô entrava aos suspiros dos lupanares e vinho verde, eis que se dava o trumblas-toma-lá, depois era o avô a queixar-se amiúde de levar estaladas e coças do género - Estou esgotado dela - dizia - Não aguento mais. - E depois ainda, a avó toda torcida aos pés da escada, ao seu lado uma garrafa de vinho vazia e perfeitamente intacta, talvez a única e má pista de um crime (in)deliberado por cuja autópsia aguarda para corroborante esclarecimento, por mais que dele se fale e cale e a mim me intrigue.

[Imagem: Carlos Relvas. Auto-retrato. Também sei fazer destas inomináveis caretas.]

8.11.09

1989 [I]



Material
(excerto). Thomas Heise
Quase três horas de uma história que continua. Esteve no Doclisboa/2009.

6.11.09

coisa grotesca



A Srª Dona Olívia é muito boa pessoa, mas não perdoa quem não paga a renda. Acho muito bem, cada qual tem de fazer pela vida. Há uma passagem de Pantagruel que eu gostaria de citar aqui, mas agora não me apetece, até porque fala de merda e odorantes do género. Quem não leu ainda Pantagruel de Rabelais sabe bem do que estou a falar, pois deverá ser uma merda não ter lido, ainda, o Pantagruel de Rabelais, gerado por seu pai Gargântua e sua falecida mãe, que Deus a tenha, chamada Bocaberta mas sufocada, por seu próprio filho, na bendita hora do parto. O cão, que acabou de passar na Avenida Defensores de Chaves, talvez seja o próprio Fernando Pessoa, pelo menos quando subo as escadas do velho prédio, cuja fachada principal dá para o Campo Pequeno, lembro-me sempre do Fernando Pessoa; não havendo memória de aqui passar a carreira número 15, tudo isto me parece estranho, mas como não acredito na metempsicose, prefiro a Avenida de Roma; um dia, lá mesmo, dei de caras com o Pedro Mexia que me disse que conhecia vagamente sicrano e beltrano, pedi uma água natural sem gás e vi-o ir-se sei lá para onde, a mim tanto se me deu - lá está, não acredito na metempsicose - o que é certo é que prefiro, de perto, a Avenida de Roma. Isto não é Adília Lopes nem a coisa que a valha, trata-se, apenas, de já não saber, ainda agora falei com ela, para que horas marquei com a Srª Dona Drª Isabel, à frente do Hotel Roma, visita à minha casa nova, que eu cá prefiro, de longe, a Avenida de Roma, e não é que estou sem saldo no telemóvel, ó meu grande Pantagruel? Porquanto bebo água natural sem gás, dir-se-ia que pareço bêbada, ó meu grande Pantagruel.

7.10.09

...Sancho.


O Sancho morreu hoje. A woody manda dizer que não pode escrever mais aqui, que o Sancho morto dá azar. Como grande parte dos postais foi escrita com ele ao meu lado, a dar palpites, a colocar a pata onde não era e era chamado, ...
Enfim, nunca descobriremos como se escreve uma página onde se ouça chover. Nunca descobriremos como se escreve uma página onde se ouça chorar. Obrigada(s) a todos vós por terdes tentado ouvir a sinfonia que nunca conseguiremos projectar. Todos vós inclui sobretudo os que andam sempre à procura do caminho de si mesmos sem mapa acabado. Não sabendo exactamente quem sois, sabeis bem quem sois.

25.9.09

o bidé


Ao fim de quase dois meses, tivemos necessidade de ir a Milão por causa do bidé. Único defeito da Helvética: não tem bidés. Assim, tal e qual, como dizer, em sua dramática oposição, que portugal tem bidés a mais e outros muito mal empregadinhos. Chegadas ao hotel, mais uma vez alijámos o fardo português e demos bom uso ao bidé milanês. Depois disto, abrimos a janela, suspirámos de fora para dentro e tudo um pouco melhor, não fosse estarmos em Milão, cuja única qualidade é ter bidés (óquei, mas não falemos dos Sforza em estação de eleições, que seria misturar o sol com o olho do cu, ou ânus, se quiserdes). Segue daqui que não sabemos se estamos de volta ou não estamos na volta, no tour du lac noir, na viragem da página, no passeio dos regabofes. Ora bem, no seguimento do sentido deste pouste: entre bidés, Sforzas e eleições democráticas metidas no meio (percebestes a piada?, metidas no meio?, metidas coiso e tal -truclas - toma lá no meio?!?), queira Deus que não estejamos, por ora, de regresso às coisas sempre sérias propensas a' O Regabofe.

25.6.09

até setembro



Em conformidade com o post em baixo, resta-nos escrever: Até setembro.

18.6.09

em breve

Atrevo-me e digo-o: No princípio não era a carne, mas sim o verbo, mas o verbo desde sempre conflagrado; portanto, não o princípio de uma revolução da palavra começada, mas o incêndio da palavra no ardume alastrada para o fogo. O princípio é, pois, a conflagração da palavra viva que na labareda dela mesma resiste dolorosa ao fim da carne. Quem se atreverá a dizer o contrário, que não está morto desde a sua própria carne que, frágil, não sobreviveu no berço ao fogo manifesto do verbo? Quem se atreverá a afirmar tão medonha e impressionante heresia? Não sei o que digo leitor, aliás, não me leste jamais, porque nunca te escrevi. Leitor. Em breve, abalarei por dois meses ao sanatório da lírica helvética. Voltarei em setembro novamente de mãos vazias entornadas no chão desperdiçado do mundo. Não sentireis a minha falta, nem eu, tão-pouco, a vossa. A woody seguirá à minha frente, umas horas antes para que não caiamos na tentação do mesmo cockpit em pose vertical; seguirá à minha frente como lamparina da minha miopia, logo não estarei completamente só. Irá em trabalho, diz ela; eu irei em nome da loucura, dizem eles. Dizeis vós. Resta-nos a carne, consolai-vos pouco porque vos resta o que somente nos deram: a carne; que a palavra, essa, nunca existiu senão para arder em si mesma. E nós, esses nós, nunca existiram senão para deixarmos de existir em nós mesmos; carnes refractárias, achais, por certo, alguns de vós, mas sem palavras que as salvem. Eis o sério regabofe das nossas vidas.

31.5.09

ou se é Homem ou se é Homem



A prova de que não há mitos (humanos), está no momento em que todo o Homem cai. Ou se é Homem ou se é Homem (não há outra hipótese). Hoje o gelo sueco provou a fragilidade do menino selvático, no entanto não matou o Homem, somente feriu o atleta em campo de batalha, apenas para que o atleta não esqueça jamais a condição humana que, inevitavelmente, tanto dá como tira.

30.5.09

as esquerdas mais bonitas do ténis masculino





Philipp Kohlschreiber, de quem já tinha dito que dele voltaríamos a ouvir falar. Esta tarde mandou o cuequinha nova para casa (perdoai-me senhor, por eu saber tão excelentemente bem o que digo) . Tenho a dizer, sobre Roger Federer, o seguinte.
E uma pergunta: quando voltaremos a viver ténis feminino?

genes

Os meus genes e eu. Por Ana Gerschenfeld.

26.5.09

a 29 de maio

natureza viva


[Realização: Carla de Elsinore]

25.5.09

come cipralex, pequena

Até que nem te sentias assim tão mal, agora vem o teu psicoterapeuta (quereis que diga psiquiatra? eu digo) até que vem o teu psiquiatra e diz que te vai tirar essa depressão. Essa depressão. Tu estavas bem, aqueles gritos contra o rosto dos que amas queriam dizer-lhes que essa depressão que o Aucíndio Valente te quer tirar se calhar nem é tua, mas toda e completamente toda dos que amas. Há uma força tão poderosa na fragilidade de uma mãe, na inclinação lenta das pétalas da tua japoneira, tu tentas explicar essa força aos que amas e eles respondem dizendo que precisas de visitar um psiquiatra. Então fizeste-lhes o favor de marcar o número do consultório da Marquês de Pombal, e por uma última vez consentiste que tudo à tua volta, à excepção da mobilidade da morte das pessoas e das coisas que nunca serão tuas, à excepção da tua melancolia (quereis que diga infelicidade? eu digo) à excepção da tua infelicidade cuja natureza é imensamente gratuita, parasse naquele dia dos teus 3 anos de idade, o dia em que então ainda não compreendias o porquê de teres nascido para o mundo, mas sim para a esmagadora mobilidade da incompreensão do mundo. Agora? Agora és grande como quem diz adulta. Agora toma, pequena, toma o cipralex como manda o clínico, entre refeições e não chocolates, há lá maior metafísica no mundo do que cipralex e assemelhados, pequena, há lá maior metafísica no mundo do que a implacável incompreensão dessa besta que é o mundo e contra a qual já só apenas a tua gratuita melancolia, a que clinicamente chamam depressão, nascida da fragilidade poderosa dos que amas, te salvava. E paga, paga caro a felicidade que eles te prometem, que eles querem que rias, que brinques, que sejas normal, que uma mãe seja apenas uma mãe, uma mãe, só uma mãe, e a tua japoneira tão-somente a árvore que dá camélias que lentamente nascem para a morte rápida e normal de todas as coisas. É muito fácil, entras pelo número 66 adentro, sobes ao terceiro andar e compras a felicidade da marca cipralex como se fossem cerejas à venda na berma de uma estrada de putas. Não vás por regabofes gratuitos, pequena de 3 anos, come cipralex como se fosse cipralex, que as cerejas não passam de cerejas e murcham como tem de murchar a besta deste mundo.

23.5.09

big my secret


Há um silêncio onde nenhum som pode penetrar.
The Piano. [Dir.Jane Campion]

20.5.09

pessoas

Há pessoas complicadas que não sabem o que querem, eu sei o que quero (vá lá, pelo menos mais ou menos), quero pessoas complicadas que não sabem o que querem.

19.5.09

no mês de maio

12.5.09

mensagem


Tu querias ver o mundo para lá dos telhados. Eu sempre achei que há mais mundo por baixo dos telhados. Não será necessário leres Fernando Pessoa para compreenderes o que tentei explicar. Ninguém, jamais, saberá explicar o mundo que existe por baixo dos telhados.
[Fotografia: Allen/alguns telhados de Berna]

3.5.09

as primeiras favas do ano


Suspendi o que estava a fazer para vos vir dizer que estava a debangar umas favas (que me deu a mais generosa das minhas vizinhas, a dona Vitória, à troca de três pés de hortaliças do meu quintal), enquanto deitava os olhos à final do WTA de Estugarda. A Dinara Safina, sempre tão imprevisível, lá me vai dando alguns desgostos, desta vez à troca das favas da dona Vitória de que gosto muito, muito não, bastante. Das favas, que este post é sobre favas e mais nada.

29.4.09

vende-se


É para informar que o Pedro Vieira (Irmão Lúcia) pôs a sua casa à venda. Todas as informações, com apêndice fotográfico, aqui. E vale bem a pena pensar nisso, leitor(a). De contrário, ao menos, é passar a informação de blogue em blogue. O Pedro agradece-nos.

[Fotografia: O pormenor da casa de que mais gosto. Sou aquela que está sempre sentada no cadeirão vazio.]

27.4.09

guerra e paz

Hoje acordei com um dos meus maiores dilemas de sempre: ligar ao meu mais recente picheleiro ou ao meu mais antigo psiquiatra. Talvez um ou o outro um dia me expliquem por que razão tenho uma dor tão grande na palma das mãos, qual a fissura por onde vaza um fio de sangue de cada vez que na palma das minhas mãos seguro o mundo da minha cabeça.

26.4.09

Teresa Salgueiro


Estamos de volta.

9.4.09

intervalo


Vamos de férias e voltaremos daqui a 15 dias. Ficai com Deus vosso Senhor, que o nosso vai andar bastante ocupado.

5.4.09

inspector Nicolau

Há tantos argumentos, mas não precisaria de dizer mais do que isto: tenho mais feitiços do que argumentos, um deles é gostar de narizes grandes e afilados.

Gógol n'A Barraca [até 31 de maio]*


É só para lembrar que há coisas a acontecer neste país, sim, olhai para os blogues, são a prova de que há muitas coisas a acontecer neste país, centenas, milhares, um trilhão de coisas a acontecer neste país, todavia Maria do Céu Guerra não é uma coisa e por isso não basta lembrar que existe, é preciso exceder os limites da mnemotecnia batendo largamente com chicote em quem, injusta e mediocremente, se esquece tantas vezes dela.

* Pede-se dedicação ardente principal e preferencialmente aos queridos ledores d'O Regabofe residentes em Lisboa. Vereis que, se comparardes esforços, não fica muito longe de vossa casa, senão vede o meu caso: para ir a Lisboa, começo por ter de andar uns 20 minutos a pé (se for de noite e em tempo de chuvas, acumula-se o facto de ter de tomar diligências sérias para não pisar salamandras de cores muito exóticas que se atravessam no carreiro); de seguida, tenho de apanhar uma caleche puxada por uma mula velha e só muito para diante, cerca de hora e pico depois, é que já posso apanhar a carreira que passadas muitas horas, talvez dias (consoante os ventos), me deixe indispensavelmente bem perto do jardim zoológico, que eu, na Corte, gosto de ser recebida por gente comme il faut. Por isso, agora ide, ide «qu'a vossa mãe disse qu'ísseis».

4.4.09

Dustin Hoffman


Não sei se traduzo bem o que hoje li, algures na web, mas arrisco. Aos 68 anos, este grande actor de pouco mais de metro e meio disse: «Choro sempre que posso». Não sei, mas apostaria que Dustin Hoffman leva a melancolia de casa para o trabalho; em todo o caso, os seus trabalhos melancólicos fazem-me chorar sempre que se viram para mim e me identificam. Mesmo nas alturas em que não os posso rever, porque estou ocupada a vivê-los.

e depois alfim, cossaca montada a cavalo, a paz

...Ou sejamos! Grandes hussardos de bigode e astracã do mundo fictício, atirando desprezo e ignorância e total inexperiência contra os costumes, as ruas, os bares e as pessoas do mundo real.
Cavalheiro de Beri-Beri, «Guerra contra o mundo real».

3.4.09

colecção privada

Obrigada, Finn.

1.4.09

a mulher em Chekhov: da mãezinha à puta, com uma desandança de permeio

Do mesmo registo epistolográfico, deixo-vos algumas frases que gostaria que retivésseis no escaninho da vossa mais extremosa virtude literária:

a) A mãezinha de Chekhov era uma santa e chamava-se Evgenia Chekhova. Nas cartas que lhe escrevia, começava por se dirigir a ela deste modo: Saudações, querida Mamã! [Atenção: M em capital].

b) Sobre as mulheres Gilyaks, que observou in situ, deixa o seguinte testemunho: São tratadas como animais domésticos, como objectos, (...) podem ser expulsas, vendidas ou pontapeadas como um cão. Os Gilyaks mimam os seus cães, mas as mulheres nunca.
Que Deus me livre da metempsychosis platónica, que eu, talvez por não suportar feministas, de certeza reencarnaria numa Gilyak, no entanto, assim de repente que me lembre, devo dizer que também não gostaria de exercer facilmente uma profissão sob os efeitos perversos da quota feminina. A Fernanda Câncio, p.e., ontem lá estava no A Torto e a Direito (TVI 24) diante do paz d'alma do Francisco José Viegas e de um outro cujo nome não lembro, mas de certeza atacado pelo terceiro dia da TpM, a tentar defender a tese da quota deitando mão aos (e cito-a) «350 mil estudos» que existem sobre o caso, mas que, parece-me pelo modo como titubeia em televisão (em blogue tartamudeia menos), não leu nenhum deles. Ainda assim, pior do que uma feminista que não agarra o mote pelos cornos e o defende com pertinência, é a feminista cuja voz rouco-esganiçada lembra os insectos estridulatórios diante da língua de um camaleão. A propósito de camaleão e ainda no tema das quotas, o Francisco José Viegas, a dado momento, vira-se para ela e para a Constança Cunha e Sá e diz qualquer coisa do género: Ouçam meniiinas ou então deixem-me falar meniiinas. E as meninas nem tugiram nem mugiram, foi ver, por breves segundos, a Fernanda Câncio calar a sua triste falta de conhecimentos em geral e de postura em particular, e o Francisco, em vez de falar, desatou a debicar qualquer coisa no ar como um galo manso, contrariando os cacarejos da galinha ao lado. O Pedro Mexia sempre soube reconhecer não ter sido talhado para televisão. É triste, meus ledores tolerantes aos meus piores dias, achar que um programa destes ainda é melhor do que esperar eternidades pelo canalizador da allen.

c) Anton Chekhov ia às putas (é verdade, não é da vossa, tampouco da minha, imaginação; lestes mesmo bem). Anton Chekhov ia certamente às putas, senão lede esta passagem do mesmo livro: Está-se sempre a rir e profere de forma constante sons com "ts". Tem uma incrível mestria na sua arte, de tal forma que ao invés de só usarmos o seu corpo sentimo-nos como fazendo parte de uma exibição de perícia equestre de alto-nível. Quando atingimos o clímax, a rapariga japonesa retira, com os dentes, um pedaço de tecido de algodão da sua manga, pega no nosso "velho" homem (ahahahah, isto é sublime!, nem o Henry Miller diria melhor) (lembras-te da Maria Krestoskaya?) e de forma algo inesperada limpa-nos, enquanto o pano faz comichão na barriga. E tudo isto é feito com uma sensualidade artística, acompanhada por risos e do som musical dos "ts".
E fui eu condenar tantas vezes o comportamento do meu querido pai. Homens e mulheres, se fordes casados ou quase, quando chegardes a casa do lupanar, batendo as 5h00 no campanário da vossa consciência, lede esta passagem aos vossos cônjuges, se forem cultos exclamarão com prazer: «Ah, Chekhov, sim, sempre e a qualquer hora; mais, mais»; se não forem cultos, acharão simplesmente que estais bêbados e um bêbado dificilmente consegue coiso e tal.

Vou-me lá, são horas de comer o caldo.

com verdade te minto, com ficção nem por isso [2]

Só há 5 mentiras no (meu) mundo: o Sr. Virgílio, canalizador; a morte da minha avó (uma mulher como a minha avó jamais nasceria para morrer e quem disser o contrário leva um tiro de caçadeira de dois canos no meio da testa; atenção, não estou a brincar); o meu mundo em si mesmo; o mundo para lá do meu mundo em si mesmo. E eu. De resto, acreditai em todas as mentiras ditas neste blogue, porque são verdadeiras. O mesmo se diga, e em contrário, das verdades aqui ditas.

paixão

Eu, que ainda ontem me sentia vivíssima por não ter certezas de nada, só nas últimas três horas cheguei a duas conclusões: 1) Não há nada mais sedutor nesta vida do que a contemplação de uma mulher com um violoncelo entre as pernas; 2) Não há nada mais ridículo nesta vida do que o paroxismo derivado das relações que nunca chegaram a existir.
Quer isto dizer que Álvaro de Campos sabia o que dizia quando falava das cartas de amor ridículas, mas nem por isso soube o que disse quando escreveu à mão cheia que a única conclusão é morrer. Acreditai em mim, eu sei o que estou a dizer. Enfim... A semana que vem é Semana Santa, costumo estar presente em todas as cerimónias pascais: quinta de última ceia e lava pés, sexta de paixão, sábado de vigília e aleluia. Aprecio as cerimónias até meio da vigília pascal, porque invocam a tristeza de morte e a tristeza da morte, e eu sou aquela pessoa muito triste que aos outros leva as alegrias da tristeza. Quando a meio da vigília pascal o padre inicia os cantos alegres da ressurreição, deixo-me ficar calada no meu canto, por baixo do nicho da senhora das dores como se estivesse por baixo das oliveiras do calvário, a achar que o mundo inteiro deveria botar a mão à consciência em vez de invocar para si os milagres da salvação. (uns minutos em silêncio) Não estava para escrever este post, antes pensei em partilhar convosco um trecho de uma sonata de fazer inveja ao sol esplendoroso dos últimos dias, é muito bela, é sim, composta por Johann Paul von Westhoff a quem eu gostaria de dizer o seguinte: - Johann Paul von Westhoff, nem só de Johann Bach vive o Homem, prezado Johann Paul von Westhoff.

31.3.09

hemorróidas

Em registo epistolográfico, Anton Chekhov deixa escrita a prova de que, a partir de hoje, não mais precisarei de me sentir envergonhada quando afirmar: - Tal-qualmente Chekhov sofria, também eu sofro da existência das minhas próprias hemorróidas, meu prezado cidadão. Não sinta vergonha, afirme-o também.

O meu olho esteve a doer ontem e hoje, por isso estou a escrever esta carta acompanhado de uma forte dor de cabeça e de uma sensação de corpo pesado. As minhas hemorróidas também me lembraram da sua existência.

Anton Chekhov. Viagem pelo império russo. p.52. [Trad. (muito reles é favor) de Carla Garrido Barata]

29.3.09

Aviso

A Noite de sempre, autorada por Rui Bebiano, agora em novas e ainda melhores vistas. Caso para afirmar que quem muda a noite ajuda.

23.3.09

da mensagem dentro da garrafa ao... twitter?

A verdade, tão irónica, é que precisamos urgentemente de mecanismos ou suportes de comunicação mais e mais velozes para mostrarmos ao mundo a crescente impossibilidade de comunicação, o quão sozinhos nos sentimos.
Não sem algum pejo, por mim falo.

22.3.09

East, sol que nasce a oeste [II]

Eastwood aconteceu no oeste


Eastwood, coroa luminosa do sol, nasce a Oeste, no coração de Leone, e só recentemente e com a mesma resplandecência parece começar a morrer a Este de East ou em si mesmo. Independentemente de lutarmos ou não por aquilo que ele significa, cada um de nós transporta em si o seu próprio Eastwood. Sobre a cena final de Aconteceu no Oeste -- lugar onde a aura de Eastwood já havia acontecido (vídeo em baixo) e, por conseguinte, inaugurado um olhar humano que contraria, em o desacelerando, o disparo abrupto da existência -- escrevi, no dia 24 de Setembro de 2007, neste mesmo blogue, o seguinte trecho que em nada alterei, porque nada (para o bem e para o mal) poderia ter mudado desde então. É um texto sobre Justiça, sobre um sol que nasce a oeste e que morrerá em East(wood):

Ensinou-me o meu pai que, a partir desta cena (vídeo ao alto), passa a ser possível fazer todos os travellings à figura sempre remota da Justiça - deslocando o nosso olhar para a frente, para trás, de cima para baixo e de baixo para cima, acompanhando-a lado a lado e circularmente, ou montando sobre ela uma larga panorâmica. Não obstante, ficaremos sempre com a impressão dolorosa da sua impossibilidade, ainda que ela esteja em todo o lado e mais ainda, a cada passo, no gatilho do justo, mas infeliz justiceiro. Se é disparada, mata; se não é disparada, deixa morrer. Onde há morte, parece não haver justiça e, no entanto, a morte parece ser o último aviso da Justiça, mas sem possibilidade de retorno.


Independentemente de lutarmos ou não por aquilo que ele significa, cada um de nós transporta em si o seu próprio Eastwood, senão leiamos antes estes belíssimos textos: Ricardo Gross, Sérgio Lavos, Ricardo Gross, mais Ricardo Gross. É espalhar em grande vento.


Lévin

Lévin, um migrante de leste, sentindo-se tão perdido neste mundo e arredores, resolve publicar um anúncio nos classificados do jornal local. Peço, a quem me possa ajudar, a seguinte informação: Onde posso encontrar sementes de clitórias e de cravinas? Oh, estou a brincar, o que vos peço mesmo é o seguinte:

e um só filho chamado Nicolau

José Rodrigues Miguéis é um Tolstoi português. Se me casasse, iria vestida de Karenina, com um ramo de camélias brancas que ofereceria ao altar de Santa Salomé dos milagres, haveria de ser a amante portuguesa de Oblonski, embora jamais viajasse com ele para Itália, porque em Itália, unidos por uma instituição amorosa, estaria a viver com o meu legítimo homem, o príncipe Fabrizio, pelo menos até ao dia em que celebrássemos bodas de ouro e no qual rebentasse uma guerra tão medonha que nos matasse durante um beijo.
Gostei muito do texto do Luís.

duas filhas de um regabofe


Estava para aqui a pensar na minha vida, no que O'Regabofe tem feito por mim que a minha querida mãe não poderia fazer ou ter já feito, e chá servido com madalenas ou uma operação de mudança de sexo de certeza o blogue não mos faz nem mos poderia fazer. O certo é que faço mais por este blogue do que ele tem feito por mim, inúmeras vezes promotor de terríveis acusações. Duas delas subsistem mais do que tantas outras. Por exemplo, não só na cabeça do João Carvalho, mas em muitas outras cabeças me acusam, embora gentilmente, de ser homem (a prová-lo, declara o João, está o buço que foi da allen, allen que, ao contrário de mim, se não se deixa afectar, isto porque, e dá de remate com provérbios antigos tais como «mulher de bigode ninguém a fode»). Todavia, do que me acusam mais é de, frequentemente, escrever um português exemplar (tão imperdoável em senhoras como em quengas, que me não ouça o Eastwood), com algumas falhas, é certo, e o que é certo é que pouco mais levarei desta vida. No entanto, e vede bem a ironia das coisas, se o acordo ortográfico vier a vingar, passarão a acusar-me frequentemente de analfabetismo. Porém, acredito que este blogue, num futuro longínquo, me fará a justiça de através dele vir a cumprir o meu objectivo mais significativo que não passa, naturalmente, pela transsexualidade, mas sim pelo fácil, suave e conformista sabor a derrota ortográfica. Eu mesma me pregarei numa cruz e exclamarei de olhos virados ao céu: Está tudo consumado. E dito isto, expirará o meu corpo de mulher iletrada semelhante a certas mulheres tolstianas que, no restolhar dos vestidos de baile, falam unicamente dos chapéus umas das outras e do palerma do Nikolai, que resolveu alistar-se na estúpida da guerra contra Napoleão em vez de ter ficado em Moscovo a dar beijinhos nas faces submissas da petite petite et chère Julie. Nessa altura todos olharão para mim, pregada aos madeiros d'O Regabofe, e exclamarão: Ah, afinal, ela era mesmo uma mulher! E a outra também, também é uma mulher, sim, afinal são duas mulheres. Vede como são fúteis sem pêlos no buço e por trás dos cosméticos, e que mal tratam a sua própria língua.

Em meu nome e no da allen: obrigada pelo linque, João. Agora já só tem para gastar mais duas tentativas. Tente acertar nos chapéus.

21.3.09

a luz da ignorância

O que sou, como leitora, resume bem a minha vida. Não procuro línguas originais nem mesmo quando se trata de literatura portuguesa (vá-se lá explicar isto), porque não domino nenhuma das línguas da Terra. Procuro, sim, a tradução que me pareça a melhor; quando a encontro, há um mistério que revela que assim é, a melhor. Como diria alguém que não conheço, a melhor, isto é, a mais iluminada de entre as ignorâncias.

primavera omissa

A janela do quarto está aberta e o estore corrido até meio, para que um vento inexistente entre e mova os cortinados. Pela casa soa o "A girl in port", dos Okkervil River. Lá fora uma noite quente de finais de Julho, só que em Março.
Finn

19.3.09

antologia da memória


A 7 de janeiro, o Estado Civil morre solteiro e parece não ter deixado filhos; depois o Luís que põe termo a uma Vida Breve. Não há muito tempo, a despedida da Carla de Elsinore. Intuímos inúmeras vacilâncias (inluindo a nossa), eventualmente um ano que dá princípio à morte da melhor blogosfera nacional (dela excluindo o nosso). Sem dramas, meus amigos, que isto é e será sempre assim. Para o bem e para o mal, há blogues que são partículas integrantes de um universo virtual maduro, completamente feito. O Insónia, ou Antologia do Esquecimento, é um deles. Despede-se hoje, confirmando, uma vez mais, o lugar de proveniência e destino de qualquer um de nós, forasteiros de nome Ninguém, ou do que quer que façamos. Lugar a que, honestamente, todos devemos chamar Passagem. Que vença, portanto, a memória da Passagem de Ninguém.

Obrigada, Henrique.

[Vídeo: Memória de uma das fitas de Leone, irónica e infelizmente das mais esquecidas.]

fraternidade


Rocco, o bom frágil; Simone, o bom fraco; Vincenzo, o bom conformista; Ciro, o bom prudente; Luca, a boa esperança; Rosaria, a boa mãe; e Nadia, a boa puta. Um Luchino Visconti em poucas e terríveis palavras.

18.3.09

pêlos no buço

Uma pessoa leva anos até que reencontra um velho amigo que deixou de (nos) reconhecer. Está a acontecer comigo. A última vez que achei que ele era um velho amigo, ainda não tinha descolorado os pêlos do buço, quanto mais tirá-los, sem que, no entanto, isso constituísse impedimento à consolidação de uma verdadeira amizade, ademais, uma verdadeira amizade sai sempre reforçada quanto mais naturalmente se contempla uma pequena excentricidade no amigo que a maioria das pessoas associaria ao padrão dos defeitos e fealdades. Entendemos que o velho amigo reencontrado nos deixa de reconhecer quando, volvidos tantos anos, a primeira pergunta que nos faz perdeu a pertinência de uma estética e ganhou o peso de um tempo em nós diferentemente instalado; O que fizeste ao buço? serve de pergunta metáfora para explicar que a amizade até suporta um décalage temporal, no entanto, jamais resistirá a um tão grande décalage estético-ideativo. O que o velho amigo deixou de reconhecer em mim foi que os pêlos do buço continuam lá, mesmo tendo sido tirados; já as ideias que não existiam quando ainda tinha um enorme bigode e, ainda assim, aos seus olhos lhe era perfeita, agora existem e constituem, muitas delas, enormes defeitos que ele não é capaz de reconhecer, achando-me, por isso, sem pêlos no buço e continuamente digna, como quando os tinha, de uma mesma e antiga devoção. Talvez o velho amigo seja aquele que é tão ou mais capaz de, ininterruptamente ao longo da vida, acompanhar e fundamentar os nossos defeitos em detrimento de uma veneração iconófila das nossas qualidades, tais como pêlos no buço e assemelhados. Escrevo isto com muita tristeza.

17.3.09

Maria Velho da Costa


«Da dor até à dor», MVdC por João Paulo Sousa.

isto é mais forte do que eu

É costume, no entanto, nenhum outro tema do Prós e Contras poderia ter sido mais impertinente do que o desta semana: O que é que Angola tem? Foda-se, a sério, já pareço o Maradona, mas seria de esperar outra reacção? O que é que Angola tem? Já toda a gente sensata e calculista sabe o que é que Angola tem, todavia, durante mais de duas horas foi ignorada a única pergunta pertinente da noite: O que é que Angola não tem? O que Angola não tem é aquilo que todos sabem, mas que os calculistas sem vergonha na cara ignoram: no mínimo dos mínimos, a inclusão da pobreza nos trâmites obscuros da produção de riqueza. O sr. dr. paineleiro Aguinaldo Jaime, um dos tais pretos de alma branca, resume bem a sua posição de economicista escondido por trás da lei da gravata: Se houver uma postura de respeito das leis e instituições, se houver uma postura de respeito para com o mercado, etc., etc., vós perdoai-me a redundância, mas deveria ter ficado numa senzala a levar fustigadas no seu cu gordo para ver como elas doem, e já agora vagar o lugar para a palavra angolana de gente como aquele senhor da audiência, em todo o debate o único branco angolano de alma preta, que teve a integridade (porque já não é uma questão de coragem) de abrir o peito às balas da corrupção e da pobreza. Alguém venha à caixa de comentários lembrar-me do nome dele, por favor, que é uma vergonha eu ter-me esquecido.

depois de maria não me mates que sou tua mãe*

Uma das melhores homenagens, em blogosfera, a portugal real.

* Título de novela camiliana.

16.3.09

é o diz-que-diz-que, Camilo


O Irmão Lúcia lembra muito bem o nascimento do homem que um dia ousou escrever qualquer coisa como Trago nos intestinos Teófilo Braga e uma ténia, e se não é Teófilo Braga, que a minha memória já não é o que nunca foi, pode sempre substituir-se o Teófilo por Manuel Pinheiro Alves. Também tenho umas coisas para contar em homenagem ao portentoso lingrinhas de Ceide. Uma vez fui visitar a propriedade de Ana Plácido, quer dizer, a propriedade que havia sido do seu primeiro legítimo marido e que passou, por ironias da morte, a último abrigo dos amores contrafeitos desta com o seu amante, Camilo Castelo Branco. Uma casa de primeiro andar sita em São Miguel de Ceide (ou Seide), cuja fachada principal exibe os ramos adejantes de um velho quercus que dizem ter sido plantado por Jorge, o filho enlouquecido de Camilo. Conforme se entra, damos de caras com estes retratos, e, para quem nunca viu o rosto de Camilo, cuidará que se trata do segundo à direita. Dizem que Ana Plácido se sentava amiúde no preguiceiro por baixo da grande chaminé minhota, devorando charutos à conversa com os camponeses. Acredito impetuosamente e sem provas. Numa das prateleiras da sala grande e do que resta da biblioteca do escritor, está um prato com folhas de jornal rasgadas em pedacinhos minúsculos e que o guia da casa disse terem sido rasgadas pelo grande amigo de Camilo, Feliciano de Castilho, que, por ser cego, gostava de manter as mãos sempre ocupadas. Lembro-me de ter enfiado uma mão cheia de pedacinhos de jornal dentro do bolso, isto aconteceu há uns anos, mas certamente já terão reposto mais pedacinhos de jornais do século XXI; para que conste, também guardo sempre alguns para limpar os vidros de minha casa. Durante a visita, desapareceu um turista português (eufémica para parvonês com interesses culturais) e fomos dar com ele de calças descidas e muito derreado, tentando levantar a chapa que tapa(va) a antiga latrina da casa. Ao nosso olhar de espanto, exclamou feroz e intrépido
- Queria sentir o que sentia Camilo quando expelia naturalmente os seus excrementos. - Meu deus do céu - pensei eu - há gente neste mundo que não entende que jamais poderia trazer Camilo na cabeça, quanto mais nos intestinos.

freud diz que os orgasmos clitoridianos são infantis

Por razões que desconheço, esta noite sonhei que ainda eu não tinha lido o guião do seu último filme e já Clint Eastwood me havia dispensado do elenco do mesmo, cujo título e data prevista para estreia só eu conheço. Entretanto, despedi-me de Eastwood enfunada e cheia de amargura, e fui para casa. Uma vez em casa, o sol começou a desfazer-se e enormes esferas de lume desataram a cair no quintal, corri para a mangueira e apaguei o lume com uma leve chuveirada. Liguei para os sapadores e estes informaram-me que ainda faltavam cair cerca de 85 mil esferas de lume e que, para meu grande medo, o fenómeno poderia repetir-se sobre as traseiras de minha casa. Já todos sabemos o que Freud pensa sobre os orgasmos clitoridianos, mas, por deus, o que diria Freud sobre isto?

Fila K - uma Cinemateca em Coimbra


Para quem não sabe, fique sabendo que, no meu tempo de estudante, o melhor usufruto de um cidadão decentemente residente em coimbra não ia para lá dos Hospitais da Universidade, além de que, naquele tempo, não havia nada disto, mas agora já há. Gastava os tostões que podia e não podia para me deslocar de carreira à cinemateca da Corte e depois comia nas cantinas do que os amigos me pagavam. Oquéi, estou a mentir, mas poder-me-ia ter acontecido realmente se este post não fosse sobre cinema e sim sobre a ficção da minha própria vida. Adiante. Para qualquer informação, consultar o site dos marginais assim aqui; adianto, desde já, que as sessões de terça comportam entrada livre e este mês é consagrado não a Maria, mas às marias de Cassavetes. No caminho para Fátima ou para os jogos do FCP, um excelente motivo para fazer o desvio e tomar poisada na cidade dos estudantes (de meia-tigela). Com a certeza de que a qualidade dos hospitais, à excepção da psiquiatria que nada tem feito pela cidade, continua garantida.

15.3.09

primeira grande enciclopédia de poche


«Banquetes reais, orgias anónimas, crises de bastidores, turismo pansexual, socialismo socialite, adultério, fetichismo, recriminação, propaganda, clisteres de vodka russo, poemas* em latim e name-dropping numa escala industrial: aqui está uma leitura de férias para toda a família».

* Não sei (eu, woody) se é falha involuntária na gráfica da Quetzal, no entanto -- meu deus, jamais pensei vir a precisar de os citar -- , ensinaram-me os meus mais 'queridos' lentes da academia de Coimbra que há que consultar sempre as «fontes originais».

linque-que-deslinque

Por vezes escrevemos coisas neste blogue que levam blogueres a deslincar este blogue. Normalmente isso acontece quando escrevemos coisas que não passam de coisas; nos dias que correm, a honestidade, por exemplo, não passa de uma coisa; enfim, coisas que não passam das coisas, talvez por isso nos custe mais os deslinques vindos de pessoas que achá(va)mos inteligentes. O amor, já dizia a Amália, é aquilo que nunca me desiludiu. O que nunca nos desiludiu até hoje? Flores do monte, por exemplo.

vestido de quarto

Muito provocante, esta relação não propriamente oposta de eu preferir a belga quando a allen prefere a de Amsterdão. Ai tchiki-tchiki, ai mulheres das nossas vidas.

dos gases atmosféricos ao homo eroticus

No Grande Dicionário de Cândido de Figueiredo ficamos a saber que um pião é uma peça de metal ou madeira, em forma proximamente cónica, com um ferrão na ponta, e que os rapazes jogam, enrolando-lhe e desenrolando-lhe uma guita. Quando li isto pensei que não seria necessário recuperar Boaventura de Sousa Santos dos meus tristes tempos de Universidade para perceber que foi escrito a um tempo cujo pólo científico dominante, ditado por premissas de teor sexista, era o masculino em prejuízo do feminino. Ontem vi um programa no Odisseia sobre o Clítoris, fiquei a saber que a cabeça ou glande do clitóris apresenta normalmente 8000 feixes de fibras nervosas, e que bem precisamos deles para nos resgatarmos do ferrão na ponta do pião. Mas voltemos ao pião. Acusavam-me de ser maria-rapaz por, entre outras brincadeiras associadas à superioridade da glande masculina, jogar ao pião e, desde muito cedo, saber imitar de cor e salteado os vaqueiros do Leone. É fodido, se tivesse apreciado mais a imitação das mulheres da pradaria (preferências da woody), muito provavelmente acusar-me-iam de putinha de saloon e quejandos. Basicamente, e se não degenerou no híbrido maria-rapaz, a mulher ainda se encontra sobre a linha de fronteira entre a mãezinha estado-novista e a grandessíssima putéfia; estamos, infelizmente, longe de um conhecimento que evolua para a equação de forças materno-paternais e o seu consequente prolongamento rumo à supremacia do prazer homo eroticus. Uma epistemologia natural que fundisse, de uma vez por todas, a mãe à puta, e que de uma costela desta fusão se criasse um novo homem. Enfim, tudo isto para vos perguntar, meus ledores cripto-libidinosos, onde poderei arranjar sementes de clitória?

vidas privadas

Esta noite dormi em casa da allen. Uma vez acordada bem cedo, decidi fazer-lhe o pequeno-almoço e levar-lho à cama, e assim o fiz. Fui dar com ela a ler a tradução de Guerra e Paz dos Guerra e resmungando ao mesmo tempo contra a tradução de Anna Karenina feita por Saramago, a sentir pena de quem gosta de ler Saramago, essa fraude comunista, a lamentar-se de quem nunca se comoveu numa linha de Lobo Antunes a ponto de se deixar chorar lentamente e em silêncio. Fui concordando e acenando com a cabeça, conforme segurava o tabuleiro e soprava sobre a caneca de leite com café, Sim, só gosta de ler Saramago -- bufffff! -- quem nunca se comoveu --bufffff!-- numa única linha de Lobo--buffff!-- Antunes -- já está como gostas, bebe! Quando subi para buscar o tabuleiro, dei com ela no terraço alto em robe de chambre, autêntico vestido de quarto, de chapéu de abas largas na cabeça e a lançar o pião das muitas maneiras como só ela o sabe fazer. Não serei a mesma se um dia a allen morrer à minha frente, provavelmente de insuficiência cardíaca depois de me terem detectado um cancro no útero.

andas a precisar de apanhar ar

Apesar de, habitualmente, me deitar muito tarde, desde há umas semanas para cá que me levanto muito cedo, este ano calhou começar a levantar-me cedo durante aquelas duas últimas de fevereiro que, inadvertidamente, vieram bastante quentes. É como diz a allen, chega o março e começo a gostar de apanhar o ar fresco da manhã. Umas vezes corro atrás dele, tem dias que uso uma rede que herdei do próprio Nabokov.

13.3.09

bosta

Anda no ar um cheiro a bosta que eu sei lá, provavelmente das cavalariças de uma escola agrícola aqui das cercanias. Por falar em bosta, e por falar em indivíduos da parvónia, o cheiro da bosta lembra-me sempre uma história contada por familiares meus. O Sr. Armando, o peludo de alcunha, irmão de um tio meu e emigrante muitos anos em França, quando regressava de férias em agosto, entrava no país por trás-os-montes, abria o vidro do peugeot 505 e exclamava alto como um quim barreiros: Ai, mulher, que bom cheirinho a bosta, já chegámos a portugal. O povinho nem se dá conta do quanto é metáfora para si mesmo.

IRS/08 (II)

Engordando a olhos vistos, o peso do sr. primeiro ministro que, pode dizer-se, em quatro anos passou de gazela a bisonte, não tem espaço na agenda para reavaliação dos Direitos Fundamentais dos (donos dos) Animais. É uma vergonha que não seja possível deduzir despesas de veterinário no IRS. Aquela cambada de ursos de assembleia teria muito por onde deduzir se assumissem o que verdadeiramente são. Muito sinceramente, Sr. Engº, deite a mão à consciência e em vez de ir para a Suíça esquiar como um lorde e lesionar-se como um parvonês, aprenda como é que as vacas lá, e isento-me de mais comparações, são verdadeiras senhoras. Nunca falei tão a sério na puta da minha vida.

IRS/08

Só de recibos hospitalares por desembaraço de espinhas encravadas na goela, tenho muito por onde deduzir. Podia ser podia, aguçado leitor, mas não se trata de uma metáfora. Da primeira vez, carapaus à espanhola. Da segunda, sardinha assada com pimentos da tia Isaura. Da terceira, dourada assada na brasa com batata a murro e um fio de azeite de Macedo de Cavaleiros (produção particular). Da quarta, foi tão mau que me esqueci de que peixe tenha sido, lembro-me apenas de ter metido o cartão do médico na mochila, copiado para o mp3 umas músicas de Gustav Mahler e vestido uma roupa asseada antes mesmo de me sentar à mesa. E das outras tantas nem vale a pena amanhar discurso. Tento, ao menos, que aconteça aos domingos e terças, por causa do decote perfumado da Drª Glória e das mãos atrevidas do Dr.Miguel. Também tenho fantasias com mancas e mudos, enfim, o IRS mexe comigo.

suspense

A operadora Celeste Mateus tinha acabado de registar um prato de rojões de porco, um creme de cenoura, uma água sem gás e um copo de sumol de laranja quando nisto...